Texto
. ‘Porque agora sei que tu temes a DEUS’; que signifique a glorificação pelo Amor Divino, vê-se pela significação de ‘saber’ quando se predica do Divino do Senhor, o que não é outra coisa senão unir, ou, o que é o mesmo, glorificar. Com efeito, o Divino estava unido ao Humano Divino por meio das tentações (n. 1737, 1813). E [vê-se também] pela significação de ‘temer a Deus’, ou do ‘temor de Deus’, que aqui é o Amor Divino; e como esse Amor se diz do Racional Divino do Senhor quanto ao vero, se diz aqui temer a DEUS e não temer a JEHOVAH, porquanto quando se trata do vero se diz DEUS e quando se trata do bem, JEHOVAH (n. 2586, 2769, 2822). Que seja pelo Amor Divino que o Senhor uniu a Essência Humana à Essência Divina, e a Essência Divina à Essência Humana, ou, o que é o mesmo, Se glorificou, foi visto (n. 1812, 1813, 2253). O que ‘temer a Deus’ significa na Palavra, pode-se ver por um grande número de passagens entendidas quanto ao sentido interno. O temor de Deus significa aí o culto, e até mesmo o culto proveniente quer do temor, quer do bem da fé, quer do bem do amor. O culto proveniente do temor quando se trata dos não regenerados; o culto proveniente do bem da fé quando se trata dos regenerados espirituais; e o culto proveniente do bem do amor quando se trata dos regenerados celestes.
[2] I. Que o temor de Deus no geral significa o culto, vê-se no Livro de Reis:
“[...] Os filhos de Israel ...temeram outros deuses; e caminharam nos estatutos das nações [...]: As nações enviadas a Samaria ...no princípio ...não temeram a JEHOVAH, por isso JEHOVAH enviou contra eles leões... E veio um dos sacerdotes, dos que foram feitos cativos em Samaria, e habitou em Bethel, e ensinou-lhes como temessem JEHOVAH; [...] JEHOVAH firmará aliança com os filhos de Israel, e lhes dará este preceito: Não temereis os deuses estrangeiros, nem vos curvareis a eles e não os servireis, não lhes sacrificareis, mas a JEHOVAH... temereis, e a Ele vos curvareis, e a Ele sacrificareis” (2 Reis, 17:7, 8, 24, 25, 28, 32, 33, 35, 36, 37, 41);
onde ‘temer’ é evidentemente prestar um culto. Em Isaías:
“Porque este povo se aproximou com sua boca, e com os seus lábios Me honraram, e o coração deles se afastou de Mim, e o temor deles por Mim foi um mandamento ensinado dos homens” (29:13);
onde o ‘temor deles por Mim’ designa o culto no geral, pois se diz que esse temor foi um mandamento de homens. Em Lucas:
“Havia em uma cidade um certo juiz que não temia a Deus e que não respeitava o homem” (18:2);
que ‘não temia a Deus’ está no lugar de ‘que não lhe prestava culto’.
[3] II. Que o temor de Deus signifique o culto proveniente do temor quando se trata dos não regenerados, vê-se em Moisés:
“Quando se promulgava a Lei sobre o Monte Sinai, o povo disse a Moisés: Fala, tu, conosco e ouviremos, e não fale Deus conosco para que não morramos. E Moisés disse ao povo: Por isso, para vos tentar veio Deus, e para que o temor d’Ele esteja sobre vossas faces, para que não peques” (Êx. 20:19, 20);
e em outro lugar:
“Agora, por que morreríamos? Porque esse grande fogo nos devora, se continuamos a ouvir a voz de JEHOVAH, nosso Deus, ainda mais, e morreremos. [...] Aproxime-te tu, e ouve tudo o que disser a ti JEHOVAH, nosso Deus,... e escutaremos e faremos. [...]”
E JEHOVAH disse a Moisés:
“Quem dará, e será o coração deles este para eles para Me temer, e para guardar todos os Meus preceitos, por todos os dias [...]” (Dt. 5:22, 24, 26 [Em JFA, 5:25, 27, 29]);
aí o ‘temor de Deus sobre vossas faces para que não peques’ e o ‘coração para Me temer e para guardar todos os Meus preceitos’ significa o culto proveniente do temor relativamente a eles, porque eles eram tais. Com efeito, os que estão no culto externo e que não têm culto interno são levados, pelo temor, à observância da lei e à obediência, mas de fato não vêm ao culto interno ou em um temor santo a não ser que estejam no bem da vida e saibam o que é o interno, e creiam. No mesmo:
“Se não preservares para fazer todas as palavras desta Lei, escritas neste Livro, para que temais este nome glorioso e terrívelJEHOVAH, TEU DEUS, JEHOVAH restituirá as tuas pragas, e as pragas da tua semente, pragas grandes e certas, e enfermidades más e certas, e retornará sobre ti toda a languidez do Egito, [males] que temes para ti, e se apegarão a ti” (Dt. 28:58, 59, 60);
aqui também ‘temer o nome glorioso e terrível de JEHOVAH DEUS’ é prestar um culto pelo temor, e como esse culto existia em tais homens, todos os males, até as maldições, eram atribuídos a JEHOVAH (n. 592, 2335, 2395, 2447). Em Jeremias:
“Castigar-te-á a tua malícia, e as tuas aversões repreender-te-ão; e saibas e vejas que é uma coisa má e amarga para ti abandonar JEHOVAH, teu Deus, e o Meu pavor não estar em ti” (2:19).
Em Lucas:
“Digo-vos: Não temais vós por aqueles que matam o corpo mas que depois não têm mais o que fazer. Mostrar-vos-ei, porém, a vós, a Quem deveis temer: Temei ao mesmo Que, depois que mata, tem poder de lançar na gehenna; sim, digo-vos, a Este temei” (12:4, 5; Mt. 10:28);
aqui também ‘temer a Deus’ envolve o culto proveniente de algum temor, porque o temor, como foi dito, os levará à obediência.
[4] III. Que temer a Deus, ou a JEHOVAH, signifique o culto proveniente do bem da fé, onde se trata dos regenerados espirituais, é isso evidente por estas passagens: Em Moisés:
“O rei escreverá para si um exemplar desta Lei sobre um livro diante dos sacerdotes levitas; e estará com ele; e lerá nele todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer a JEHOVAH, seu Deus, para observar todas as palavras desta Lei, e estes Estatutos para os fazer” (Dt. 17:18, 19);
o ‘rei’, no sentido interno, está no lugar do vero da fé; com efeito, a realeza representava o Reino espiritual do Senhor (n. 1672, 1728, 2015, 2069); daí, ‘temer a JEHOVAH, seu Deus’ é prestar-Lhe um culto proveniente do vero da fé, que, porque é inseparável do bem da caridade, é descrito por ‘observar as palavras da Lei e os estatutos para os fazer’. Em Samuel:
“Eis que JEHOVAH estabeleceu sobre vós um Rei, se temerdes a JEHOVAH, e O servirdes, e escutardes a voz d’Ele, seguireis também vós, e também o Rei que reina sobre vós, após JEHOVAH, vosso Deus” (1Sm. 12:13, 14);
aqui também, no sentido interno, ‘temer a JEHOVAH’ é prestar um culto proveniente do bem e vero da fé, como acima, porque se trata do Rei ou da realeza.
[5] Em Josué:
“Agora temei a JEHOVAH, e servi-O na integridade e na verdade, e afastai os deuses aos quais vossos pais serviram” (24:14);
onde também ‘temer a JEHOVAH’, é prestar um culto proveniente do bem e vero que pertence ao homem espiritual, pois se atribui a integridade ao bem da fé (n. 612), já a verdade, ao vero da fé. Em Jeremias:
“Serão para Mim por povo, e Eu serei para eles por Deus, e dar-lhes-ei um só coração, e um só caminho, para que Me temam todos os dias, para o bem deles e dos filhos deles depois deles, e tratarei com eles uma aliança de século, que não [Me] desviarei de após eles, para os beneficiar, e estabelecerei o Meu temor no coração deles, para que não se retirem de Mim” (32:38, 39, 40).
Que, nestas passagens, ‘temer a Deus’ é prestar-Lhe um culto proveniente do bem e do vero da fé, é o que se pode ver pela série e no fato que aí se acham as expressões ‘povo’ e ‘Deus’. Que a palavra ‘povo’ se aplica aos que estão no vero da fé, foi visto (n. 1259, 1260); que a palavra ‘Deus’ é empregada quando se trata do vero (n. 2586, 2769, 2807 no fim). Em Isaías:
“Honrará a Ti um povo robusto, a cidade das nações fortes Te temerão” (25:3);
onde também ‘temer a Deus’ é Lhe prestar um culto proveniente do vero espiritual; com efeito, trata-se do povo e da cidade; a ‘cidade’ é o vero doutrinal (n. 402, 2268, 2454, 2451).
[6] Em Davi:
“Quem [é] esse varão que teme a JEHOVAH? Ensinar-lhe-á o caminho que [ele] escolherá” (Sl. 25:12);
onde o ‘varão que teme a JEHOVAH’ é aquele que Lhe presta um culto; e é evidente que se trata do homem espiritual, pois se diz que ele lhe ensinará o caminho; que o caminho seja o vero, foi visto (n. 627, 2333). No mesmo:
“Bem-aventurado todo aquele que teme a JEHOVAH e anda nos caminhos d’Ele” (Sl. 128:1);
a mesma significação. No mesmo:
“Os que temem a JEHOVAH O glorificarão; toda a semente de Jacó O glorificará, e recearão por Ele toda semente de Israel” (Sl 22:24 [Em JFA, 22:23]);
onde ‘recear por Ele’ está por prestar um culto proveniente do vero da fé, pois a semente de Israel é o espiritual da igreja, ou o bem e o vero da fé (n. 1925, 1447, 1610). Em Moisés:
“Agora, ó Israel, o que é que JEHOVAH Deus pede a ti senão para temer a JEHOVAH, teu Deus, para andar em todos os caminhos d’Ele, e para amá-Lo e para servir a JEHOVAH, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, para observar os preceitos de JEHOVAH e os estatutos d’Ele?” (Dt. 10:12, 13);
aí se descreve o que é temer a Deus no homem espiritual, que é Israel, a saber, que seja andar nos caminhos de JEHOVAH, amar a Ele e servir a Ele e observar os Seus preceitos e estatutos. Em João:
“Vi um anjo voando no meio do céu, tendo o evangelho eterno,... Dizendo com voz grande: Temei a Deus e dai-Lhe glória, porque vem a hora do juízo d’Ele [...]” (Ap. 14:6, 7);
aí, ‘temer a Deus’ é tomado por um culto santo proveniente do bem e do vero da fé. Em Lucas:
“[...] Jesus... disse ao paralitico: ...Levanta-te e, tomando a tua cama, vai para tua casa. Então o espanto invadiu a todos, e glorificavam a Deus, e se encheram de temor” (5:24, 26);
onde o temor é aqui um temor santo, qual o temor daqueles que, pelo vero da fé, são iniciados no bem do amor.
[7] IV. Que temer a Deus, ou a JEHOVAH, significa o culto proveniente do bem do amor, quando se trata dos regenerados celestes. Em Malaquias:
“Minha aliança com Levi foi de vidas e de paz, e dei-as a ele para temor; e Me temeu, e pelo Meu nome ele esteve contrito. A lei da verdade esteve na boca dele, e a perversidade não [esteve] nos lábios dele, na paz e na retidão andou comigo” (2:5, 6);
onde se trata do Senhor, Que aqui é Levi, no sentido interno. ‘Levi’ significa o sacerdócio e significa o amor; o ‘temor’ é aí tomado pelo bem do Divino Amor; a ‘lei da verdade’, pelo vero desse bem; a ‘paz’ e a ‘retidão’, por um e outro.
[8] Em Isaías:
“Sairá uma vara da estirpe de Jessé; e um rebento das raízes dele crescerá. E descansará sobre Ele o espírito de JEHOVAH, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de força, o espírito do conhecimento e do temor de JEHOVAH. E o cheirar d’Ele [será] no temor de JEHOVAH [...]” (11:1, 2, 3);
onde também se trata do Senhor; o ‘espírito do conhecimento e de temor de JEHOVAH’ designa o Divino amor do vero; o ‘cheirar no temor de JEHOVAH’, o Divino Amor do bem.
[9] Em Davi:
“Os preceitos de JEHOVAH [são] retos, alegrando o coração; o mandamento de JEHOVAH [é] puro, iluminando os olhos. O temor de JEHOVAH [é] limpo, permanecendo para sempre; os juízos de JEHOVAH [são] as verdades justificadas juntamente” (Sl. 19:9, 10 [Em JFA, 19:8, 9]);
onde o ‘temor de JEHOVAH’, que é limpo, é o amor; os ‘juízos de JEHOVAH’, que são a verdade, são a fé; predica-se a ‘justiça’ do bem que pertence ao amor, e ‘juízos’ se predica do vero que pertence à fé, como foi visto (n. 2235); diz-se que elas são ‘justificadas juntamente’ quando o vero se torna bem ou quando a fé se torna caridade.
[10] No mesmo:
“Eis que o olho de JEHOVAH [está] sobre os que O temem, sobre os que esperam a misericórdia d’Ele” (Sl. 33:18);
e em outro lugar:
“JEHOVAH não se deleita na força do cavalo, não se apraz nas pernas do varão, o prazer de JEHOVAH [está] nos queO temem e esperam na misericórdia d’Ele” (Sl. 147:10, 11);
a ‘força do cavalo’ designa o poder próprio de pensar o vero; que o ‘cavalo’ seja o intelectual, foi visto (n. 2760, 2761, 2762); as ‘pernas do varão’ designam o poder próprio de fazer o bem; ‘os que temem a JEHOVAH’ são os que Lhe prestam um culto proveniente do amor do vero, e ‘os que esperam a Misericórdia d’Ele’ são os que Lhe prestam um culto proveniente do amor do bem. Onde, nos Profetas, se trata do bem se trata também do vero, e onde se trata do vero também se trata do bem, como foi dito, por causa do casamento celeste do bem e do vero em cada coisa (ver n. 683, 793, 801, 2516, 2712, 2713).
[11] No mesmo:
“JEHOVAH abençoará a casa de Israel, abençoará a casa de Aharão, abençoará os que temem a JEHOVAH, [tanto] pequenos como os grandes” (Sl. 115:12, 13).
Aqui, ‘os que temem a JEHOVAH’ designam os que têm um culto proveniente do bem da fé, que é a ‘casa de Israel’, e proveniente do bem do amor, que é a ‘casa de Aharão’, um e outro bem por causa do casamento celeste em cada coisa da Palavra, como foi dito.
[12] Em Isaías:
“Será a verdade dos teus tempos a força da salvação, a sabedoria e a ciência, e o temor de JEHOVAH o tesouro mesmo” (33:6);
onde a ‘sabedoria e a ciência’ são o bem da fé conjunto com o seu vero, o ‘temor de JEHOVAH’ é o bem do amor. No mesmo:
“Quem dentre vós teme a JEHOVAH? aquele que escuta a voz do servo d’Ele?” (50:10);
‘aquele que teme a JEHOVAH’ significa aquele cujo culto provém do amor; ‘aquele que escuta a voz de Seu servo’ é aquele cujo culto provém da fé; quando um pertence ao outro, então há o casamento celeste.
[13] A partir dessas passagens alegadas da Palavra, pode-se ver que o ‘temor de Deus’ é o culto proveniente ou do temor, ou do bem da fé, ou do bem do amor. Contudo, quanto mais há temor no culto, tanto menos há fé e tanto menos ainda há amor; e, reciprocamente, quanto mais há fé no culto, e quanto mais ainda há amor, tanto menos há temor. Em todo culto há de fato o temor, mas é sob outro aspecto [alia specie] e sob outra condição [alio habitu], é um ‘temor santo’; o temor santo não é, entretanto, um temor pelo inferno e pela danação, mas é um temor para que não se façam ou se pensem quaisquer coisas contra o Senhor e contra o próximo, assim, é o temor de fazer ou pensar qualquer coisa que seja contra o bem do amor e o vero da fé, é uma aversão que é um limite da santidade da fé e da santidade do amor de uma parte. E porque, como foi dito, não há o temor do inferno e da danação nos que estão no bem da fé e, ainda menos, nos que estão no bem do amor, isto é, que estão no Senhor, por isso é que:
[14] V. Temer significa também desconfiar, ou não ter fé nem amor, como em Isaías:
“Assim disse o Teu Criador, ó Jacó, e o Teu Formador, ó Israel: Não temas, porque te remi; chamei-te pelo teu nome, tu [és] Meu” (43:1, 5; 44:8).
Em Lucas:
“O juramento que jurou a Abrahão nosso pai ser-nos-á dado, para que, sem temor, da mão dos nossos inimigos, sejamos arrancados, para que O sirvamos em santidade e justiça perante Ele” (1:73, 74, 75).
No mesmo:
“Não temas por ti, ó pequeno rebanho, porquanto aprouve ao vosso Pai dar[-vos] o Reino” (12:32).
Em Marcos:
“Jesus disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente” (5:36; Lc 8:49, 50).
No mesmo:
“Jesus disse: Por que estais tão temerosos? Como não tendes fé? (Mc. 4:40).
Em Lucas:
“Os cabelos da vossa cabeça estão contados, por isso, não temais, valeis mais do que muitos passarinhos” (12:7).
Nessas passagens, ‘temer’ é desconfiar, ou não ter fé nem amor.