Texto
. ‘E habitou no deserto’; que signifique o relativamente obscuro, é o que se vê pela significação de ‘habitar’, que é viver (n. 2451); e pela significação do ‘deserto’, que é o pouco de vital (n. 1927); aqui, é o obscuro, mas relativamente. Por relativamente obscuro entende-se o estado da igreja espiritual relativamente ao estado da igreja celeste, ou o estado dos espirituais relativamente ao estado dos celestes. Os celestes estão na afeição do bem, os espirituais, na afeição do vero; os celestes têm a percepção, mas os espirituais têm o ditame da consciência. O Senhor aparece aos celestes como Sol, mas aos espirituais como Lua (n. 1521, 1530, 1531, 2495); para os celestes, a luz, como visual, também perceptiva do bem e vero procedente do Senhor, é como a luz do dia produzida pelo Sol, mas a luz dos espirituais procedente do Senhor é como a luz da noite produzida pela Lua; assim, para eles relativamente obscura. A causa é que os celestes estão no amor ao Senhor, assim, na vida mesma do Senhor, enquanto os espirituais estão na caridade para com o próximo e na fé, portanto, na vida do Senhor, porém, mais obscuramente. Vem daí que os celestes não raciocinam jamais sobre a fé nem sobre os veros da fé, mas porque estão na percepção do vero pelo bem, dizem que assim seja; os espirituais, por sua vez, falam e raciocinam sobre os veros da fé, porque estão na consciência do bem pelo vero. É também porque nos celestes foi implantado o bem do amor na parte voluntária deles, onde está a vida principal do homem, enquanto nos espirituais ele foi implantado na parte intelectual deles, onde está a vida secundária; daí vem o motivo que nos espirituais há o relativamente obscuro (ver os n. 81, 202, 337, 765, 784, 895, 1114 a 1125, 1155, 1577, 1824, 2048, 2088, 2227, 2454, 2507); este relativamente obscuro é aqui denominado deserto.
[2] Na Palavra, o deserto significa o pouco habitado e o pouco cultivado, e significa também o absolutamente desabitado e não cultivado; assim, ele é tomado em duplo sentido. Quando ele significa pouco habitado e pouco cultivado, ou então um lugar onde há poucas habitações, poucos apriscos de rebanhos, poucas pastagens e poucas águas, ele significa o que tem ou os que têm relativamente pouca vida e luz, como o espiritual, ou os espirituais, relativamente ao celeste, ou aos celestes. Quando, porém, ele significa absolutamente desabitado, ou não cultivado, ou onde não há habitação, sem aprisco de rebanhos, sem pastagens e sem águas, ele significa os que estão na vastação quanto ao bem e na desolação quanto ao vero.
[3] Que o ‘deserto’ signifique o pouco habitado e o pouco cultivado relativamente, ou então um lugar em que há poucas habitações, poucos apriscos de rebanhos, poucas pastagens e poucas águas, é o que se vê por estas passagens: Em Isaías:
“Cantai a JEHOVAH um cântico novo, [e] o louvor d’Ele desde a extremidade da terra; [vós] que descem no mar, e a plenitude dele; [vós,] ilhas e os seus habitantes. Levantarão [a voz] o deserto e as cidades deles, as aldeias atria que Kedar habitará, contarão os habitantes da rocha, da cabeça dos montes clamarão” (42:10, 11).
Em Ezequiel:
“Estabelecerei com eles a aliança da paz, e farei cessar a fera má da terra, e habitarão no deserto em segurança, e dormirão nos bosques, e dar-lhes-ei, assim como aos arredores da Minha colina, a bênção; ... A árvore do campo dará o seu fruto, e a terra dará o seu fruto” (34:25, 26, 27);
aí se trata dos espirituais. Em Oseias:
“Conduzi-la-ei ao deserto e falarei sobre o seu coração, e dar-lhe-ei suas vinhas dali” (2:14, 15);
onde se trata da desolação do vero, e, depois, da consolação. Em Davi:
“Destilam os apriscos do deserto, e de exultação as colinas se cingem; vestem-se os prados de rebanho, e os vales se cobrem de frumento” (Sl. 65:13, 14 [Em JFA, 65:12, 13]).
[4] Em Isaías:
“[...] tornarei do deserto um lago de águas, e da terra árida, mananciais de águas; porei no deserto o cedro shittah144*127, e a murta, e a árvore do azeite. Porei no deserto a faia, o olmeiro e o álamo, para que se veja e se saiba, e se considere, e se compreenda ao mesmo tempo, que a mão de JEHOVAH fez isso, e o Santo de Israel o criou” (41:18, 19, 20);
onde se trata da regeneração dos que estão na ignorância do vero, ou das nações; e da iluminação e da instrução dos que estão na desolação; o ‘deserto’ se diz deles; a ‘faia’, a ‘murta’ e a ‘árvore de azeite’ são os veros e os bens do homem exterior. Em Davi:
“JEHOVAH faz dos rios um deserto, e dos mananciais de águas, sequidão; faz do deserto um lago de águas, e da terra seca, mananciais de águas” (Sl 107:33, 35);
semelhantemente em Isaías:
“Regozijar-se-ão com isso o deserto e a sequidão, e exultará a solidão, e florescerá como a rosa. Germinando germinará... espalhar-se-ão no deserto as águas, e os ribeiros na solidão” (35:1, 2, 6).
No mesmo:
“[...] serás como um jardim irrigado, e como um manancial de águas, cujas águas não mentem. E edificarão por ti os desertos do século [...]” (Is. 58:11, 12).
No mesmo:
“Até que se derrame sobre nós o espírito de cima, e será o deserto em carme145, e o carmel como bosque será reputado. E o juízo habitará no deserto, e a justiça, no carmel” (Is. 32:15, 16);
onde se trata da igreja espiritual, que embora habitada e cultivada, é chamada um deserto, relativamente, pois se diz “no deserto habitará o juízo, e a justiça, no carmel”. Que o ‘deserto’ seja um estado relativamente obscuro, é o que se torna bastante evidente por essas passagens em que esse estado é chamado ‘deserto’, depois também ‘bosque’; é o que se vê claramente em Jeremias:
“Oh geração! Vós vedes a Palavra de JEHOVAH. E foi um deserto para Israel? E foi uma terra de trevas?” (2:31).
[5] Que o ‘deserto’ signifique o absolutamente desabitado ou não cultivado, ou então onde não há habitação, sem aprisco de rebanho, sem pastagens e sem águas, assim, aqueles que estão na vastação quanto ao vero, é o que também se vê pela Palavra. Esse deserto se diz em duplo sentido, a saber, dos que posteriormente são reformados e dos que não podem ser reformados; dos que posteriormente são reformados (como aqui de Hagar e de seu filho), em Jeremias:
“Assim disse JEHOVAH: Lembrei-Me de ti, da misericórdia das tuas juventudes, indo após Mim no deserto, na terra não semeada” (2:2);
onde se trata de Jerusalém, que aí é a Igreja Antiga, que foi espiritual. Em Moisés:
“A porção de JEHOVAH [é] o povo d’Ele, Jacó [é] o cordel da herança d’Ele. Encontrou-o na terra do deserto e na desolação [vastitate], na lamentação, na solidão; conduziu-o de todo lado, fê-lo compreender, guardou-o como a menina dos Seus olhos” (Dt. 32:9, 10).
Em Davi:
“Vaguearam no deserto, na solidão do caminho, não acharam uma cidade de habitação” (Sl. 107:4);
onde se trata daqueles que estão na desolação do vero[desolatione veri] e que são reformados. Em Ezequiel:
“Levar-vos-ei ao deserto dos povos e julgarei convosco ali; como julguei com os vossos pais no deserto da terra do Egito” (20:35, 36);
onde igualmente se trata da vastação e da desolação dos que são reformados.
[6] As caminhadas e as vagueações146 do povo israelita no deserto não representaram outra coisa senão a vastação e a desolação dos fiéis antes da reforma, por conseguinte, a tentação deles, pois, quando eles estão nas tentações espirituais, eles estão na vastação e na desolação. É também o que se pode ver por estas palavras em Moisés:
“JEHOVAH os levou no deserto, como o varão leva o filho no caminho, até este lugar” (Dt. 1:31);
e em outra passagem:
“Lembra-te de todo o caminho pelo qual JEHOVAH, teu Deus, te conduziu durante quarenta anos no deserto, para te afligir, para te tentar e para saber o que [estava] no teu coração, se observarias os preceitos d’Ele ou não. Afligiu-te, fez-te ter sede, fez-te comer o maná, que não conheceste, nem os [teus] pais conheceram; para que saibas que não só por pão viverá o homem, mas por tudo que sai da boca de JEHOVAH viverá o homem” (Dt. 8:2, 3);
e ainda mais:
“Não te esqueças de que JEHOVAH te conduziu no deserto grande e terrível, onde [estavam] a serpente, a víbora [prester] e o escorpião, uma aridez onde não [há] água, tirando para ti a água da pedra do rochedo; nutriu[-te] de maná no deserto, que os teus pais não conheceram, para afligir-te, tentar-te, e para teu benefício no fim” (Ibid. vers. 15, 16);
aí, o ‘deserto’ significa a vastação e desolação em que estão os que se acham nas tentações; por ‘suas marchas e as suas voltas no deserto, durante quarenta anos’ se descreve todo o estado da igreja combatente: como por si própria ela sucumbe, mas pelo Senhor ela vence.
[7] Em João, pela mulher que foge para o deserto não é significada outra coisa senão a tentação da igreja; a este respeito assim se fala:
“A mulher que pariu um filho macho fugiu para o deserto, onde tem um lugar preparado por Deus... Foram dadas à mulher duas asas grandes de águia, para voar para o deserto, ao seu lugar, ... e a serpente lançou, após a mulher, da sua boca, água como um rio, para que ela fosse tragada pelo rio; mas a terra ajudou a mulher, pois a terra abriu a sua boca e tragou o rio que o dragão lançou da sua boca” (Ap. 12:5, 6, 14, 15, 16).
[8] Que se predique o ‘deserto’ de uma igreja inteiramente devastada e dos que, sendo inteiramente devastados quanto ao bem e ao vero, não podem ser reformados, é o que se vê em Isaías:
“[...] farei dos rios um deserto, federá o peixe deles por falta de água, e morrerá de sede. Revestirei os céus de escuridão [...]” (50:2, 3).
No mesmo:
“As cidades da tua santidade foram um deserto, Sião foi um deserto, Jerusalém foi desolada” (Is. 64:10).
Em Jeremias:
“Vi, e eis que o carmel147 [é] um deserto, e todas as suas cidades foram destruídas perante JEHOVAH” (4:26).
No mesmo:
“Muitos pastores corromperam a minha vinha, pisaram a porção, reduziram a porção do meu desejo a um deserto de desolação. Puseram-na em desolação, pranteou sobre Mim desolada; desolada foi toda a terra, porque ninguém a pôs sobre o coração. Sobre todas as colinas no deserto vieram os devastadores [...]” (Jr. 12:10, 11, 12).
Em Joel:
“[...] o fogo consumiu os apriscos do deserto, e a chama abrasará todas as árvores do campo. ...secaram-se os ribeiros de águas, o fogo consumiu os apriscos do deserto” (1:19, 20).
Em Isaías:
“Pôs o orbe como um deserto, e destruiu as suas cidades” (14:17);
onde se trata de Lúcifer: No mesmo:
“Profecia do deserto do mar; como tempestades no sul, do deserto vem, da terra terrível” (21:1 e seguintes);
o ‘deserto do mar’ é o vero devastado pelas coisas do conhecimento e pelos raciocínios que daí provêm.
[9] A partir disso se pode ver o que é significado por estas palavras sobre João Batista: foi dito por Isaías:
“Voz do que clama no deserto: Preparai um caminho ao Senhor, fazei retas as veredas d’Ele” (Mt. 3:3; Mc. 1:3; Lc. 3:4; Jo. 1:23; Is. 40:3);
isto é, que então a igreja tinha sido inteiramente devastada ao ponto que não havia mais nenhum bem nem nenhum vero; o que se manifesta claramente no fato de que então ninguém sabia que há algum interno no homem, nem que a Palavra encerra algum interno, nem, por conseguinte, que o Messias, ou Cristo, devia vir para salvar os homens eternamente. Daí também se vê claramente o que é significado por isto, que “João tenha estado nos desertos até os dias de Sua aparição diante de Israel” (Lucas, 1:80), e que “tenha pregado no deserto da Judeia” (Mt. 3:1 e seguintes), e que “ele tenha batizado no deserto” (Mc. 1:4). Com efeito, por esse modo ele representava também o estado da igreja. Pela significação do ‘deserto’, também é possível ver o porquê do Senhor se retirar tantas vezes para o deserto, por exemplo: Mt. 4:1; 15:32 até o fim; Mc. 1:12, 13, 35 ao 40, 45; 6:31 ao 36; Lc. 4:1; 5:16; 9:10 e seguintes; Jo. 11:54. Depois, pela significação da ‘montanha’, pode-se ver por que o Senhor ia tantas vezes às montanhas, por exemplo: Mt. 14:23; 15:29, 30, 31; 17:1 e seguintes; 28:16, 17; Mc. 3:13, 14; 6:46; 9:2 a 9; Lc. 6:12, 13; 9:28; Jo. 6:15.