. Que ‘eis que isso [será] para ti uma cobertura dos olhos para todos os que [estão] contigo’ signifique que os veros racionais ficam como uma cobertura ou como uma vestimenta para os veros espirituais, é o que se vê pela significação da ‘cobertura’, de que se vai falar, e pela significação dos ‘olhos’, que são as coisas intelectuais, como é evidente por um grande número de passagens da Palavra; e, finalmente, pela significação de ‘ver’, que é compreender (n. 2150, 2325). Cada um pode ver que em cada palavra deste versículo há arcanos que não podem ser postos em evidência senão por um certo sentido interior; por exemplo: “que [Abimeleque] deu mil peças de prata” e se diz isto não do marido de Sarah, mas do irmão de Sarah, “que seria uma cobertura dos olhos, e para ela e para os que estão com ela”, depois “com todos”, e “que assim ela foi vindicada133”. Muitas conjecturas históricas podem, na realidade, ser deduzidas do sentido da letra, mas todas essas conjecturais nada têm de espiritual, nem com mais forte razão coisa alguma de Divino, qual, todavia, é a Palavra. [2] Que os veros racionais sejam como um véu ou uma vestimenta para os veros espirituais, eis como: as coisas que são os íntimos do homem pertencem à sua alma, as que são, ao contrário, os exteriores do homem pertencem ao seu corpo; os íntimos do homem são os bens e os veros pelos quais a alma tem sua vida, pois de outro modo a alma não seria alma; daí é que os exteriores tiram a sua vida, e eles são todas as coisas que existem no corpo, ou o que dá no mesmo, eles ficam como uma cobertura ou como uma vestimenta. Pode-se sobretudo vê-lo pelas coisas que se manifestam na outra vida; por exemplo, quando os anjos se apresentam à vista, os seus interiores se mostram com brilho pela sua face, os exteriores são representados tanto em seu corpo como em sua vestimenta ao ponto que cada um pode, pela sua vestimenta só, saber quais eles são, porque elas são substâncias reais, por conseguinte, essências em forma. O mesmo sucede com os anjos que foram vistos e que na Palavra foram descritos quanto as suas faces e quanto as suas vestimentas; por exemplo, os que foram vistos no sepulcro do Senhor (Mt. 28:3; Mc. 16:5); e os vinte quatro anciãos perto do trono (Ap. 4:4), e os outros. E não só acontece com os anjos, mas também com todas as outras coisas, ainda que inanimadas, que são mencionadas na Palavra. Os seus exteriores são a cobertura ou a vestimenta. Por exemplo, a Arca da Aliança e a tenda que estava ao redor: a ‘Arca’, que ali era o íntimo, representava o Senhor mesmo, porque o Testemunho ali estava, enquanto a ‘tenda’, que estava lá fora, representava o Reino do Senhor; ali os véus [velamina], ou os reposteiros [vela], e os tapetes, tanto em geral como em particular, representavam os exteriores celestes e espirituais no Reino do Senhor, isto é, nos três céus, o que é evidente, pois a forma da arca foi mostrada a Moisés sobre o monte Sinai (Êx. 25:9; 26:30). É daí que ela obtinha a sua santidade, e não do ouro, da prata e das esculturas que lá estavam. [3] Como se trata agora dos veros racionais, que são como uma cobertura e uma vestimenta para os veros espirituais, e que em Moisés a tenda é descrita quanto aos seus ‘véus’, ou tapeçarias, mesmo quanto aos seus reposteiros, que estavam diante das entradas, é-me permitido, para ilustrar a coisa, expor o que ali era especificamente significado pelos reposteiros; mas se dirá em outra parte, pela Divina Misericórdia do Senhor, o que significavam as cobertas que estavam ao redor. Havia três reposteiros, o Primeiro, que fazia a separação entre os santos e o Santos dos Santos; o Segundo, que é chamado a coberta para a porta da tenda; o terceiro que é a coberta para a porta do átrio. [4] Quanto ao vero mesmo, que era o primeiro véu diante da arca, dele assim se fala em Moisés: “Farás um véu de jacinto [azul], e púrpura, e carmesim, e de fino linho torcido, obra prima o farás com Querubins. E pô-lo-ás sobre quatro colunas de shittim cobertas de ouro, e os seus colchetes [serão] de ouro, sobre quatro bases de prata,... E porás o véu sob as argolas; e introduzirás ali, dentro do véu, a Arca do Testemunho, e o véu vos fará a distinção entre o [lugar] santo e o Santo dos Santos [...]” (Êx. 26:31–34; 36:35, 36); este ‘véu’ representava as aparências próximas e íntimas do bem e do vero racionais em que estão os anjos do terceiro céu; essas aparências foram descritas por meio do ‘jacinto’, da ‘púrpura’, do ‘carmesim’, e do ‘fino linho torcido’, em que a cor vermelha representava os bens do amor, e a cor branca, os seus veros; o ouro e a prata de que as colunas eram cobertas e de que os colchetes e as bases eram compostos representavam igualmente esses bens e esses veros. Que as cores representem, foi visto (n. 1042, 1043, 1053, 1624); que o ‘ouro’ seja o bem do amor, n. 113, 1551, 1552; que a ‘prata’ seja o vero, n. 1551, 2048. [5] Daí se pode ver o que é significado pelo ‘véu do templo’, que se rasgou (Mt. 27:51; Mc. 15:38; Lc. 23:45), a saber, que o Senhor entrou no Divino mesmo, tendo sido dissipadas todas as aparências; e que Ele, ao mesmo tempo, abriu a entrada para o Divino mesmo por meio de Seu Humano tornado Divino. [6] Quanto ao segundo véu, ou à coberta para a porta da tenda, se fala assim em Moisés: “Farás a coberta para a porta da tenda de jacinto, e de púrpura e de carmesim, e de fino linho torcido, obra de bordador; e farás para coberta cinco colunas de shittim, e as cobrirá de ouro; os seus colchetes [serão] de ouro, e fundirás para elas cinco bases de cobre” (Êx. 26:36, 37; 36:37, 38); por essa ‘coberta’ foram representadas as aparências do bem e do vero, que são pelas anteriores inferiores, ou exteriores, ou as médias do racional, em que estão os anjos do segundo céu. Essas aparências foram descritas quase do mesmo modo que as precedentes, contudo, com esta diferença, que havia para cada coberta cinco colunas e cinco bases, número que significa relativamente pouco, porque essas aparências não são tão coerentes ou não são tão celestes como as aparências do céu íntimo, ou do terceiro céu. Que o número cinco signifique pouco, foi visto (n. 649, 1686); e como essas aparências visam os naturais, ordenou-se que as bases fossem fundadas de cobre, porque o cobre representava e significava o bem racional (n. 425, 1551). [7] Quanto ao terceiro véu, ou a coberta para o portão do átrio, a seu respeito assim se fala em Moisés: “do portão do átrio a coberta [será] de vinte côvados, de jacinto e de púrpura e de carmesim, e de fino linho torcido, obra de bordador; as suas colunas, quatro, as suas bases, quatro. Todas as colunas de partes [serão] seguidas ao redor de prata, os seus colchetes, de prata, mas as suas bases, de cobre” (Êx. 27:16, 17; 38:18, 19); por essa ‘coberta’ foram representadas as aparências do bem e do vero ainda mais inferiores, ou mais exteriores, ou as que são os ínfimos do racional em que estão os anjos do primeiro céu. Como essas aparências correspondem às coisas interiores, elas foram descritas do mesmo modo, mas com esta diferença, que as colunas não foram cobertas de ouro, mas cingidas de prata, e que de prata eram os colchetes, pelos quais são significados os veros racionais que tiram a sua origem imediatamente das coisas do conhecimento; e de cobre as bases pelas quais são significadas os bens naturais. Daí se pode ver que na composição da tenda não havia coisa alguma que não fosse representativa das coisas celestes e espirituais do Reino do Senhor, ou que não tivesse sido feita sobre todo tipo dos celestes e dos espirituais nos três céus; então que, enfim, os véus ou as cobertas significavam as coisas que, a exemplo do corpo e da vestimenta, estão ao redor ou por fora do íntimo. [8] Além disso, pode-se ver por muitas passagens da Palavra que os ‘véus’, as ‘cobertas’, as ‘vestimentas’ ou as ‘roupas’, significavam os veros relativamente inferiores, por exemplo, em Ezequiel: “O fino linho em bordadura do Egito foi a tua expansão, o jacinto e a púrpura das ilhas de Elisha [foram] a tua cobertura” (27:7); onde se trata de ‘Tiro’, por que são significadas as cognições interiores dos celestes e dos espirituais, por conseguinte, os que estão nessas cognições (n. 1201); a ‘bordadura do Egito’ é o conhecimento. (Que o ‘Egito’ seja o conhecimento, vejam-se os n. 1164, 1165, 1186, 1462); o ‘jacinto e a púrpura das ilhas de Elisha que eles têm por cobertura’ são os cultos que correspondem ao culto interno (n. 1156). [9] No mesmo: “Descerão de cima dos seus assentos os príncipes do mar, e tirarão os seus mantos, e as vestimentas de sua bordadura despojarão, e de terrores se vestirão; sobre a terra se assentarão” (Ez. 26:16); trata-se ainda do Tiro; os ‘mantos e as vestimentas de bordadura’ são as cognições extraídas dos conhecimentos, portanto, são os veros inferiores. [10] No mesmo: “Vesti-te de bordadura, e te calcei de texugo, e te cingi de fino linho, e te cobri de seda. E te enfeitei de ornatos, e dei braceletes sobre as tuas mãos e um colar sobre o teu pescoço. [...] Tomaste dos teus vestidos, e fizeste para ti lugares altos de várias cores, e te escortaste sobre eles; [...] Tomaste as vestimentas de bordadura e cobriste-as” (Ez. 16:10, 11, 16, 18); trata-se aí de Jerusalém, que é a igreja espiritual descrita tal qual ela tinha sido outrora e tal qual ela se tornou quando se perverteu; as suas coisas espirituais inferiores e os seus doutrinais são as ‘vestimentas de bordadura de fino linho e de seda’. [11] Em Isaías: “O Senhor JEHOVAH Zebaoth tirará de Jerusalém [e de Judá o bastão e o cajado] todo bastão de pão e o bastão de água; [...] então tomará um varão o seu irmão da casa do seu pai, [dizendo:] Tens vestimenta, príncipe serás para nós,... Responderá nesse dia, dizendo: Não remediaria isso, e na minha casa nada [há] de pão e nem vestimenta, não me ponhas por príncipe do povo. [...] O Senhor de tinha afligirá a moleira das filhas de Sião, e nesse dia tirará o Senhor o enfeite das ligas de calçado e das redezinhas, e dos adornos, dos pendentes, das manilhas, e das vestimentas resplandecentes, as diademas, os enfeites dos braços, e os cindais, e as pendentes cheirosas, e os braceletes; os anéis e as joias pendentes do nariz, os vestidos de festas, e os mantos, e as coifas, e os alfinetes, os espelhos e as capinhas de linho finíssimas e as toucas e os véus” (3:1, 6, 7, 17 a 24); ‘Jerusalém’ está no lugar da igreja espiritual; ‘Judá’, da igreja celeste; o ‘bastão do pão’ e o ‘bastão de água’, que serão tirados, significam o bem e o vero; a ‘vestimenta’, que é o príncipe, significa os veros que pertencem à Doutrina; os ‘vestidos’ e os ‘diversos enfeites das filhas de Sião’, cujo pormenor se dá, são, tanto em geral como em particular, os gêneros e as espécies do bem e do vero de que os homens da igreja devem ser privados. Se cada um dos objetos de que se faz menção não significa alguma coisa de particular à igreja, ele não se encontrará na Palavra, da qual cada palavra encerra o Divino. Diz-se, que esses objetos pertencem às filhas de Sião, pelas quais são significadas as coisas que são da igreja, como se viu (n. 2362). [12] No mesmo: “Desperta, Desperta, revista-se da tua fortaleza, ó Sião. Veste-te dos teus vestidos formosos, ó Jerusalém, cidade da santidade, porque não entrará, não virá a ti mais o incircunciso e o imundo” (Is. 52:1, 2); ‘Sião’ é a igreja celeste, Jerusalém, a igreja espiritual; os ‘vestidos de ornatos’ são as coisas santas da fé. No mesmo: “As teias deles não são para vestido, nem são cobertos pelas obras, as obras deles [são] obras de iniquidade” (Is. 59:6); as ‘teias’ significam os veros fictícios que não servem para vestido. O ‘vestido’ significa os veros exteriores da doutrina e do culto; daí se diz: “e não são cobertos pelas obras”. [13] No mesmo: “Regozijando regozijar-me-ei em JEHOVAH, alegrar-se-á a minha alma no meu Deus, porque me veste nos vestidos da salvação, com o manto da justiça me cobriu” (61:10); os ‘vestidos de salvação’ são os veros da fé, o ‘manto da justiça’ é o bem da caridade. Em João: “Tens uns poucos nomes também em Sardes que não mancharam a sua vestimenta e andaram comigo em [vestidos] brancos, porque são dignos. O que vencer será coberto de vestimentas brancas [...]” (Ap. 3:4, 5). No mesmo: “Bem-aventurado quem vela e conserva a sua vestimenta para que não ande nu” (Ap. 16:15). No mesmo: “Sobre os tronos vi vinte e quatro anciãos assentados, trajando vestimentas brancas” (Ap. 4:4, 5); é evidente que, nessas passagens, as ‘vestimentas’ são não vestimentas, mas coisas espirituais que pertencem ao vero. [14] Sucede o mesmo quando o Senhor disse, a respeito da consumação do século, que “não se voltasse atrás para tomar vestimentas” (Mt. 24:18; Mc. 13:16), onde, que as vestimentas sejam os veros, ver o n. 2454. O mesmo sucede quando o Senhor fala do homem que não estava vestido com a ‘vestimenta de núpcia’ (Mt. 22:11, 12); e quando Ele disse a respeito de João: “Que fostes ver? um homem vestido de vestimentas esplêndidas? Os que esplêndidos trajam estão nas casas dos reis” (Mt. 11:8; Lc. 7:23); isto é, que se deva estar não nas coisas externas da doutrina e do culto, mas nas interiores, por isso o Senhor acrescenta: “Que fostes ver? Um Profeta? Digo-vos: até mais do que um profeta” (Mt. 11:9); o ‘profeta’ significa as coisas externas da doutrina e do culto. [15] Como as ‘vestimentas’ significavam os veros de todos os gêneros, ordenara-se aos filhos de Israel, quando saiam do Egito, que pedissem em troca ouro, prata e ‘vestimentas’, e os pusessem sobre seus filhos (Êx. 3:22; 12:42, 36); e que não vestissem a ‘roupa de muitos gêneros’, ou misturadas (Lv. 19:19; Dt. 22:11); e que fizessem para si franjas na extremidade de suas vestimentas, e aí pusessem um fio de jacinto, e quando o vissem, que se lembrassem dos preceitos e os praticassem (Nm. 15:38–40). [16] Outrora também eles rasgavam suas vestimentas (como se vê em Js. 7:6; Jz. 11:35; 1Sm. 4:12; 2Sm. 1:2, 11, 12; 3:31; 13:30, 31; 15:32 1Rs. 21:27; 2Rs. 5:7, 8; 6:30; 22:11, 14, 19; Is. 36:22; 38:1), o que significa o zelo pela doutrina e pelo vero quanto ao fato que ele será assim dilacerado; e a humilhação, em que neles nada havia do que é significado pela veste ornada. [17] Que tal era a significação das ‘coberturas’, das cobertas, das mantas ou vestimentas, é também o que se vê claramente pela profecia de Jacó, então Israel: “Atará à vide o seu jumentinho, e à vide nobre o filho da sua jumenta; lavará no vinho a sua vestimenta, e no sangue das uvas o seu véu” (Gn. 49:11); ninguém pode descobrir o que significa esta passagem a não ser que, pelo sentido interno, saiba o que significam a ‘vide’, a ‘vide nobre’, o ‘jumentinho’, o ‘filho da jumenta’, o ‘vinho’, o ‘sangue das uvas’, a ‘vestimenta’, e o ‘véu’; é evidente que se trata do Senhor que aí é chamado Shiloh. E nessas passagens se trata de Judá, pelo qual é representado o Divino celeste do Senhor, a ‘vestimenta que ele devia lavar no vinho’ e o ‘véu que ele devia lavar no sangue das uvas’ significam o Racional e o Natural do Senhor que Ele devia fazer Divinos. [18] O mesmo sucede em Isaías: “Quem [é] este vindo de Edom, com vestidos tintos, de Bozra; este honroso no seu vestido, caminhando na multidão da sua força? ... Por que [estás] vermelho quanto ao teu vestido, e a tua veste como de um que pisa no lagar? E o lagar Eu pisei só, e dentre os povos ninguém comigo;... espalhou-se a minha vitória contra eles sobre os meus vestidos, e todo o meu vestido manchei” (63:1–3); onde também os ‘vestidos’ e as ‘vestimentas’ significam o Humano do Senhor, que Ele, por Seu próprio poder, tornou Divino por meio dos combates das tentações e por Suas vitórias, por isso se diz: “Eu sozinho pisei o lagar, e dentre os povos ninguém comigo”. A mesma coisa é significada por Isaque, quando ele sentiu o cheiro das vestimentas de Esaú, e que, em consequência, ele o abençoou (Gn. 27:27). [19] O Santo mesmo do Divino Humano do Senhor foi também a vestimenta que apareceu como luz e como um branco fulgurante, por ocasião da sua transfiguração; a este respeito se fala em Mateus: “Quando Jesus Se transfigurou, resplandeceu a face d’Ele como sol, as vestimentas d’Ele se tornaram como a luz” (17:2). Em Lucas: “Jesus, quando orava, tornou-Se a aparecia da face d’Ele outra, e as vestes d’Ele [tornaram-se] de um branco fulgurante” (9:29); em Marcos: “Quando Jesus Se transfigurou, as vestimentas d’Ele se tornaram resplandecentes, brancas excessivamente, como a neve, tais como um lavadeiro sobre a terra não pode branquear” (9:3). As ‘vestimentas da santidade’ com que se cobria Aharão quando entrava no interior do véu, as quais eram de linho, representavam a mesma coisa (Lv. 16:2, 4). O mesmo acontecia com as ‘vestimentas da santidade’ que eram para a glória e para a magnificência, e com os mistérios de que se fala (Êx. 28:2–43; 39:1–43); não havia neles a menor coisa que não representasse.