Texto
. ‘E eles se fatigaram para encontrar a porta’; que signifique ao ponto que eles não podiam ver vero algum que conduzisse ao bem, é isso evidente pela significação da ‘porta’, que é a introdução e o acesso, e que é o vero mesmo, porque introduz para o bem, do que se tratou acima (n. 2356). Aqui, porém, pela ‘porta’ são significadas as cognições que introduzem para os veros, pois a porta, como foi dito acima (n. 2356), estava diante da casa; afinal se diz que “Ló saiu à porta, e fechou a entrada atrás de si” (vers. 6). Daí, ‘Fatigar-se para encontrar a porta’102 é não ver vero algum que conduz ao bem.
[2] Tais se tornam, principalmente nos últimos tempos, os que a partir do raciocínio rejeitam as coisas doutrinais e não creem em coisa alguma, a não ser que tenham primeiro compreendido. A vida do mal influi então continuamente no racional desses, e ela então derrama nele uma sorte de luz enganosa proveniente do fogo das afeições do mal, e faz com que eles vejam os falsos como veros, como os que, em sua luz noturna, veem fantasmas; depois estes mesmos falsos são confirmados por muitas coisas e se tornam coisas doutrinais. Assim são os doutrinais dos que dizem que a vida, pertencendo à afeição, nada faz; mas que a fé, pertencendo ao pensamento, faz tudo.
[3] Qualquer um pode conhecer que todo princípio, seja ele qual for, uma vez adotado, seja ele o falso mesmo, pode ser confirmado por inúmeros meios e apresentar-se assim na forma externa como se fosse o vero mesmo. Daí as heresias de que nunca se retira quando elas foram uma vez confirmadas. Mas de um único princípio falso não dimanam senão falsos, e se alguns veros foram neles misturados, a verdade é que eles se tornam veros falsificados quando servem para confirmar o princípio falso, pois foram corrompidos pela essência do princípio.
[4] É absolutamente diferente se o vero mesmo é tomado por princípio e se este princípio é confirmado; por exemplo, que o amor ao Senhor e a caridade para com o próximo são os dois veros de que depende toda a Lei e dos quais falam todos os Profetas, e que esses veros são assim os essenciais de toda Doutrina e de todo culto; então a mente seria esclarecida pelas inúmeras verdades que estão na Palavra, as quais, de outro modo, se acham ocultas no obscuro do princípio falso; e mesmo então as heresias seriam dissipadas, e de muitas igrejas se formaria uma só, fosse qual fosse a diferença que existisse nas coisas doutrinais que daí derivassem ou que para lá conduzissem, e fosse qual fosse a diferença que também existisse entre os ritos.
[5] Tal foi a Igreja Antiga que se estendera sobre muitos reinos, a saber, sobre a Assíria, a Mesopotâmia, a Síria, a Etiópia, a Arábia, a Líbia, o Egito, a Palestina até Tiro e Sidon, sobre a terra de Canaã aquém e além do Jordan; entre esses povos, os doutrinais e os ritos diferiam; todavia, a igreja era uma só, porque a caridade era para eles o essencial; e então o Reino do Senhor era na terra como é nos céus, porque tal é o céu (ver n. 684, 690). Se assim sucedesse, todos os homens seriam governados pelo Senhor como um só homem, porque eles seriam como os membros e os órgãos de um mesmo corpo, os quais, ainda que não sejam de uma semelhante forma e não tenham uma semelhante função, se referem sempre a um só coração de que eles dependem todos, tanto em geral como em particular, em sua forma, que é, portanto, variada. Então cada um diria, em qualquer doutrina e em qualquer culto externo que estivesse: “Este é meu irmão, vejo que este adora o Senhor e que ele é bom”.