ac 2694

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, ali onde ele [está]’; que signifique a esperança do socorro, vê-se pela significação de ‘não temas’, que é não desesperar, porque sendo expulso o temor, apresenta-se a esperança; e pela significação de ‘ouvir a voz do menino’, que é o socorro, como se disse no n. 2691, onde estão as mesmas palavras. Nos versículos precedentes, tratou-se do estado de desolação em que se acham os que são reformados e se tornam espirituais; agora se trata de seu restabelecimento, e aqui da consolação e da esperança do socorro.
[2] Que os que são reformados são postos na ignorância do vero ou na desolação do vero até a dor e o desespero, e que, então, eles começam a receber do Senhor consolação e socorro, é o que hoje se ignora, porque há poucos que sejam reformados. Os que são tais que possam ser reformados são levados a esse estado, se não for na vida do corpo, prolongam-se neste estado ainda na outra vida, onde esse estado é muito conhecido e denominado ‘vastação’ ou ‘desolação’. (Viu-se alguma coisa a respeito na Primeira Parte, onde também se pode ver o n. 1109.) Os que estão em tal vastação, ou desolação, são levados até o desespero, e quando se acham nesse estado, eles recebem do Senhor consolação e socorro e, enfim, eles são tirados daí para o céu, onde entre os anjos eles são instruídos novamente, por assim dizer, nos bens e nos veros da fé. A razão dessa vastação e dessa desolação é principalmente a fim de quebrar o persuasivo que eles formaram para si por seu proprium (n. 2682); é também para que recebam a percepção do bem e do vero, percepção que eles não podem receber antes que o persuasivo que provém do proprium fique como enfraquecido. O estado de ansiedade e de dor até o desespero opera isso. Ninguém pode perceber por um sentido delicado o que é o bem, nem mesmo o que é a bem-aventurança e a felicidade, se não esteve no estado de não bem, de não bem-aventurança e de não felicidade. É por esse modo que se apreende a esfera de percepção, e isso no mesmo grau em que se esteve no estado oposto. É pelos relativos formados em atos que se faz a esfera de percepção, assim como a extensão de seus limites; essas são coisas da vastação ou da desolação, além de muitas outras.
[3] Sejam para ilustração alguns exemplos: Os que atribuem tudo à sua prudência, e que só atribuem pouca coisa ou nada à Providência Divina, mesmo que fossem convencidos por mil e mil razões que a Providência Divina é universal, mais universal no fato que ela está nas menores coisas, e que não cai mesmo um cabelo da cabeça, isto é, que nada há de tão mínimo que não tenha sido previsto e que não tenha sido provido a partir dessa previsão, a verdade é que apesar disso o estado de seu pensamento sobre a prudência própria não muda, exceto no momento mesmo em que eles se veem convencidos pelas razões. E mesmo se a mesma coisa lhes fosse provada por vivas experiências, o mesmo aconteceria. Quando eles veem as experiências, ou quando estão nessas experiências, eles confessam que isso é assim, mas passados alguns momentos, eles voltam ao seu estado próprio de opinião. Tais coisas produzem algum efeito momentâneo no pensamento, mas não na afeição, e se a afeição não for quebrantada, o pensamento permanece em seu estado, pois o pensamento possui a sua fé e a sua vida oriundas da afeição; mas quando neles se introduzem a ansiedade e a dor proveniente de que eles nada podem por si próprios, e isso até o desespero, então o persuasivo é quebrantado e o estado é mudado, e então podem ser introduzidos nesta fé, que eles nada podem por si mesmos, mas que todo poder, toda prudência toda inteligência e toda sabedoria vêm do Senhor; o mesmo acontece com os que creem que a fé vem deles próprios, que o bem vem deles próprios.
[4] Sirva ainda de ilustração este exemplo: os que consigo formaram o persuasivo de que eles, quando foram justificados, não há mais neles mal algum, mas que este foi inteiramente lavado e apagado, e que assim eles estão puros, ainda mesmo que por milhões de razões se lhes mostrasse claramente que nada está lavado e apagado, mas que o Senhor desvia do mal e mantém no bem os que, pela vida do bem na qual eles estiveram no mundo, são tais que possam lá ser mantidos; e então mesmo que ainda fossem convencidos por experiências que por eles próprios eles são apenas o mal, que eles são até acervos muito impuros de males, a verdade é que eles não se desapegam da fé da sua opinião. Quando, porém, eles são reduzidos a esse estado de perceber em si próprios o inferno, e isso a ponto de desesperar de que jamais poderão ser salvos, é então somente que esse persuasivo é quebrantado, e com ele o orgulho e o desprezo que eles têm pelos outros comparando-os a si próprios, depois, a arrogância de pensarem que são os únicos que são salvos, e podem ser introduzidos na verdadeira confissão da fé, que não só todo bem vem do Senhor, mas até que todas as coisas pertencem à Sua Misericórdia; e, enfim, eles podem ser introduzidos na humilhação do coração perante o Senhor, humilhação que não pode existir sem o reconhecimento do que é o seu próprio eu141. Por esses exemplos, agora se vê a razão pela qual os que são reformados, ou que se tornam espirituais, são postos no estado de vastação ou de desolação de que se tratou nos versículos precedentes, e que eles, quando estão nesse estado até o desespero, é então que começam a receber do Senhor a consolação e o socorro.

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