ac 2343

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E comeram’; que signifique a apropriação, é o que se vê pela significação de ‘comer’, que é ser comunicado e ser conjunto, por conseguinte, ser apropriado, assim como se mostrou (n. 2187). Por tudo que se disse e se explicou até agora, pode-se ver como as coisas que estão contidas no versículo precedente e neste estão ligadas e são coerentes no sentido interno, pelo fato de que os anjos significam o Divino Humano e o Santo Procedente do Senhor: por ‘desviar para ele’ é significado ter morada; por ‘entrar para a casa dele’, ser confirmado no bem; por ‘fazer um banquete’, coabitar; por ‘coser ázimos’, ser purificado, e por ‘comer’, ser apropriado. Daí se vê manifestamente qual é a série das coisas no sentido interno, embora não apareça absolutamente coisa alguma no sentido histórico.
[2] Tal é a ordem e a série em todas e cada uma das coisas da Palavra; mas a própria série não pode, na explicação das palavras em particular, se mostrar claramente tal qual ela é, porque daí resulta que as coisas se apresentam separadas e a continuidade do sentido é dissipada; mas essa série pode mostrar-se claramente quando são todas consideradas ao mesmo tempo em uma só ideia, ou quando são percebidas por uma única intuição do pensamento, assim como entre os que estão no sentindo interno e, ao mesmo tempo, na luz celeste que procede do Senhor. Esses veem com evidência, nessas palavras, a progressão inteira da reforma e da regeneração dos que se tornam homens da igreja, que são aqui representadas por Ló, a saber, que primeiro eles percebem alguma coisa da tentação, e que, quando eles persistem e vencem, o Senhor tem morada neles e os confirma no bem, os introduz para junto de Si em Seu Reino, coabita com eles, e aí os purifica e os aperfeiçoa e, ao mesmo tempo, lhes apropria os bens e as felicidades, e isso por seu Divino Humano e seu Santo Procedente.
[3] Que seja do Senhor só que venha toda regeneração, ou toda vida nova, por conseguinte, a salvação, é o que, de fato, é conhecido na igreja, mas poucos o creem; se não o creem, a causa é porque não estão no bem da caridade. É tão impossível aos que não estão nesse bem crê-lo, como o é a um camelo passar pelo furo de uma agulha, porque o bem da caridade é o húmus mesmo que recebe as sementes da fé. O vero e o bem estão de acordo, mas o vero e o mal jamais o estarão, eles são de índole contrária e têm aversão um pelo outro; por isso, quanto mais o homem está no bem, outro tanto ele pode estar no vero, ou quanto mais ele está na caridade, outro tanto ele pode estar na fé, principalmente neste ponto principal da fé: que toda salvação vem do Senhor.
[4] Que é este o ponto principal da fé, é o que se vê por muitas passagens da Palavra, por exemplo em João:
“Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (3:16).
No mesmo:
“O que crê no Filho tem a vida eterna, mas o que não crê [no] Filho, não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele” (João, 3:36).
No mesmo:
“Esta [é] a obra de Deus: Que creiais n’Aquele a Quem o Pai enviou” (João, 6:29).
No mesmo:
“Esta é vontade d’Aquele que Me enviou: que todo aquele que vê o Filho e crê n’Ele tenha a vida eterna, e ressuscitá-lo-ei no último dia” (João, 6:40).
No mesmo:
“A não ser que creiais que Eu sou, morrereis em vossos pecados” (João, 8:24).
No mesmo:
“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá; todo aquele, porém, que vive e crê em Mim não morrerá pela eternidade” (João, 11:25, 26).
[5] Que ninguém possa crer no Senhor a menos que esteja no bem, isto é, que ninguém possa ter fé a não ser que esteja na caridade, é o que se vê também em João:
“[Mas] a todos quantos [O] receberam, deu-lhes o poder para que fossem filhos de Deus, aos que crescem no nome d’Ele, os quais não de sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus, nasceram” (1:12, 13).
E no mesmo:
“Eu sou a videira, vós, as varas; aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse produz muitos frutos, porque sem Mim não podeis fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como as varas e secará. [...] Assim como o Pai Me amou, assim Eu vos amei; permanecei no Meu amor. [...] Este é o Meu mandamento: que vos ameis um aos outros, assim como vos amei” (15:5, 6, 9, 12).
[6] Daí se vê que o amor ao Senhor e a caridade para com o próximo sejam a vida da fé; mas que os que estão no mal, isto é, na vida do mal, nunca possam crer que toda a salvação venha do Senhor, é o que eu pude verificar por aqueles que, do mundo cristão, chegaram a outra vida, até pelos que, na vida do corpo, segundo o doutrinal da fé, tinham professado de boca e até ensinaram que sem o Senhor não há salvação, os quais tinham entretanto estado na vida do mal; e, quando apenas se mencionava o Senhor na presença deles, logo eles enchiam a esfera deles de meros escândalos, porque na outra vida o que eles somente pensam é percebido e eles espalham ao redor de si uma esfera em que a sua fé se manifesta tal qual ela é (ver n. 1394).
[7] Entre os mesmos, quando apenas se mencionava o amor ou a caridade, percebia-se como alguma coisa de tenebroso e, ao mesmo tempo, de grumoso, que provinha de seu amor impuro, e que era de tal natureza, que ele extinguia, sufocava e pervertia todo o perceptivo do amor pelo Senhor e da caridade para com o próximo. Tal é hoje a fé que se diz salvar sem os bens da caridade.
[8] Perguntou-se também a esses mesmos espíritos, que fé eles tinham tido, por isso que declaravam não ter tido aquela que tinham professado de boca na vida do corpo; e disseram (porque ninguém, na outra vida, pode ocultar o que pensa) que tinham crido em um Deus criador do universo; mas tendo sido examinados para que se verificasse se assim era, descobriu-se que eles não tinham crido em Deus algum, mas tinham pensando que todas as coisas vinham da natureza e que tudo que se dizia da vida eterna era apenas uma fábula. Tal é a fé dos que, no interior da igreja, não creem no Senhor, mas dizem que eles creem em um Deus criador do universo, pois o vero não pode influir senão do Senhor, e o vero só pode ser semeado no bem que procede do Senhor.
[9] Que o Divino Humano e o Santo Procedente do Senhor seja [aquilo] pelo que e segundo o que há vida e salvação, é o que se sabe de um modo claro pelas palavras da Santa Ceia: “Este é o Meu corpo; este é o Meu sangue”; sabe-se que é o Divino Humano do Senhor e que daí venha toda santidade. Quer se diga o Divino Humano, ou o corpo, ou a carne, ou o pão, ou o Divino amor, é a mesma coisa; com efeito, o Divino Humano do Senhor é o puro amor, e a santidade pertence ao amor só, mas a santidade da fé procede d’Ele.

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