Texto
. ‘Abrahão [era] um filho de cem anos’; que signifique o pleno estado de união, é o que se vê pela significação de ‘cem’, que é o pleno, assim como vai ser explicado; pela significação de ‘anos’, que é o estado (n. 482, 487, 488, 493, 893); aqui, o estado de união. Não é possível dizer, de modo a ser compreendido, o que é o pleno estado de união do Divino do Senhor com o Seu Humano, ou o que é o mesmo, com o Racional, porque o Humano começa no íntimo do Racional (n. 2106, 2194); não obstante, a coisa pode ser ilustrada por meio do que é chamado ‘estado pleno’, no homem, quando ele é reformado e regenerado.
[2] Ora, é notório que o homem só pode ser regenerado na idade adulta, porque é somente então que ele começa a usufruir da razão e do juízo e que pode assim receber do Senhor o bem e vero; antes de ter chegado a esse estado, o Senhor o prepara, no fato que Ele insinua nele coisas que lhe podem servir de húmus para receber as sementes do vero e do bem, que são muitos estados de inocência e de caridade, e também as cognições do bem e do vero e os pensamentos que daí resultam, o que se faz durante muitos anos antes que ele seja regenerado. Quando o homem foi imbuído deles e assim preparado, se diz que o seu estado é pleno, porque então os interiores foram dispostos para receber. No homem chamam-se ‘relíquias’ todas essas coisas de que ele é dotado pelo Senhor antes da regeneração e por meio das quais ele é regenerado; essas ‘relíquias’ são significadas na Palavra pelo número ‘dez’ (n. 576, 1738, 2284), e também por ‘cem’, quando o estado é pleno para a regeneração (n. 1988).
[3] Isto pode servir de ilustração ao que é significado pelo pleno estado da união do Humano com o Divino no Senhor, a saber, quando Ele mesmo, de Seu próprio poder, pelos combates das tentações e pelas vitórias, bem como pelos poderes da sabedoria e da inteligência Divinas, adquiriu para Si tanto do Divino em Seu Humano, isto é, em Seu Racional, que Ele podia unir ao Divino mesmo o Divino adquirido no Racional. A fim de que esse estado fosse representado, sucedeu que, apesar de ter Abrahão morado muitos anos na terra de Canaã, Isaque não lhe nasceu antes de ter ele a idade de cem anos; são esses os arcanos que estão contidos no número de cem anos que tinha Abrahão.
[4] Que o número ‘cem’ signifique o pleno, é o que se pode ver também por outras passagens da Palavra; por exemplo, em Isaías:
“Não haverá de hoje em diante mais criança de [poucos] dias e velho que não tenha enchido os seus dias, nem menino, filho de cem anos, morrerá; e o pecador, filho de cem anos, será maldito” (65:20);
onde ‘cem’ significa claramente o pleno, pois se diz: “não haverá mais criança de dias nem velho que não tenha enchido seus dias; e o menino e o pecador de cem anos”, isto é, de que o estado é pleno.
[5] Em Mateus:
“Todo aquele que deixar casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou esposa, ou filhos, ou campos, por causa do Meu nome, o cêntuplo receberá, e a vida eterna lhe caberá em herança” (19:29; Mc. 10:29, 30);
onde o ‘cêntuplo’ é o pleno, ou a boa medida, apertada, sacudida e transbordante (Lc. 6:38).
[6] Em Lucas:
“Uma outra semente caiu sobre a terra boa, e tendo brotado, produziu fruto ao cêntuplo” (Lc. 8:8; Mt. 13:8, 23; Mc. 4:20);
onde semelhantemente o ‘cem’ significa o pleno, e esse número não teria sido empregado caso não tivesse essa significação. O mesmo sucede na parábola em que o Senhor fala dos devedores, dos quais “um devia cem medidas de azeite e o outro cem alqueires de trigo” (Lc. 16:5–7); assim como em outras passagens em que cem também é mencionado. O mesmo sucede a ‘mil’, a respeito do qual se viu (n. 2575).