ac 2520

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E disse: SENHOR, matarás também uma nação justa?’; que signifique: ‘Será que o bem e vero da doutrina se extinguirá?’ é isso evidente pela significação de ‘nação’, que é o bem (n. 1269, 1260, 1416); e como se trata da nação de Abimeleque, pelo qual é significada a doutrina da fé, entende-se aqui por ‘uma nação justa’, tanto o bem como o vero, porque um e outro pertence à doutrina.
[2] Que estas palavras tenham sido ditas pelo zelo da afeição e do amor para com todo o gênero humano, é o que se vê claramente. Esse amor dirigia os pensamentos do Senhor quando Ele estava ainda no humano materno; e ainda que pelo Divino Ele percebesse que a doutrina da fé não era senão de origem celeste, contudo, no interesse do gênero humano, que não recebe coisa alguma de que ele não possa ter alguma ideia por seu racional, foi dito: “Matarás também uma nação justa?” O que significa: “Será que o bem e vero da doutrina se extinguirá? Que o homem não receba coisa alguma de que ele não possa ter alguma ideia por seu racional, é o que se pode ver pelas ideias que o homem abraça a respeito dos arcanos Divinos. Sempre se lhes adere alguma ideia tirada das coisas mundanas ou de coisas análogas às mundanas, pelas quais o arcano é retido na memória e pelas quais ele é reproduzido no pensamento, pois o homem, sem uma ideia tirada das coisas mundanas, nunca pode pensar coisa alguma. Portanto, se os veros fossem expostos à nu a partir da Divina origem eles nunca seriam recebidos, mas ultrapassariam toda sua concepção e, por conseguinte, também sua fé, principalmente a concepção e a fé dos que estão em um culto externo.
[3] Para que essas coisas sejam ilustradas, sirvam esses exemplos: O Divino mesmo não pode estar senão no Divino, assim Ele não pode estar senão no Divino Humano do Senhor, e por este Divino Humano Ele pode estar no homem. Caso se consultasse o Racional, ele diria que o Divino mesmo pode estar no humano de todo homem. Outro exemplo: Não há santidade que não proceda do Senhor, por conseguinte, do Divino que é um; caso se consultasse o racional, ele diria que a santidade vem também de outra parte.
[4] Outro exemplo: O homem não vive por si próprio, não faz o bem por si próprio, não crê o vero por si próprio; ainda mais, ele não pensa por si mesmo, mas o bem e vero procedem do Senhor, e o mal e falso procedem do inferno; há ainda mais, o inferno, isto é, os que estão no inferno, também não pensam por si próprios, mas recebem, a seu modo, o bem e vero do Senhor; caso se consultasse o racional, ele rejeitaria essas verdades porque não as compreenderia. Enfim, ninguém é recompensado por fazer o bem e ensinar o vero; e o externo nada faz, mas é o interno que age quanto mais há de afeição do bem em fazer o bem, e daí quanto mais há de afeição do vero em ensinar o vero; e essa quantidade de afeição do bem e do vero não vem do homem. O mesmo sucede em mil outros exemplos.
[5] Como tal é o racional humano, é por isso que, na Palavra, se falou segundo a capacidade de compreensão do homem, e até segundo o seu gênio; eis por que o sentido interno da Palavra é diferente de seu sentido literal. Pode-se ver satisfatoriamente esse fato na Palavra do Antigo Testamento, onde a maior parte das coisas são ditas segundo o alcance e o gênio do povo que vivia então. É por isso que se fala pouco da vida depois da morte, da salvação interna e do homem interno, que apenas se diz alguma coisa a respeito, porque os judeus e os israelitas, entre os quais estava então a Palavra, eram tais que, se essas verdades tivessem sido reveladas, não só eles não as teriam compreendido, como até as teriam posto em ridículo. Do mesmo modo, caso se lhes fosse declarado que o Messias, ou o Cristo, devia vir a fim de salvar as suas almas para a sua eternidade, eles teriam rejeitado essa verdade como nula, assim como se pode ver também hoje por essa mesma nação: se se falar diante dela ainda do interno e do espiritual, e caso se disser que o Messias não deve ser o maior rei da terra, ela faz disso um assunto de irrisão. É por esse motivo que o Senhor se exprimiu tantas vezes como os profetas, e que para outras verdades Ele Se serviu de parábolas, assim como Ele mesmo o diz em Mateus:
“Jesus disse: Por parábolas lhes falo, para que vendo não vejam e para que ouvindo não ouçam, nem entendam” (13:13);
os que ‘veem e ouvem’ são os que estão no interior da igreja, e que, embora vejam e ouçam, contudo, não compreendem; e em João:
“Cegou os seus olhos e endureceu seus corações, para que não vejam com os seus olhos, e compreendam com o coração, e se convertam e os cure” (12:40);
que ‘para que não se convertam e os cure’ envolve que depois eles não rejeitem e, por conseguinte, profanem o que acarreta consigo a danação eterna (ver n. 301, 302, 303, 582, 1008, 1010, 1059, 1327, 1328, 2051, 2426). É fato, todavia, que o Senhor revelou os interiores da Palavra em muitas passagens, mas somente para os sensatos [at solum pro sapientibus].

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