Texto
. Um dia, ouvi espíritos falando entre si sobre este ponto: que toda e qualquer coisa que se toma por princípio, seja ela qual for, pode ser confirmada por inúmeros argumentos a ponto de se mostrar inteiramente como um vero para aquele que se confirmou, ainda que seja um falso, e que se pode ser melhor persuadido do falso do que do verdadeiro. A fim de que esse ponto fosse estabelecido sobre provas evidentes, propôs-se-lhes que pensassem e discutissem entre si se é vantajoso para os espíritos se servirem da memória exterior. (Os espíritos conversam entre si sobre tais assuntos com muito mais excelência do que o homem pode crer, e mesmo mais do que pode conceber; mas cada espírito de acordo com sua afeição). Os espíritos que eram a favor das coisas corporais e mundanas, confirmavam de muitos modos que isso era vantajoso, dando como razões, que assim eles nada teriam perdido, e que eles seriam, depois da morte, igualmente homens como o tinham sido antes; que assim eles teriam podido novamente, pelo homem, vir ao mundo; que o prazer da vida está na memória externa, e que a inteligência e a sabedoria não esteja em nenhuma outra faculdade nem em nenhuma outra propriedade; eles davam ainda muitas outras razões, pelas quais eles se confirmavam em seu princípio, até que este se lhes mostrasse como um vero.
[2] Mas outros então pensaram e falaram segundo o princípio oposto, sabendo que era o vero porque ele procede da Ordem Divina. Diziam que se fosse permitido aos espíritos se servirem da memória exterior, eles estariam então em uma imperfeição semelhante a em que eles tinham estado precedentemente quando eram homens; que eles estariam assim em ideias grosseiras e obscuras em relação aos que estão na memória interior; e que assim não só eles se tornariam cada vez mais insensatos, como até desceriam e não subiriam, e, por conseguinte, não viveriam eternamente por causa disso: que mergulhar a si pela segunda vez nas coisas mundanas e corporais seria pôr-se uma segunda vez no estado de morte. Acrescentavam que se fosse permitido aos espíritos se servirem da memória exterior, o gênero humano pereceria, porque cada homem é governado pelo Senhor por intermédio dos espíritos e dos anjos; se os espíritos influíssem no homem pela memória exterior, o homem não poderia pensar a partir da sua memória, mas pensaria a partir da do espírito, por conseguinte, o homem não teria mais a sua vida nem a sua liberdade à sua disposição, mas seria obsedado; [diziam] que as obsessões [de] outrora não tinham sido outra coisa. Eles davam ainda muitas outras razões.