Texto
. Que ‘oferece-o em holocausto’ signifique que o santificasse pelo Divino, é o que consta da representação do ‘holocausto’ entre a nação hebreia e na Igreja Judaica, no fato que ele era a coisa mais santa de seu culto. Havia holocaustos e havia sacrifícios, e aquilo que uns e outros representavam foi visto (n. 922, 923, 1823, 2180), era por meio deles que se faziam as suas santificações, daí vem que, aqui, por ‘oferecer em holocausto’ é significado santificar-se pelo Divino, porquanto o Senhor mesmo Se santificou pelo Divino, isto é, que Ele uniu o Humano ao Divino pelos combates e pelas vitórias das tentações (ver n. 1663, 1690, 1691 no fim, 1692, 1737, 1787, 1812, 1810, 1820).
[2] Hoje, a crença comum é que os holocaustos e os sacrifícios significaram a Paixão do Senhor, e que o Senhor por essa paixão espiou as iniquidades de todos, que Ele até as tomou sobre Si 156, e que, por conseguinte, as suportou. Assim, os que têm essa opinião creem que estão justificados e salvos, contanto que pensem (embora fosse na última hora da morte) que o Senhor padeceu por eles, seja qual for o modo pelo qual eles tenham se comportado durante todo o curso de sua vida. Mas as coisas não são assim. A Paixão da Cruz foi o último [grau] da tentação do Senhor; por meio dela Ele uniu plenamente o Humano ao Divino e o Divino ao Humano e, por conseguinte, Se glorificou; é por essa união mesma que podem ser salvos aqueles que têm a fé da caridade n’Ele. De fato, o Supremo Divino mesmo não podia mais chegar até o gênero humano, que tinha se afastado de tal modo das coisas celestes do amor e das coisas espirituais da fé, que eles nem sequer reconheciam mais, e menos ainda percebiam; por isso, a fim de que o Supremo Divino pudesse descer até o homem, que se tornara tal, o Senhor veio ao mundo e uniu em Si o Humano ao Divino. Essa união não pôde se efetuar de outro modo senão por meio dos mais graves combates das tentações, e por vitórias, e enfim, pela última, que era a da cruz.
[3] Daí vem que o Senhor possa iluminar, a partir de Seu Divino Humano, as mentes, até mesmo as mais afastadas das coisas celestes do amor, contanto que eles estejam na fé da caridade. O Senhor, com efeito, aparece, na outra vida, aos anjos celestes como Sol, e aos anjos espirituais como Lua (ver n. 1053, 1521, 1529, 1530, 2441, 2495), e toda luz do céu vem daí. A luz do céu é tal, que ela, quando ilumina a vista dos espíritos e dos anjos, ilumina ao mesmo tempo o seu entendimento. Essa luz tem isso de particular, que quanto mais alguém, no céu, tem luz externa, tanto mais ele tem luz interna, isto é, tanto mais tem entendimento, de onde se vê em que a luz do céu difere da luz do mundo. O Divino Humano do Senhor é o que ilumina tanto a vista como o entendimento dos espirituais, o que não se efetuaria caso o Senhor não tivesse unido a Essência Humana à Essência Divina; e se Ele não as tivesse unido, não teria havido mais intelectual nem perceptivo algum do bem e do vero para o homem no mundo, nem até para o anjo espiritual no céu; por conseguinte, não teria havido para ele nada do que constitui a salvação; de onde é evidente que o gênero humano não poderia ter sido salvo caso o Senhor não tivesse tomando o Humano e não o tivesse glorificado.
[4] Daí cada um pode agora concluir sobre o que vem a ser a crença dos que imaginam ser salvos, contanto que apenas pensem, por uma sorte de comoção interior, que o Senhor sofreu por eles e suportou os pecados deles, quando a verdade é que a luz do céu procedente do Divino Humano do Senhor não pode chegar a outros senão aos que vivem no bem da fé, isto é, na caridade, ou o que é o mesmo, que têm a consciência. O plano mesmo sobre o qual essa luz pode operar, ou o receptáculo dessa luz, é o bem da fé, ou a caridade, por conseguinte, a consciência. Que os espirituais tenham a salvação pelo Divino Humano do Senhor, foi visto (n. 1043, 2661, 2716, 2718).