ac 2533

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Que ‘agora, restitui a esposa do varão’ signifique que ele devia libertar do Racional o vero espiritual da Doutrina, é o que se vê pela significação da ‘esposa’, que é o vero espiritual (n. 2509, 2510); e pela significação do ‘varão’, que é a Doutrina mesma, porque quando Abrahão, que representa o Senhor nesse estado, é chamado ‘varão’, ele significa o celeste vero, que é a mesma coisa que a Doutrina procedendo de uma origem celeste, pois o ‘varão’, no sentido interno, é o intelectual (n. 158, 265, 749, 915, 1007, 2519). Daí é evidente que ‘restituir a esposa do varão’ é libertar o vero espiritual da doutrina. Que seja libertá-lo do Racional, é porque Abimeleque, que devia restituí-la, significa a doutrina que visa as coisas racionais, ou o que é o mesmo, as coisas racionais da doutrina (n. 2510).
[2] Acima foi dito que, embora a Doutrina da fé seja em si mesma Divina e, assim, esteja acima de toda concepção humana, até acima de toda concepção angélica, o fato é que, na Palavra, ela foi entretanto ditada de um modo racional segundo a concepção do homem. Acontece com isso como com um pai que instrui seus filhos e filhas; quando ele os instrui, ele lhes aplica todas as coisas, em geral e em particular, conforme o gênio deles, ainda que ele mesmo tenha sobre essas coisas pensamentos mais interiores ou mais elevados; de outro modo, seria ensinar o que não pode ser apreendido, ou deitar, por assim dizer, semente sobre uma rocha. O mesmo acontece com os anjos que, na outra vida, instruem os simples de coração. Ainda que os anjos estejam na sabedoria celeste e espiritual, o que acontece é que, apesar disso, eles não se elevam acima da concepção daqueles aos quais instruem, mas lhes falam com simplicidade, e eles se elevam gradualmente à proporção que esses se instruem. Caso se exprimissem pela sabedoria angélica, os simples não compreenderiam a menor coisa e, portanto, não seriam conduzidos aos veros nem aos bens da fé. O mesmo sucederia se o Senhor não tivesse ensinado na Palavra de um modo racional de acordo com a concepção do homem. Mas a verdade é que a Palavra foi elevada até o entendimento angélico em seu sentido interno; contudo, nessa suprema elevação em que ela se acha perante os anjos, ela está infinitamente abaixo do Divino; de onde se vê qual é a Palavra em sua origem e, por conseguinte, em si mesma, e que assim ela encerra em toda parte, na menor de suas partes, mais coisas do que o céu inteiro seria capaz de compreender, embora pareça tão pouco importante e tão simples na letra.
[3] Que o Senhor seja a Palavra, porque por Ele há a Palavra, e Ele mesmo está na Palavra, é o que se vê em João:
“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra. [...] N’Ela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. [... E] a Palavra se fez carne e habitou em nós, e vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (1:1, 4, 14. Ver também Ap. 19:11, 13, 16);
e como o Senhor é a Palavra, Ele é também a Doutrina, porque não existe outra Doutrina que seja ela mesma Divina.

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