. ‘Uma esposa da terra do Egito’; que signifique a afeição das coisas do conhecimento que pertencem ao homem da igreja espiritual, é o que se vê pela significação da ‘esposa’, que é a afeição ou o bem (n. 915, 2517); e pela significação do ‘Egito’, que é o conhecimento (n. 1164, 1165, 1186, 1462). Neste versículo o homem da igreja espiritual é descrito tal qual ele é quanto ao bem, isto é, quanto à essência de sua vida, a saber, que nele o bem seja obscuro, mas que ele foi iluminado pelo Divino Humano do Senhor, iluminação pela qual existe em seu racional a afeição do vero, e em seu natural a afeição das coisas do conhecimento. Que no homem espiritual a afeição do bem, tal qual ela é no homem celeste, não possa existir, mas em seu lugar haja a afeição do vero, a causa é porque o bem implantado nele está em sua parte intelectual, e que ele seja relativamente obscuro, como foi explicado (n. 2715). Por conseguinte, não pode ser produzida nem ser derivada outra afeição em seu racional senão a afeição do vero, e por esta, no natural, a afeição das coisas do conhecimento. Pelo vero não se entende outro vero senão o que ele crê ser o vero, ainda que ele não fosse o vero em si; e pelos conhecimentos se entendem não os conhecimentos tais quais eles são para os eruditos, mas tudo do que pertence ao conhecimento de que ele pode se imbuir pela experiência e por meio da audição a partir da vida civil, da doutrina e da Palavra. É na afeição de tais coisas que se acha o homem da igreja espiritual. [2] Para que se saiba o que é estar na afeição do vero, e o que é estar na afeição do bem, vai-se falar a respeito em poucas palavras: os que estão na afeição do vero, pensam, examinam e discutem para saber se tal coisa é o vero, se isso é assim; e quando eles confirmaram que é o vero ou que é assim, eles pensam, examinam e discutem para saber o que é o vero; assim, eles param na primeira entrada, é não podem ser admitidos na sabedoria enquanto lhes resta dúvida. Ao contrário, os que estão na afeição do bem conhecem e percebem pelo próprio bem em que estão que tal coisa é assim; por conseguinte, eles não ficam na primeira entrada, mas estão no interior e são admitidos na sabedoria. [3] Tome-se, por exemplo, que o celeste consiste em pensar e em agir pela afeição do bem ou pelo bem: os que estão na afeição do vero examinam se isso é assim, se isso é possível, e o que é; e, enquanto estiverem ocupados com dúvidas a respeito, não podem ser introduzidos. Ao contrário, os que estão na afeição do bem não examinam e não se preocupam com dúvidas, mas dizem que assim seja, por isso eles são introduzidos, pois os que estão na afeição do bem, isto é, os celestes, começam aí onde param os que estão na afeição do vero, isto é, os espirituais, de sorte que o último término destes é o primeiro limiar daqueles. Por isso se dá aos celestes saber, conhecer e perceber que as afeições do bem sejam inúmeras, isto é, que há tantas quantas são as sociedades no céu, e que todas elas foram conjuntas pelo Senhor em uma forma celeste, de modo que elas constituem, por assim dizer, um só homem. Até se lhes faculta o poder de distinguir pela percepção o gênero e a espécie de cada afeição. [4] Tome-se este exemplo: que todo a prazer, toda bem-aventurança e toda felicidade venham unicamente do amor, mas que tal é o amor tais são o prazer, a bem-aventurança e a felicidade. O homem espiritual detém a mente animum nisto, se isso é assim e se isso não viria de uma outra parte, como da conversação, das palestras, da meditação, da erudição; e mais ainda, se isso não teria sua origem nas posses, na honra, na reputação e na glória que daí provém, não se confirmando neste fato, que essas coisas nada façam, mas sim a afeição do amor que está nessas coisas assim como a qualidade dessa afeição. Ao contrário, o homem celeste não se preocupa desses preliminares, mas diz que isso é assim; razão por que está no fim mesmo e no uso mesmo, isto é, nas afeições mesmas que pertencem ao amor, as quais são inúmeras, e em cada uma das quais há coisas inefáveis, e isso com uma variação de prazer, de bem-aventurança e de felicidade durante a eternidade. [5] Sirva também para exemplo, que o próximo deve ser amado pelo bem que está nele. Os que estão na afeição do vero pensam, examinam e discutem para saber se isso é verdadeiro, ou se porventura isso é assim, o que é o próximo, o que é o bem, e não vão mais longe, razão por que eles fecham a si próprios a porta para a sabedoria. Ao contrário, os que estão na afeição do bem dizem que isso é assim; por essa razão eles não fecham a si mesmos a porta [para a sabedoria], mas entram e, sabem, conhecem e percebem pelo bem qual é aquele que é o próximo de preferência a um outro, até mesmo em que grau ele o é, e que todos o são em um grau diferente. Assim, em comparação com os que estão somente na afeição do vero, eles sabem, conhecem e percebem coisas que é impossível exprimir. [6] Seja ainda para exemplo: que aquele que ama o próximo pelo bem ama o Senhor. Os que estão na afeição do vero examinam se isso é assim; e caso se lhes disser que aquele que ama o próximo pelo bem ama o bem, e porque todo bem procede do Senhor e no bem está Senhor, quando alguém ama o bem, ele também ama o Senhor de Quem vem o bem e em Quem está o bem, eles examinam se porventura isso é assim, e também o que é o bem, se porventura o Senhor está no bem mais do que no vero. Enquanto eles se detêm em tais exames, eles nem sequer podem ver de longe a sabedoria. Ao contrário, os que estão na afeição do bem conhecem pela percepção que isso é assim, e logo eles veem o horizonte da sabedoria que conduz ao Senhor. [7] Por tudo isso, pode-se ver de onde vem o obscuro entre os que estão na afeição do vero, isto é, nos espirituais relativamente aos que estão na afeição do bem, isto é, aos celestes; mas a verdade é que os espirituais podem passar desse obscuro para a luz, contanto que eles queiram somente estar no afirmativo que todo bem pertence ao amor ao Senhor e à caridade para com o próximo; e que o amor e a caridade constituam a conjunção espiritual, e que daí procedem toda bem-aventurança e toda felicidade, que em consequência a vida celeste está no bem do amor que procede do Senhor, mas não no vero da fé separado desse bem. * * *