. Que ‘a sua esposa olhou para trás dele’ signifique que o vero se desviou do bem e se voltou para as coisas doutrinais, é o que se vê pela significação de ‘olhar para trás dele’ e pela significação da ‘esposa’. Que ‘olhar para trás dele’ seja voltar-se para as coisas doutrinais que pertencem ao vero e não para a vida segundo os doutrinais, a qual pertence ao bem, é o que acima se disse (n. 2417). Com efeito, a expressão dita, “atrás dele”, indica o que é posterior, e a expressão “adiante dele”, o que é anterior. Que o vero seja posterior, e o bem, anterior, é o que muitas vezes já se mostrou. O vero pertence, de fato, ao bem, porque a essência e a vida do vero é o bem; ‘olhar atrás dele’ é, pois, voltar-se para o vero que pertence ao doutrinal, e não para o bem, que pertence à vida segundo o doutrinal. Que sejam estas as coisas que são significadas, vê-se manifestamente pelas palavras do Senhor, onde também Ele fala do último tempo da igreja, ou consumação do século, em Lucas: “Neste dia, o que estiver sobre a casa, e os vasos dele na casa, não desça para os levar; e quem estiver no campo, igualmente não volte para trás dele. Lembrai-vos da esposa de Ló” (17:31, 32); [2] Essas palavras do Senhor não são de modo algum inteligíveis sem o sentido interno, portanto, a não ser que se saiba o que é significado por ‘estar sobre a casa’, o que pelos ‘vasos [que estão] na casa’, por ‘descer para os levar’, pelo ‘campo’ e, enfim, por ‘voltar para trás dele’. Segundo o sentido interno, ‘estar sobre a casa’ é estar no bem, que a ‘casa’ seja o bem, foi visto (n. 710, 2233, 2234). Os ‘vasos na casa’ são os veros que pertencem ao bem; que os veros sejam os vasos que contêm o bem, foi visto (n. 1496,1832, 1900, 2063, 2269); ‘descer para os levar’ é desviar-se do bem para o vero, o que é evidente, afinal, o bem sendo anterior é também superior, e o vero sendo posterior é também inferior. Que o ‘campo’ seja a igreja, chamada assim por causa da semente que recebe, e que, por conseguinte, os que estão no bem da doutrina sejam campos, é o que é evidente por muitas passagens da Palavra. Daí se vê claramente o que significa ‘voltar[-se] para trás dele’, a saber, é desviar-se do bem e voltar-se para as coisas doutrinais. É por isso que, como é isso o que significa a esposa de Ló, se acrescenta: “Lembrai-vos da esposa de Ló”. Não se diz que ela “olhou para trás de si”, mas se diz que ela “olhou para trás dele”, porque Ló significa o bem (n. 2324, 2351, 2371, 2399); daí vem que, quando falaram a Ló (vers. 17), que [pelos dois Varões] lhe fora dito “não olhes atrás de ti”. [3] Se em Lucas se diz “não volte para trás dele”, e não “para as coisas que estão atrás dele”, é porque os [anjos] celestes nem sequer querem nomear alguma coisa que pertença ao doutrinal (ver n. 202, 337); é por esta razão que nada foi nomeado, mas se disse ‘para trás dele’. Essas mesmas coisas são assim descritas em Mateus: “Quando virdes a abominação da desolação predita por Daniel, o profeta; então os que estão na Judeia fujam para as montanhas; quem estiver sobre a casa, não desça para tomar alguma coisa de sua casa; e quem [estiver] no campo, não se volte para trás para levar as suas vestimentas” (24:15–18); [4] onde a ‘abominação da desolação’ é o estado da igreja quando é nulo o amor e nula a caridade, os quais estando desolados, reinam coisas abomináveis. Que a ‘Judeia’ seja a igreja, e, na verdade, a igreja celeste, vê-se em toda a parte pela Palavra, tanto histórica como profética, do Antigo Testamento. Que ‘as montanhas para as quais deveriam fugir’ sejam o amor ao Senhor e, conseguintemente, a caridade para com o próximo, foi visto (n. 795,1430, 1691); ‘o que está sobre a casa’, que seja o bem do amor, e que ‘descer para levar alguma coisa da sua casa’ seja desviar-se do bem para o vero, é o que acaba de ser dito; que ‘os que estão no campo’ designam aqueles que estão na igreja espiritual, vê-se pela significação do ‘campo’ na Palavra; ‘não se volte para trás para levar as suas vestimentas’, que seja ‘não se volte do bem para o vero que pertence ao doutrinal’, porque as ‘vestimentas’ significam os veros, é porque os veros revestem o bem como a roupa cobre o corpo (ver n. 1073). Qualquer um pode ver que tudo que o Senhor diz nesta passagem sobre a Consumação do Século, significa uma coisa absolutamente diferente e envolve arcanos, como quando Ele diz que os que estão na Judeia devem fugir para as montanhas, que aquele que está sobre a casa não deve descer para levar alguma coisa de sua casa, e que aquele que está no campo não deve voltar atrás para tomar as suas vestimentas; o mesmo acontece quando ele diz que Ló não devia olhar para trás dele (vers. 17), e aqui, que sua esposa olhou para trás dele. Em uma palavra, isso é evidente pela significação da ‘esposa’, que é o vero (n. 915, 1468), e pela significação de Ló, que é o bem (n. 2324, 2351, 2371, 2399); é daí que se diz ‘atrás dele’. [5] Diz-se que o vero se desvia do bem e se volta para as coisas doutrinais quando não vem mais do coração pela qualidade da vida para que o homem seja da igreja, mas sim pela qualidade da doutrina, quando, todavia, a vida segundo a doutrina faz o homem da igreja, e não a doutrina separada da vida. Por isso que, quando a doutrina é separada da vida, o bem que pertence à vida tendo sido devastado, o vero que pertence à doutrina é também devastado, isto é, “se torna estátua de sal”. Que qualquer um possa saber que olha somente a doutrina e não a vida, se, ainda que a doutrina ensine, ele considera se crê na ressurreição, no céu, no inferno e mesmo no Senhor, assim, em todas as outras coisas que pertencem à doutrina.