. Que esses versículos signifiquem, no sentindo interno, as coisas que acabam de ser expostas, é o que se pode confirmar, e até quanto a cada palavra; mas, além de que a maior parte dessas significações já foram confirmadas, há também, nesses versículos, expressões que são tais, que elas ofendem as ideias e os ouvidos castos. Segundo a explicação sumaria pode-se ver que por esses fatos se acha descrita a origem de tal religiosidade que é significada, na Palavra, por Moab e pelo filho de Ammon [Ben-Ami]. Na sequência, onde se tratar de Moab e do filho de Amon, dir-se-á qual é [essa religiosidade]; vê-se claramente que é o bem adulterado e o vero falsificado. Na Palavra, as adulterações do bem e as falsificações do vero são comumente descritas por meio de adultérios e escortações, e são também assim chamadas; a causa vem disso, que o bem e o vero formam entre si um casamento (n. 1904, 2173); e mesmo, o que dificilmente alguém pode crer, daí vem, como de seu princípio genuíno, a santidade dos casamentos na terra, e também vêm as leis dos casamentos, das quais se fala na Palavra. [2] Eis, com efeito, como as coisas se passam: Quando as coisas celestes com as espirituais descem do céu na esfera inferior, elas se mudam absolutamente em semelhanças de casamentos, e isso a partir da correspondência que existe entre as coisas espirituais e as naturais, correspondência de que se falará, pela Divina Misericórdia do Senhor, em outro lugar. Mas quando elas são pervertidas na esfera inferior, como sucede aí onde estão os maus gênios e os maus espíritos, então elas, do mesmo modo, se mudam em coisas tais quais as que se referem aos adultérios e às escortações. Daí vem que as contaminações do bem e as perversões do vero sejam descritas, na Palavra, por meio de adultérios e escortações, e sejam também assim chamadas; como se pode ver claramente por estas passagens: Em Ezequiel: “...[e] te escortaste por causa do teu nome, e derramaste as tuas escortações sobre todo transeunte. Tomaste das tuas vestimentas, e te fizeste lugares elevados de diversas cores, e te escortaste sobre ele, ... Tomaste os teus vasos ornados que te dera do meu ouro e da minha prata e fizeste para ti imagens de macho, e te escortaste com elas. Tomastes os teus filhos e as tuas filhas que pariste para mim, e os sacrificaste a eles;... São poucas coisas sobre as tuas escortações? [...] te escortaste com os filhos do Egito, teus vizinhos, grandes pela carne; e multiplicaste a tua escortação para Me irritar. [...] te escortaste com os filhos de Asshur, ... e te escortaste com eles e não te fartaste; e multiplicaste a tua escortação, até a terra da negociação, a Caldeia, entretanto, não te saciaste” (16:15–17, 20, 26, 28, 29 e seguintes). [3] Onde se trata de Jerusalém, por meio da qual, aí, é significada a igreja pervertida quanto aos veros. Que todas essas coisas signifiquem absolutamente outras, é o que qualquer um pode ver. Que a perversão da igreja é chamada escortação é evidente; as vestimentas aí são os veros que são pervertidos; daí os falsos que se tornaram objetos de cultos são os ‘ornatos de diversas cores para os lugares altos com os quais há escortação’. Ora, que as ‘vestimentas’ sejam os veros, foi visto (n. 1073), e que os ‘lugares altos’ sejam o culto, no n. 796. Os ‘vasos ornados de ouro e prata que [eu] tinha dado’ são as cognições do bem e do vero extraídas da Palavra, pelas quais se confirmam os falsos, que, aparecendo como nos veros, são chamados imagens de macho com as quais há escortação. Que os ‘vasos ornados de ouro e prata’ sejam as cognições do bem e do vero, é isso evidente pela significação do ‘ouro’, que é o bem (n. 133, 1551, 1552), e da ‘prata’, que é o vero (n. 1551, 2048); as ‘imagens de macho’ são os falsos que aparecem como veros (n. 2046); os ‘filhos e filhas que eles geraram e que sacrificam a essas imagens’ são os veros e bens que eles perverteram, como se vê pela significação dos ‘filhos’ e das ‘filhas’ (n. 489, 490, 491, 533, 2362); ‘escortar com os filhos do Egito’ é pervertê-los pelos conhecimentos, isso é evidente pela significação do ‘Egito’, que é o que pertence ao conhecimento (n. 1164, 1165, 1186, 1462); ‘escortar com os filhos de Asshur’, que seja se perverter pelos raciocínios, é evidente pela significação de ‘Asshur’, que é o raciocínio (n. 119, 1186); ‘multiplicar a escortação até na terra da Caldeia’, que seja até a profanação do vero, que é a Caldeia, n. 1368. Por aí é claro o sentindo interno da Palavra no próprio sentindo da letra. [4] Semelhantemente, em outro lugar, no mesmo Profeta: “... [houve] duas mulheres, filhas de uma só mãe. Escortaram no Egito, na sua adolescência se escortaram; [...] Oholah [é] Samaria; Oholibah [é] Jerusalém. Escortou-se Oholah sob mim, e amou os seus amantes, os Assírios próximos, ... cometeu suas escortações sobre eles, a elite de todos os filhos de Asshur; ... As suas escortações do Egito não deixou, pois com ela se deitaram na sua adolescência, ... Oholibah corrompeu o seu amor mais do que ela, e as suas escortações acima das escortações da sua irmã. Aos filhos de Asshur [ela] amou; [...] Aumentou suas escortações, e viu umas imagens dos caldeus, [...] amou-os ao olhar dos seus olhos; ... vieram a ela os filhos de Babel para o leito dos amores...” (Ez. 23:2–5, 7, 8, 11, 12, 14, 16 e seguintes). ‘Samaria’ é a igreja que está na afeição do vero, e ‘Jerusalém’, a igreja que está na afeição do bem; as suas escortações com o egípcios e com os filhos de Asshur são as perversões do bem e vero por meio dos conhecimentos e dos raciocínios por cujo intermédio os falsos são confirmados, como se vê pela significação do ‘Egito’ (n. 1164, 1165, 1186, 1462) e de Asshur (n. 119, 1186); e isso até o culto profano, que, quanto ao vero, é a Caldeia (n. 1368), e quanto ao bem, são os filhos de Babel (n. 1182, 1326). [5] Em Isaías: “E será, no fim de setenta anos, JEHOVAH visitará Tiro, e [ela] voltará ao salário do seu meretrício, e se escortará com todos os reinos da terra” (23:17). É a ostentação do falso que é significada pelo ‘salário de meretrício’ e pela ‘escortação de Tiro’. Que ‘Tiro’ sejam as cognições do vero, foi visto (n. 1201); que os ‘reinos’ sejam os veros com os quais há escortação, n. 1672. [6] Em Jeremias: “[Ora] tu te escortaste com muitos cúmplices, mas voltaste a Mim, ... Levanta os teus olhos para as colinas e vê; onde não foste violada? Sobre os caminhos [tu] te assentaste com eles como o árabe no deserto, e profanaste a terra pelas tuas escortações e pela tua malícia” (3:1, 2). ‘Escortar’ e ‘profanar a terra pelas escortações’ é perverter e falsificar os veros da igreja. Que a ‘terra’ seja a igreja, foi visto (n. 662, 1066, 1067). [7] No mesmo: “Pela voz da sua escortação profanou a terra, cometeu adultério com a pedra e com a madeira” (Jr. 3:9); ‘cometer adultério com a pedra e com a madeira’ é perverter os veros e os bens do culto externo. Que a ‘pedra’ seja um tal vero, foi visto (n. 643. 1298), e que ‘madeira’ seja um tal bem, n. 643. [8] No mesmo: “Porque fizeram tolice em Israel, e cometeram adultério com as esposas dos seus associados, e pronunciaram palavra em Meu nome, o falso que não mandei” (Jr. 29:23); onde ‘cometer adultério com as esposas dos associados’ é ensinar o falso como por eles. [9] No mesmo: “Nos profetas de Jerusalém, vi uma torpeza horrível de cometer adultério e de ir no falso” (Jr. 23:14); onde ‘cometer adultério’ diz respeito ao bem que é poluído [contaminatur], e ‘ir no falso’ diz respeito ao vero que é pervertido. No mesmo: “Os teus adultérios, e os teus rinchos, a infâmia da tua escortação sobre as colinas; no campo vi as tuas abominações; ai de ti, Jerusalém! Não te purificas depois disto?! Até quando ainda?” (Jr. 13:27). [10] Em Oseias: “A escortação, e o vinho e o mosto ocuparam [seu] coração. Meu povo interroga a madeira, e a sua vara indicará isto, porque o espírito da escortação o seduziu, e escortaram afastando-se de debaixo do seu Deus. Sobre os cumes das montanhas sacrificam, e sobre as colinas incensam, debaixo do carvalho, do álamo e do olmeiro; por isso se escortam as vossas filhas, e as vossas noras cometem adultério. Não visitarei sobre as vossas filhas, porque [elas] se escortam, e sobre as vossas noras, porque cometem adultério, porque eles partilham com as meretrizes [scortis], e com os prostíbulos sacrificam, ...” (4:11–14). O que significam cada uma dessas expressões, no sentindo interno, pode-se ver pela significação do ‘vinho’, que é o falso; do ‘mosto’, que é o mal que provém do falso; da ‘madeira que se interroga’, que é o bem do prazer de alguma cobiça; do ‘bastão que indicará’, que é o poder imaginário do entendimento próprio; depois, pela significação das ‘montanhas’ e das ‘colinas’, que são os amores de si e do mundo; do ‘carvalho’, do ‘álamo’ e do ‘olmeiro’, que são outras tantas percepções grosseiras provenientes desses amores, e nas quais eles têm confiança; das ‘filhas’ e das ‘noras’, que são tais afeições. Por esse modo, vê-se claramente o que significam nessa passagem as ‘escortações’, os ‘adultérios’ e as ‘meretrizes’. [11] No mesmo: “ó Israel, [tu] te escortaste sobre o teu Deus; amaste o salário do meretrício sobre todas as eiras do frumento” (9:1); O ‘salário de meretrício’ é a ostentação do falso. Em Moisés: “para que não trates aliança com o habitante da terra, e não se escortem após os deuses deles, e [não] sacrifiquem aos deuses deles, e te chame, e comas dos sacrifícios deles, e não tomes das filhas deles para os teus filhos, e se escortem as suas filhas após os deuses deles, e façam escortar os teus filhos após os deuses deles” (Êx. 34:15, 16). No mesmo: “...cortarei do meio de seu povo todos os escortadores após ele, se escortando após Molek. E a alma, que se volta para os pythons116 e os adivinhos, para escortar após eles, porei as Minhas faces contra essa alma, e o cortarei do meio do povo dele” (Lv. 20:5, 6). No mesmo: “Os vossos filhos estarão apascentando no deserto quarenta anos; e portarão as vossas escortações, até serem consumidos os vossos corpos no deserto” (Nm. 14:33). No mesmo: “lembrai-vos de todos os preceitos de JEHOVAH e os fazei; e não andeis após o vosso coração, e após os vossos olhos, após os quais vós escortais” (Nm. 15:39). [12] E ainda mais claramente em João: “Um anjo disse: Vem, mostrar-te-ei o juízo da grande meretriz assentada sobre muitas águas, com a qual escortaram os reis da terra, e se embriagaram com o vinho da sua escortação os habitantes da terra” (Ap. 17:1, 2); aí a ‘grande meretriz’ são os que estão em um culto profano; a ‘multidão das águas sobre a qual ela está assentada’ são as cognições (n. 28, 739); os ‘reis da terra que escortaram com ela’ são os veros da igreja (n. 1672, 2015, 2069); o ‘vinho com que eles se embriagaram’ é o falso (n. 1071, 1072); como o vinho e a embriaguez têm essa significação, se diz das filhas de Ló que “elas deram vinho a seu pai para beber” (vers. 32, 33, 35). [13] No mesmo: “Babilônia, do vinho do furor da sua escortação, deu de beber a todas as nações, e os reis da terra com ela escortaram” (Ap. 18:3); ‘Babilônia’, ou ‘Babel’, é o culto cujos externos parecem santos, mas cujos interiores são profanos (n. 1182, 1295, 1326); as ‘nações que ela fez beber’ são os bens que estão profanados (n. 1259, 1260, 1416, 1849); os ‘reis que escortaram com ela’ são os veros (n. 1672, 2015, 2069). No mesmo: “Verdadeiros e justos [são] os juízes do Senhor Deus, porque julgou a grande meretriz, que corrompeu a terra com a sua escortação” (Ap. 19:2); a ‘terra’ está no lugar da igreja (n. 566, 662, 1066, 1067, 2117, 2118). [14] Como as escortações significavam tais coisas, e as filhas, as afeições, é por isso que tinha sido tão severamente proibido que a filha de um sacerdote se entregasse à escortação; a este respeito se fala assim em Moisés: “A filha de um varão sacerdote que começasse a escortar, profanando o pai dela, no fogo será queimada” (Lv. 21:9); Era também proibido levar o salário do meretrício para a casa de JEHOVAH, porque é uma abominação (Dt. 23:19). Daí vem também o processo inquisitorial a respeito da esposa de quem o marido tinha concebido uma suspeita de adultério (Nm. 5:12 a 31); nesse processo, tudo, em geral e em particular, se refere às adulterações do bem. Além disso, há um grande número de gêneros de adultérios e de escortações, e ainda mais espécies de que se faz menção na Palavra; esse gênero aqui descrito pelo concurso incestuoso das filhas de Ló com seu pai, é o que é chamado Moab e filho de Ammon, de que se tratará no que segue.