. Há aqui dois arcanos: um, que o bem do homem espiritual é relativamente obscuro; o outro, que esse bem obscuro é iluminado pelo Divino Humano do Senhor. Quanto ao primeiro arcano: que o bem no homem espiritual seja relativamente obscuro, pode-se ver isso das coisas que, sobre o estado do homem espiritual relativamente ao estado do homem celeste, foram ditas acima (n. 2708); é o que claramente se vê pela comparação desses dois estados. Nos celestes, o bem mesmo foi implantado em sua parte voluntária e, por isso, a luz lhes vem na parte intelectual; mas nos espirituais foi perdido todo o voluntário, assim, de tal sorte que para eles nada de bom venha daí, e por isso, pelo Senhor, o bem é implantado na parte intelectual deles (ver n. 863, 875, 895, 927, 928, 1023, 1043, 1044, 2124, 2256). É a parte voluntária que no homem vive principalmente, mas é por ela que vive a parte intelectual. Quando, portanto, o voluntário no [homem] espiritual foi de tal modo perdido ao ponto que não seja senão o mal, e apesar disso o mal influi sem cessar e continuamente [desse voluntário] em sua parte intelectual ou em seu pensamento, é evidente que o bem nele esteja relativamente obscurecido. [2] Daí vem que nos espirituais não haja o amor ao Senhor como é nos celestes, por conseguinte, nem a humilhação que é essencial em todo o culto e pelo que o bem pode influir desde o Senhor. Com efeito, o coração soberbo jamais recebe, mas sim o coração humilde. Os espirituais também não têm o amor para com o próximo como os celestes, porquanto de sua parte voluntária influi continuamente o amor de si e do mundo e obscurece o bem desse amor; coisa que qualquer um, se refletir, pode até ver claramente nisto, que ele, quando faz o bem a alguém, é para um fim no mundo. Por conseguinte, embora o não manifeste, o fato é que ele pensa em um pagamento, quer da parte daqueles a quem ele faz o bem, quer da parte do Senhor na outra vida, de sorte que o seu bem é sempre poluído pelo meritório; então também segundo isto, que quando pratica algum bem, se pode se lembrar de si e assim se preferir aos outros, ele está no prazer de sua vida. Ao contrário, os celestes amam ao próximo mais do que a si próprios; eles nunca pensam na retribuição, e não se preferem aos outros de modo algum. [3] Além disso, o bem nos espirituais é obscurecido pelos persuasivos provenientes de diferentes princípios que também têm a sua origem no amor de si e do mundo; qual é o persuasivo, mesmo da fé, veja-se o n. 2682, 2689 até o fim; este provém também do influxo do mal por sua parte voluntária. [4] Além disso, pode-se ver a partir disso que o bem no homem espiritual seja o relativamente obscuro, porque não é por alguma percepção (como os celestes) que ele conhece o que é o vero, mas é pela instrução que ele recebe dos pais e dos mestres, assim como pela doutrina em que ele nasceu; e quando ele agrega-lhe alguma coisa de si próprio e do pensamento, então principalmente o sensual e as suas falácias, e o racional e as suas aparências, prevalecem, e fazem com que dificilmente ele possa reconhecer algum vero puro, tal qual os celestes reconhecem; mas a verdade é que todavia é nessas sortes de veros que o Senhor implanta o bem, ainda que sejam veros ilusórios [fallacia vera] ou aparências do vero. Mas o bem se torna por isso obscuro, sendo qualificado pelos veros aos quais ele está conjunto. Dá-se com isso como com a luz do Sol quando ela influi nos objetos e a qualidade dos objetos que recebem faz com que a luz neles se apresente sob uma aparência de cor: bela se a qualidade da forma e da recepção é conveniente e correspondente, feia se a qualidade da forma e da recepção não é conveniente nem, por conseguinte, correspondente; é assim que o próprio bem é qualificado conforme o vero. [5] Evidencia-se também isso a partir disto, que o homem espiritual não sabe o que é o mal; dificilmente ele crê que existam outros males além dos que são contra os preceitos do Decálogo; mas os males da afeição e do pensamento, que são inúmeros, ele não os conhece, não reflete sobre eles e não os chama males. Os prazeres das cobiças e das volúpias, sejam eles quais forem, ele não os considera de outro modo senão como bens, e os próprios prazeres do amor de si, ele os procura, os apropria e os desculpa, não sabendo que são tais prazeres que afetam o seu espírito, e que ele se forma absolutamente tal na outra vida. [6] Evidencia-se igualmente a partir disso, que ainda que, na Palavra, dificilmente se trata de outra coisa que não do bem do amor ao Senhor e para com o próximo, o homem espiritual nem por isso sabe que o bem é o essencial da fé, nem sequer o que seria o amor e a caridade em sua essência. E quanto ao que ele conhece da fé, que ele faz essencial, ele disserta sempre para se certificar se assim sucede, exceto se tiver sido confirmado por um longo período de sua vida, coisa que nunca os celestes fazem; com efeito, eles conhecem e percebem que assim seja; por isso foi dito pelo Senhor em Mateus: “Seja o falar vosso sim, sim, não, não, o que passa além disso vem do mal” (5:37). Com efeito, os celestes estão no vero mesmo, sobre o qual os espirituais disputam se porventura é assim; por conseguinte, os celestes porque estão no vero mesmo, podem daí ver indefinidas coisas que pertencem a esse vero, e verem assim, pela luz, quase todo o céu. Mas os espirituais, porque disputam para saberem se o vero é o vero, não podem, durante esse tempo, chegar ao primeiro limite da luz dos celestes, nem com mais forte razão ver nada pela luz dos celestes.