ac 2383

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Que ‘feriram de cegueira’ signifique que estavam repletos de falsidades, é o que se vê pela significação da ‘cegueira’. Na Palavra, a ‘cegueira’ é predicada dos que estão no falso assim como dos que estão na ignorância do vero; uns e outros são chamados ‘cegos’, mas é pela série das coisas, principalmente no sentido interno, que se pode ver quais são os que devem ser entendidos. Que os que estão no falso são chamados ‘cegos’, consta nas passagens que seguem: Em Isaías:
“As suas sentinelas são cegas, todas elas não sabem nada, todas elas [são] cães mudos, não podem ladrar” (56:10);
as ‘sentinelas cegas’ designam os que, pelo raciocínio, estão no falso. No mesmo:
“[...] Esperamos a luz, e eis trevas, os esplendores, [mas] na escuridão andamos. Apalpamos a parede como cegos; [...]” (Is. 59:9, 10).
Em Jeremias:
“Erraram como cegos nas praças; mancharam-se de sangue; os que não podem, tocam as suas vestimentas” (Lm. 4:14);
isto é, que todos os veros foram manchados; as ‘praças’ são os veros nos quais eles erraram (n. 2336).
[2] Em Zacarias:
“Nesse dia ferirei todo cavalo de estupor, e o seu cavaleiro de furor; ...todo cavalo dos povos ferirei de cegueira” (12:4);
aqui e em outras passagens da Palavra, o ‘cavalo’ é o intelectual; é por isso que se diz que “o cavalo seria ferido de cegueira”, isto é, que o intelectual ficaria repleto de falsidade.
[3] Em João:
“Eu vim ao mundo para o juízo, para que os que não veem vejam, mas, os que veem se tornem cegos. [E] alguns dos fariseus, ouvindo estas [palavras], disseram: E também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fosseis cegos não teríeis pecado, agora, porém, dizeis: Vemos. Por isso, o vosso pecado permanece” (9:39–41).
Aqui são os cegos em um e outro sentido, a saber, os que estão no falso e os que estão na ignorância do vero. Entre os que estão no interior da igreja e que sabem o que é o vero a cegueira é a falsidade; mas entre os que não sabem o que é o vero, por exemplo, os que estão fora da igreja, a cegueira é a ignorância do vero, estes [últimos] não são culpados.
[4] No mesmo:
“Cegou os seus olhos e endureceu o seu coração, para que não vejam com os seus olhos, e compreendam de coração e [Eu] os sare” (João, 12:40; Is. 6:9–11);
isto é, que seria melhor para eles que estivessem nas falsidades do que estarem nos veros, porque eles estavam na vida do mal, e que se chegassem a ser instruídos nos veros, não só eles os falsificariam ainda como até os manchariam pelos males; é por um semelhante motivo que “os varões de Sodoma foram feridos de cegueira”, isto é, que os doutrinais seriam inteiramente repletos de falsidades; por que isso se efetuou, foi demonstrado (n. 301, 302, 303, 593, 1008, 1010, 1059, 1327, 1328, 2026).
[5] Como a cegueira significava o falso, é por isso que na igreja representativa judaica foi proibido sacrificar uma vítima cega (Lv. 22:22. Dt. 15:21. Ml. 1:8); tinha sido também proibido ao sacerdote que se tornou cego aproximar-se para oferecer sobre o altar (Lv. 21:8, 21).
[6] Que a cegueira se diga da ignorância do vero, tal qual a em que estão as nações, é o que se faz evidente em Isaías:
“Ouvirão naquele dia os surdos as palavras do Livro, e, [libertos] da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão” (29:18);
os ‘cegos’ estão no lugar dos que estão na ignorância do vero, principalmente os que estão fora da igreja. No mesmo:
“Faze sair o povo cego, e olhos [eles] terão, e os surdos, e orelhas eles terão” (Is. 43:8);
onde se trata da igreja das nações. No mesmo:
“Conduzirei os cegos em um caminho [que] não conheceram; ... porei as trevas diante deles em luz” (Is. 42:16);
[7] e no mesmo:
“[...] Dar-te-ei por luz do povo101, para abrir os olhos cegos, para tirar da prisão o preso, e da casa do cárcere os que estão assentados nas trevas” (42:6, 7);
onde se trata do Advento do Senhor: que então deviam ser instruídos os que estavam na ignorância do vero. Com efeito, os que estão na falsidade não se deixam assim instruir, porque eles conheceram o vero e se confirmaram contra ele, e mudaram a luz em trevas que não se dissipam. Em Lucas:
“Disse o pai de família ao seu servo: Vai depressa às ruas da cidade, e os pobres, e os manetas, e os coxos, e os cegos introduze aqui” (14:21);
onde se trata do Reino do Senhor. É evidente que não são os pobres, nem os manetas, nem os coxos, nem os cegos que são significados, mas são os que, no sentido espiritual, são pobres, manetas, coxos ou cegos.
[8] No mesmo:
“Disse Jesus para que respondessem a João que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é pregado o evangelho” (Lc. 7:22).
De acordo com o sentido da letra, pelos ‘cegos’, ‘coxos’, ‘leprosos’, ‘surdos’, ‘mortos’, ‘pobres’, só se entendem os que são tais, porque isso mesmo sucedeu, isto é, que os cegos recuperaram a vista, os surdos, a audição, os leprosos, a saúde, os mortos, a vida.
[9] Mas ainda assim no sentido interno se entende os mesmos de que se fala em Isaías:
“Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão; e o coxo saltará como um cervo, e o mudo cantará com a língua” (35:5, 6);
onde se trata do Advento do Senhor e então da Nova Igreja, que é denominada [igreja] das nações, das quais se diz que os que as compunham eram cegos, surdos, coxos, mudos, sendo assim chamados quanto à doutrina e à vida. De fato, cumpre saber que todos os milagres que foram feitos pelo Senhor sempre envolveram e, por conseguinte, significaram coisas tais como as que se entendem, no sentido interno, pelos cegos, os coxos, os leprosos, os surdos, os mortos, os pobres; daí, os milagres do Senhor foram Divinos, como também os que foram feitos no Egito, no deserto, e todos de que se fala na Palavra; isto é um arcano.

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