. ‘E albardou o seu jumento’; que signifique o homem natural que Ele preparou, é o que se vê pela significação do ‘jumento’, de que se vai falar. No homem há as coisas voluntárias e há as intelectuais, às voluntárias pertencem as coisas que dizem respeito ao bem, às intelectuais, as que dizem respeito ao vero. Há várias espécies de animais [bestiae] por meio dos quais são significadas as coisas voluntárias que se referem ao bem, como os cordeiros, as ovelhas, os cabritos, as cabras, os novilhos, os bois (ver n. 1823, 2179, 2180); e também há animais pelos quais são significadas as coisas intelectuais que se referem ao vero, a saber, os cavalos, os burros, os onagros 158, os camelos, os jumentos e, além disso, as aves. Que o ‘cavalo’ signifique o intelectual, foi demonstrado (n. 2761, 2762); que pelo ‘onagro’, o vero separado do bem, foi visto (n. 1949); que o ‘camelo’, o conhecimento no geral, e o ‘jumento’ o conhecimento no particular, viu-se no n. 1486. [2] Há duas coisas que constituem o natural no homem, ou o que é o mesmo, [que constituem] o homem natural, a saber, o bem natural e o vero natural. O bem natural é um prazer que dimana da caridade e fé, o vero natural é o seu conhecimento. Que o vero natural seja o que é significado pelo jumento, e o vero racional o que é significado pelo burro, é o que se pode ver por estas passagens: Em Isaías: “Profético das bestas do sul: Na terra de angústia e da opressão, o leão e o tigre e, por eles, o basilisco e o áspide voador levarão sobre os ombros dos jumentinhos as suas fazendas, e sobre as corcovas dos camelos os seus tesouros, a um povo que não [lhes] aproveitará; e os egípcios vã e inutilmente auxiliarão” (30:6, 7); chamam-se ‘bestas do sul’ os que estão nas cognições do bem e do vero, mas que se servem delas não para a vida, mas para o conhecimento; a seu respeito se diz que eles “levam sobre as costas dos jumentinhos as suas fazendas e sobre as corcovas dos camelos os seus tesouros”, porque os ‘jumentinhos’ significam os conhecimentos no particular, e os ‘camelos’ os conhecimentos no geral; que os ‘egípcios’ sejam os conhecimentos, foi visto (n. 1164, 1165, 1186), a respeito deles se diz que eles “vã e inutilmente auxiliarão”. É evidente para qualquer pessoa que essa profecia tem um sentido interno, e que sem esse sentido ela não é compreendida por ninguém, uma vez que, sem o sentido interno não se pode saber o que vem a ser a profecia sobre as bestas do sul, e o que é o leão, e o tigre, o basilisco e o áspide voador, nem a razão por que se diz que essas bestas levarão sobre as costas dos jumentinhos as suas fazendas e sobre as corcovas dos camelos os seus tesouros, nem porque, imediatamente depois, se diz que o egípcios vã e inutilmente auxiliarão. O ‘jumento’ tem uma semelhante significação na profecia de Israel a respeito de Issascar, em Moisés: “Issascar, jumento ossudo, deitado entre os fardos” (Gn. 49:14). [3] Em Zacarias: “Esta será a praga com que ferirá JEHOVAH a todos os povos que pelejarão contra Jerusalém: haverá a praga do cavalo, do mulo, do camelo e do jumento, e de toda besta” (14:12, 15); Que o ‘cavalo’, o ‘mulo’, o ‘camelo’ e o ‘jumento’ signifiquem, no homem, as coisas intelectuais que serão acometidas de pragas, vê-se por todas e cada uma das coisas que precedem e que seguem [esta passagem], pois aí se trata das pragas que precederão o Juízo Final, ou a consumação do século, pragas de que João também falou no Apocalipse e em muitos lugares, e que os outros Profetas mencionaram frequentemente; ‘os que então devem combater contra Jerusalém’, isto é, contra a igreja espiritual do Senhor e contra seus veros, são significados por esses animais, esses serão acometidos de pragas quanto às coisas intelectuais. [4] Em Isaías: “Bem-aventurados vós que semeias perto de todas as águas, e, que [para lá] enviais o pé do boi e do jumento” (32:20); ‘os que semeiam perto de todas as águas’ são os que se deixam instruir nas coisas espirituais; que as ‘águas’ sejam as coisas espirituais, por conseguinte, as intelectuais do vero, foi visto (n. 588, 739, 2702); ‘os que para lá enviam o pé do boi e do jumento’ são as coisas naturais que devem servir; que o ‘boi’ seja o natural quanto ao bem, foi visto (n. 2180, 2566); o ‘jumento’ é o natural quanto ao vero. [5] Em Moisés: “Amarra à vide o seu jumentinho, e à cepa nobre o filho da sua jumenta; lavou no vinho a sua vestimenta, e no sangue das uvas, o seu manto” (Gn. 49:11). É esta a profecia de Jacó, então Israel, sobre o Senhor; a ‘vide’ e a ‘cepa nobre’ designam a igreja espiritual externa e interna (n. 1069); o ‘jumentinho’ é o vero natural; o ‘filho da jumenta’ é o vero racional. Que o filho da jumenta seja o vero racional, vem isso de que a ‘jumenta’ significa a afeição do vero natural (n. 1486), cujo filho é o vero racional, como foi visto (n. 1895, 1896, 1902, 1910). [6] Outrora o juiz tinha por cavalgadura uma jumenta, e os seus filhos, os jumentinhos; e isso porque os juízes representavam os bens da igreja, e os seus filhos, os veros que daí procedem; mas o rei tinha por cavalgadura uma mula, e os seus filhos, mulos, e isso porque os reis e os seus filhos representavam os veros da igreja (n. 1672, 1727, 2015, 2069). Que o juiz tenha tido por cavalgadura uma jumenta, vê-se no Livro dos Juízes: “O meu coração [é] para os legisladores de Israel, que [são] de boa vontade entre o povo; bendizei JEHOVAH. [Vós] que montais sobre jumentas brancas, e estais assentados sobre middin ...” (5:9, 10); nesta passagem se vê também que os filhos dos juízes tinham por cavalgadura jumentinhos: “Teve Jairo, juiz de Israel, trinta filhos, que montavam sobre trinta jumentinhos” (Jz. 10:3, 4); e nesta outra passagem: “Abdom, juiz de Israel, teve quarenta filhos e trinta filhos dos filhos, que montavam sobre setenta jumentinhos” (Jz. 12:14). É sabido que o rei montava em uma mula: “Disse-lhes Davi: Tomai convosco os servos do vosso Senhor, e fazei montar Salomão, meu filho, sobre a mula, a que [é] minha, [...] e fizeram Salomão montar sobre a mula do rei Davi [...] e ungiram-no Zadoque, o sacerdote, e Natã, o profeta, como rei em Giom” (1Rs. 1:33, 38, 44, 45); e que os filhos do rei montavam em mulos: “Ergueram-se todos os filhos do rei Davi, e montaram, cada um, sobre o seu mulo, e fugiram por causa de Absalão” (2Sm. 13:29). [7] Por tudo isto, é evidente que ‘montar sobre uma jumenta’ era uma prerrogativa do juiz e ‘montar sobre uma mula’ uma prerrogativa do rei; e que ‘montar sobre um jumentinho’ era uma prerrogativa dos filhos do juiz, e sobre um ‘mulo’ uma prerrogativa dos filhos do rei; por essa razão, como foi dito, porque a ‘jumenta’ representava e significava a afeição do bem e do vero natural, a ‘mula’ a afeição do vero racional, o ‘jumento’ ou o ‘jumentinho’, o vero natural mesmo, e o ‘mulo’, assim como o ‘filho da jumenta’, o vero racional. Daí se vê o que se entende pelas profecias sobre o Senhor em Zacarias: “Exulta, ó filha de Sião; jubila, ó filha de Jerusalém, eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvo; Ele, humilde e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta; o domínio d’Ele [será] de mar a mar, e do rio até os extremos da terra” (Zc. 9:9, 10). Sabe-se, pelos Evangelistas, que o Senhor quis montar sobre esses animais quando Ele veio à Jerusalém; a respeito disto assim se fala em Mateus: “Jesus mandou dois discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia que está em frente de vós, e logo encontrareis uma jumenta amarrada, e um poldro com ela; desatai e trazei a Mim. Tudo isso se fez, a fim de que se cumprisse o que foi dito pelo Profeta, dizendo: Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei vem a ti, manso e assentado sobre uma jumenta e sobre um poldro filho [que está] sob o jugo. E trouxeram a jumenta e o poldro e puseram sobre eles as suas vestimentas, e O colocaram sobre eles” (21:2, 4, 7); [8] ‘estar montado em um jumento’ era um sinal de que o natural tinha sido subordinado, e ‘estar montado em um poldro, filho de uma jumenta’ era um sinal de que o racional tinha sido subordinado. Que o ‘filho da jumenta’ tenha a mesma significação que o ‘mulo’, é o que se mostrou acima na passagem do Gênesis (49:11); daí, e como competisse ao sumo juiz e ao rei montar sobre esses animais, e a fim de que, ao mesmo tempo, os representativos da igreja se cumprissem, aprouve ao Senhor fazer isso; a este respeito se lê em João: “No dia seguinte, uma imensa multidão, que viera a festa, como ouvisse que viera Jesus a Jerusalém, tomaram ramos de palmeiras, e foram ao encontro d’Ele, e clamaram: Hosanna! Bendito O que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Achando, porém, Jesus um jumentinho, assentou-se sobre ele, segundo está escrito: Não temas, filha de Sião, eis o teu Rei vem assentado sobre o poldro da jumenta. Estas coisas, porém, não conheceram os discípulos d’Ele a princípio, mas quando Jesus foi glorificado, então se recordaram de que essas [coisas] a respeito d’Ele tinham sido escritas e que elas foram feitas por Ele” (12:12–16; Mc. 11:1–12; Lc. 19:28–41). [9] É, pois, evidente agora, pelo que acaba de ser dito, que todas e cada uma das coisas na igreja desse tempo, foram representativas do Senhor e, por conseguinte, representativas das coisas celestes e espirituais que estão em Seu Reino; e isso, até a jumenta e ao poldro da jumenta, por meio dos quais era representado o homem natural quanto ao bem e ao vero. A razão dessa representação era que o homem natural deve estar a serviço do homem racional, este a serviço do homem espiritual, este a serviço do homem celeste, e o homem celeste a serviço do Senhor. Esta é a ordem da subordinação. [10] Como o boi e o jumento significavam o homem natural quanto ao bem e vero, por isso foram ensinadas muitas leis em que se fala de bois e de jumentos, leis que, à primeira vista, não parecem dignas de serem insertas na Palavra Divina; mas quando elas são desenvolvidas quanto ao sentido interno, o espiritual que elas envolvem mostra-se de uma importância muito grande; por exemplo, estas Leis em Moisés: “Quando abriu alguém uma cova, ou quando cavar alguém uma cova, e não a cobriu, e cair nela um boi ou um jumento, o dono da cova restituirá o dinheiro ao dono, e o morto será para si” (Êx. 21:33, 34); “Quando encontrares o boi do seu inimigo, ou o jumento dele errante, reconduzindo reconduzi-lo-ás a ele. Quando vires o jumento do que te odeia deitado sob a sua carga, e que tiveres deixado de removê-la, removendo removê-la-ás de cima dele” (Êx. 23:4, 5; Dt. 22:4); “Não verás o jumento de teu irmão ou o boi caído no caminho, e te esconderá dele, levantando levantarás” (Dt. 22:4); “Não lavrarás com o boi e o jumento juntos; não te vestirás com um tecido mesclado de lã e linho juntos” (Dt. 22:10, 11); “Seis dias farás as tuas obras, e no sétimo dia descansarás, para que descanse o teu boi, e o teu jumento, e o filho da tua serva, e o peregrino” (Êx. 23:12); aí o ‘boi’ e o ‘jumento’, no sentido espiritual, não significam outra coisa senão o bem e vero natural.