Texto
. ‘Amarrou Isaque, seu filho’; que signifique o estado do Racional Divino, assim, que, quanto ao vero, deveria suportar os últimos graus da tentação, é o que se pode ver pela significação de ‘amarrar’, então pela de ‘Isaque, seu filho’. Que ‘amarrar’ seja revestir o estado para suportar os últimos graus da tentação é o que se pode ver por isso, que aquele que se acha no estado da tentação é como se estivesse amarrado ou acorrentado. Que ‘Isaque filho’ seja o Racional Divino do Senhor, aqui quanto ao vero, foi visto (n. 2802, 2803). Todo Racional genuíno se constitui do bem e vero; o Racional Divino do Senhor, quanto ao bem, não pode sofrer ou padecer tentações; com efeito, nenhum dos gênios ou dos espíritos que induzem tentações pode se aproximar do Bem Divino, e também [este Bem] está acima de todo esforço da tentação; mas o que pôde ser tentado era o Vero Divino amarrado. Há, de fato, falácias e, mais ainda, falsos que se lançam contra ele e, portanto, tentam. Com efeito, pode-se formar alguma ideia do Vero Divino, mas não do Bem Divino, a não ser pelos que têm percepção e são anjos celestes. Era o Vero Divino que não era mais reconhecido quando o Senhor veio ao mundo, razão por que era a partir desse Vero que o Senhor suportou e sustentou as tentações. O Vero Divino no Senhor é o que é chamado o ‘Filho do homem’, enquanto o Bem Divino no Senhor é o que é chamado o ‘Filho de Deus’. O Senhor disse muitas vezes, do Filho do homem, que Ele deve sofrer, mas nunca Ele [o disse] do Filho de Deus. Que Ele assim falou do Filho do homem ou do Vero Divino, vê-se em Mateus:
“Eis que subiremos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e O condenarão, e O entregarão às nações para Ele ser escarnecido e flagelado, e ser crucificado” (20:18, 19).
No mesmo:
“Jesus disse aos seus discípulos: Eis que se aproxima a hora, e o Filho do homem será entregue às mãos dos pecadores” (Mt. 26:45).
Em Marcos:
“Jesus começou a ensiná-los que convinha ao Filho do homem sofrer muito, e ser rejeitado pelos antigos e pelos príncipes dos sacerdotes e escribas, e ser morto; todavia, depois de três dias ressuscitaria” (8:31).
No mesmo:
“Está escrito a respeito do Filho do homem, que muito padecerá, e será desprezado; e o Filho do homem será entregue na mão dos homens, que O matarão, mas [depois de ter sido] morto, ressuscitará no terceiro dia” (Mc. 9:12, 31).
No mesmo:
“Eis que subiremos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte, entregá-Lo-ão aos pagãos [ethinicis]; estes escarnecerão d’Ele, e cuspirão n’Ele, e O matarão, mas no terceiro dia ressurgirá” (Mc. 10:33, 34).
No mesmo:
“Vem a hora, eis que o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores” (Mc. 14:41).
Em Lucas:
“É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e será rejeitado pelos anciãos e pelos príncipes dos sacerdotes e escribas, e será morto, e no terceiro dia ressuscitará” (9:22, 44).
No mesmo:
“Subiremos a Jerusalém, onde se cumprirão todas as coisas que foram escritas pelos profetas a respeito do Filho do homem, será entregue aos gentios e será escarnecido, e de ultrajes será acometido, e será cuspido, e flagelando O matarão, mas no terceiro dia ressuscitará” (Lc. 18:31, 32, 33).
No mesmo:
“Os anjos [disseram] às mulheres: Lembrai do que vos falou quando ainda estava na Galileia, dizendo que era necessário ao Filho do homem ser entregue nas mãos dos homens pecadores, e ser crucificado, e no terceiro dia ressuscitar” (Lc. 24:7).
[2] Em todas essas passagens, por ‘Filho do homem’ se entende o Senhor quanto ao Vero Divino, ou quanto à Palavra em seu sentido interno, que os príncipes dos sacerdotes e os escribas deviam rejeitar, ultrajar, flagelar, cuspir e crucificar, como se pode ver manifestamente pelo fato de que os judeus tinham aplicado e arrogado a si todas e cada uma das coisas segundo a letra, e nada queriam saber do sentido espiritual da Palavra nem do reino celeste, crendo que o Messias viria elevar o reino deles acima de todos os reinos da terra, como creem ainda hoje. Daí fica evidente que tinha sido o Vero Divino que foi por eles rejeitado, ultrajado, flagelado e crucificado. Quer se diga o Vero Divino quer o Senhor quanto ao Vero Divino, é a mesma coisa, pois o Senhor é o Vero mesmo, assim como Ele é a Palavra mesma (n. 211, 2016, 2533 no fim).
[3] Que o Senhor tenha ressuscitado no terceiro dia, também envolve que o Vero Divino, ou a Palavra quanto ao sentido interno — como foi o entendimento da Igreja Antiga — na consumação do século, que é também o terceiro dia (n. 1825, 2788) será ressuscitado; razão por que se diz que então aparecerá o Filho do homem, isto é, o Vero Divino (Mt. 24:30, 37, 39, 44; Mc. 13:26; Lc. 17:22, 24, 25, 26, 30; 21:27, 36).
[4] Que o Filho do homem seja o Senhor quanto ao Vero Divino, é o que se vê pelas passagens acima citadas e, além disso, pelas seguintes: Em Mateus:
“Quem semeia a boa semente é o Filho do homem; o campo é o mundo; na consumação do século o Filho do homem enviará seus anjos, e recolherão do Seu Reino todos os escândalos” (13:37, 41, 42);
onde a ‘boa semente’ é o vero; o ‘mundo’ são os homens; quem semeia esse vero é o ‘Filho do homem’, os ‘escândalos’ são os falsos. Em João:
“A multidão disse: Ouvimos da Lei que o Cristo deve permanecer eternamente; como, pois, tu dizes, convêm que o Filho do homem seja elevado? Quem é este Filho do homem? Respondeu-lhes Jesus: Por um pouco tempo a Luz está convosco; andai enquanto tendes a Luz para que as trevas não vos surpreendam, pois, quem anda nas trevas não sabe até onde vai; enquanto a Luz tendes, crede na Luz, para que filhos da Luz sejais” (12:34, 35);
onde, quando perguntam quem é o filho do homem, Jesus responde a respeito da Luz, que é o vero, e que Ele mesmo seja a Luz, ou o Vero, em que deviam crer. (A respeito da Luz que procede do Senhor e que é o Divino Vero, ver os n. 1053, 1521, 1529, 1530, 1531, 1619 a 1632.)
[5] Que, por sua vez, o filho de Deus, ou o Senhor quanto ao Bem no Humano Divino, não tenha podido ser tentado, como acima se disse, é o que também é evidente pela resposta do Senhor ao tentador nos Evangelistas:
“Disse o tentador: Se és o Filho de Deus: lança-Te Tu mesmo embaixo, pois está escrito: Deu ordem aos seus anjos sobre Ti, para que talvez não choque contra uma pedra o Teu pé. De novo, disse-lhe Jesus: Está escrito: Não tentarás ao Senhor Teu Deus” (Mt. 4:6, 7; Lc. 4:9, 10, 11, 12).