Texto
. ‘Ainda tens alguém aqui? Genro e os teus filhos, e as tuas filhas, e tudo que tens na cidade, tira[-os] fora do lugar’; que signifique que todos que estão no bem da caridade e todas as coisas que pertencem a esse bem seriam salvos, e também os que estão no vero da fé, se eles se afastassem do mal, vê-se pela significação dos ‘genros’, ‘filhos’, da ‘cidade’ e do ‘lugar’, de que tratará.
[2] Que os que estão no vero da fé, se se afastam do mal, são salvos, eis como: Os veros da fé são os vasos mesmos que recebem o bem (n. 1900, 2063, 2261, 2269), e eles recebem o bem tanto quando o homem se afasta do mal; porque o bem influi continuamente do Senhor, mas é o mal da vida que impede que ele seja recebido nos veros que estão no homem em sua memória, ou em seu conhecimento. Sendo assim, quanto mais o homem se afasta do mal, tanto mais o bem entra e se liga aos seus veros; então o vero da fé nele torna-se o bem da fé. O homem na verdade pode conhecer o vero e também confessá-lo à incitação de algum motivo mundano, e até mesmo ser persuadido que é o vero, mas a verdade é que esse vero não vive enquanto ele estiver na vida do mal, pois tal homem é como uma árvore com folhas e sem frutos; e esse vero é como a luz absolutamente privada do calor, tal como a da estação do inverno, em que nada cresce; mas, quando o calor lhe é adjunto, a luz se torna tal qual ela é na estação da primavera, em que tudo cresce. O vero, na Palavra, é comparado à luz e é chamado luz; mas o calor é comparado ao amor e é chamado também calor espiritual. Na outra vida, o vero também se manifesta pela luz, e o bem, por sua vez, pelo calor; mas o vero sem o bem se manifesta por uma luz fria, e com o bem, por uma luz semelhante à da primavera. Por esse modo se vê o que é o vero da fé sem o bem da caridade. Eis por que os genros e os filhos, pelos quais são significados tais veros, não foram salvos, mas Ló com as filhas o foram.
[3] Como aqui se diz que também os que estão no vero da fé, se se afastarem do mal, são salvos, deve-se saber que são os que professam a fé e que nada pensam a respeito da caridade por razão de que eles foram assim instruídos e que ignoram o que é a caridade, pensando que ela consiste somente em dar a outros o que pertence a si e ter misericórdia de cada um; e também porque eles ignoram o que é o próximo ao qual a caridade deve ser exercida, pensando que essa expressão encerra, em geral, todos os homens sem quase diferença alguma. E, no entanto, aqueles vivem na vida da caridade para com o próximo porque estão na vida do bem, em nada lhes é prejudicial o professar a fé com os outros, porque a caridade está em sua fé. De fato, a caridade significa todos e cada um dos bens da vida. Eis por que, na continuação, pela Divina Misericórdia do Senhor, se dirá o que é a caridade e o que é o próximo.