. ‘E eis um carneiro’; que signifique aqueles, provenientes do gênero humano, que são espirituais, é o que se vê pela significação do ‘carneiro’, de que se tratará no que segue. Sabe-se, no interior da igreja, que os holocaustos e os sacrifícios na igreja representativa judaica e israelita tinham significado o Divino Humano do Senhor; mas uma é a significação nos holocaustos e nos sacrifícios dos cordeiros, outra nos de ovelhas e cabras, e também outra nos de cabritinhos, bois, touros, bezerros, e nos de rolas e de filhos de pombas; o mesmo acontecia com as minchás [bolos] e com as libações. Em geral, eles significaram os Divinos celestes, os Divinos espirituais e os Divinos naturais, que pertencem ao Senhor; e por isso eles significaram as coisas celestes, espirituais e naturais que estão, por Ele, em Seu Reino, consequentemente, em cada coisa que é do Reino do Senhor. É também o que se pode ver pela Santa Ceia, que sucedeu os holocaustos e os sacrifícios; nela o pão e o vinho significam o Divino Humano do Senhor: o pão, Seu Divino celeste, o vinho, o Seu Divino espiritual; consequentemente, significam o amor d’Ele para com todo o gênero humano, e reciprocamente o amor do gênero humano ao Senhor (n. 2343, 2359). Daí é evidente que os holocaustos e os sacrifícios encerravam o culto celeste proveniente do amor ao Senhor e o culto espiritual proveniente da caridade para com o próximo, e, por isso, proveniente da fé no Senhor (n. 922, 923, 1823, 2180). O que é o celeste e o que é o espiritual, ou o que são os que são celestes ou espirituais no Reino do Senhor ou em Sua igreja, foi dito muitas vezes (ver n. 1155, 1576, 1824, 2048, 2088, 2184, 2227, 2669, 2708, 2715). [2] Que então o ‘carneiro’ signifique o Divino espiritual do Senhor e, consequentemente, o espiritual no homem, ou, o que é o mesmo, os dentre os do gênero humano que são espirituais, é o que se pode ver a partir dos holocaustos e sacrifícios que se faziam de carneiros, como: “Quando Aharão e os filhos dele eram santificados para desempenharem o ministério, ou quando eram inaugurados, que ofereceram pelo pecado um novilho cujo sangue era espargido sobre os chifres do altar e o resto derramado em seu fundamento; então que se imolava também um carneiro e o sangue dele era espargido ao redor do altar, e depois o carneiro era queimado todo inteiro no holocausto, e, de um outro carneiro imolado, o sangue era esparsado sobre a ponta da orelha e o polegar da mão e do pé de Aharão, e depois que [esse carneiro] tinha sido agitado, era queimado sobre o holocausto” (Êx. 29:1 ao 35; Lv. 8:1 até o fim; 9:2 e seguintes). Que todos esses ritos eram santos, é evidente, mas santos por essa razão, porque representavam e significavam coisas santas, pois de outro modo, imolar um bezerro, espargir seu sangue sobre os chifres do altar e o resto em seu fundamento, imolar um carneiro, espargir seu sangue em volta do altar e depois queimá-lo todo inteiro, derramar sangue de um outro carneiro sobre a ponta da orelha e sobre o polegar da mão e do pé de Aharão, depois agitá-lo e queimá-lo sobre o holocausto, todas essas coisas não seriam de nenhuma santidade, assim, de nenhum culto, se não tivessem representado coisas santas. Contudo, as particularidades que tinham sido representadas, ninguém pode ver senão a partir do sentido interno. Que o ‘novilho [imolado] para o pecado’ tenha significado o Divino natural do Senhor, e o ‘carneiro’, o Divino espiritual e também os dentre o gênero humano que são espirituais, é o que se pode ver pela significação do novilho e do carneiro na Palavra. As inaugurações do sacerdócio se faziam pelas coisas espirituais, pois pelas coisas espirituais o homem é introduzido nas celestes, ou, o que é a mesma coisa, pelos veros da fé ele é introduzido no bem do amor. É semelhante “quando Aharão entrava no Santo, oferecia um novilho para o pecado e um carneiro em holocausto” (Lv. 16:2, 3). [3] Que o “nazireu, quando estavam completos os dias de seu nazireado, oferecia um cordeiro filho de um ano sem defeito em holocausto, e uma cordeira filha de um ano sem defeito para o pecado, e um carneiro sem defeitos para os sacrifícios de paz” (Nm. 6:13, 14, 16, 17), era porque o nazireu representava o homem celeste, que é a semelhança do Senhor (n. 51, 52, 1013). O homem celeste é tal que está no amor celeste, isto é, no amor ao Senhor e, por conseguinte, no celeste vero (n. 202, 337, 2069, 2715, 2718); por isso devia sacrificar um cordeiro e uma cordeira, pelos quais era significado o celeste, então aqui o carneiro, pelo qual era significado o espiritual. Nas festas sacrificavam-se novilhos, carneiros e cordeiros, como “no primeiro dia das festas dos asmos, dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros, com a minchá deles, em holocausto” (Nm. 28:18, 19, 20). “No dia das primícias, também eram dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros, com o seu minchá, em holocausto” (Nm. 28:26, 27, 28). “Nas luas novas, dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros, com o seu minchá, em holocausto” (Nm. 28:11, 12). No sétimo mês, no primeiro do mês, um novilho, um carneiro, sete cordeiros, com o seu minchá. No décimo quinto dia do sétimo mês, treze novilhos, dois carneiros, quatorze cordeiros, e assim seguindo (ver Nm. 29:1, 2, 12–14, 17, 18, 20, 21–24, 26–36). Os novilhos e os carneiros significavam as coisas espirituais, mas os cordeiros, as celestes, pois deviam, nas festas, se santificar e serem introduzidos por meio das coisas espirituais. [4] Como os carneiros significavam o Divino espiritual do Divino Humano do Senhor e também as coisas espirituais no homem, por isso, onde se trata do Novo Templo e da Nova Jerusalém, isto é, do Reino espiritual do Senhor, se diz em Ezequiel: “Quando ali tiverdes acabado de purificar o altar, oferecer-se-á um novilho para o pecado, e um carneiro em holocausto, e que sete dias se sacrificará um bode do pecado cada dia, e um novilho e um carneiro” (43:23, 24, 25); “e que o Príncipe, neste dia, sacrificará por todo o povo um novilho do pecado, e [durante] sete dias de festa sete novilhos e sete carneiros, com minchá, em holocausto” (45:22, 23, 24). “E no dia do sabbath se sacrificará seis cordeiros e um carneiro” (46:4, 6). [5] Que pelo Novo Templo e a Nova Jerusalém é significado, no sentido universal, o Reino do Senhor, foi visto (n. 402, 940), e [que é significada], em particular, a Nova Igreja (n. 2117). Qualquer um pode pois saber que ali não haverá holocaustos nem sacrifícios e é, por conseguinte, evidente que por eles são significadas as coisas celestes que pertencem ao amor e as espirituais que pertencem à fé, porquanto são essas as coisas do Reino do Senhor; aqui, portanto, os novilhos, os carneiros e os cordeiros significam coisas semelhantes. Que os novilhos e os carneiros signifiquem as coisas espirituais, vê-se pelo sentido interno de cada expressão ali e, em geral, no fato que o Novo Templo e a Nova Jerusalém significam especificamente o Reino espiritual do Senhor; por Sião, porém, o Reino celeste. [6] Que o ‘carneiro’ signifique o espiritual, ou, o que é o mesmo, os que são espirituais, é o que se faz evidente também em Daniel: “Que por ele foi visto um carneiro, estando diante do rio, tendo dois chifres; depois um bode de cabras que o feriu, quebrou-lhe os chifres e o pisou” (8:3, 4 e seguintes); onde pelo ‘carneiro’ não se entende outra coisa senão a igreja espiritual, e pelo ‘bode das cabras’ os que estão na fé separada da caridade, ou no vero separado do bem, os quais se insurgem sucessivamente contra o bem e, finalmente, contra o Senhor, o que é também descrito. Em Samuel: “Samuel disse a Saul: E tem JEHOVAH tanto prazer nos holocaustos e sacrifícios como em que se escute da voz de JEHOVAH? Eis que escutar é mais o bem do que o sacrifício, e obedecer mais do que a gordura dos carneiros” (1Sm. 15:22); onde, porque se trata da obediência, assim se trata do vero que é espiritual, e essas palavras eram dirigidas ao Rei, pelo qual também é significado o vero (n. 1672, 2015, 2069), por isso não se diz “melhor do que a gordura dos bois”, mas “melhor que a gordura dos carneiros”. [7] Em Davi: “Quando saísse Israel do Egito, a casa de Jacó de um povo bárbaro, tornou-se Judá o seu santuário, Israel os seus domínios. O mar viu e fugiu, e o Jordão voltou-se para traz; os montes saltaram como carneiros, as colinas como filhas do rebanho. Que tiveste, ó mar, que fugiste? [e tu] ó Jordão, que te voltas para traz? Ó montes, que saltastes como carneiros, e colinas, como filhos do rebanho? Perante o Senhor, [tu] pares, ó terra! perante o Deus de Jacó, que converteu a rocha em lago de águas, e o seixo em Sua fonte de águas” (Salmo 114:1 até o fim). Trata-se aí, no sentido interno, do bem espiritual depois da regeneração, e ele é descrito tal qual é, o seu celeste espiritual pelos ‘montes que tinham saltado como carneiros’, e o celeste natural por isso, que ‘colinas saltaram como filhos do rebanho’. Que os montes sejam as coisas celestes que pertencem ao amor, foi visto (n. 795, 1430). Qualquer um pode saber que, nessas palavras, como em outras de Davi, há coisas santas, mas no sentido interno; e que alguma coisa santa é significada pelos montes que saltam como carneiros, pelas colinas que saltam como filhos do rebanho, e pela terra que pare perante o Senhor, palavras que, sem o sentido interno, são de realidade nulas. [8] O mesmo acontece com as palavras seguintes em Moisés: “Fê-lo cavalgar sobre lugares altos da terra, e o fez comer os produtos da terra, e o fez sugar o mel da rocha e o azeite do seixo do rochedo, a manteiga do gado, e o leite do rebanho, com a gordura dos cordeiros, e dos carneiros filhos de Bashan, e dos bodes com a gordura dos rins de trigo, e o sangue das uvas beberás o puro [vinho]” (Dt. 32:13, 14, 15). Os ‘carneiros filhos de Bashan’ são as coisas celestes espirituais; o que são as coisas celestes espirituais, foi visto (n. 1824). Em Davi: “Holocaustos medulosos oferecerei a Ti com o incenso dos carneiros, sacrificarei um boi com bodes” (Sl. 66:15); os ‘holocaustos medulosos’ estão pelas coisas celestes que pertencem ao amor, o ‘incenso dos carneiros’ está pelas coisas espirituais que pertencem à fé. [9] Em Ezequiel: “A Arábia e todos os príncipes de Kedar, esses negociantes da tua mão, em cordeiros, em carneiros e bodes” (27:21); onde se trata de Tiro, por qual são significados aqueles que estão nas cognições do bem e do vero (n. 1201); a ‘Arábia’ designa a sabedoria deles; ‘os príncipes de Kedar’, a inteligência dos mesmos; os ‘cordeiros’ significam as coisas celestes, os ‘carneiros’, as espirituais, os ‘bodes’, as naturais, coisas que se sucedem em ordem. Em Isaías: “Todos os rebanhos de Kedar serão reunidos para Ti, os carneiros de Nebaioth Te servirão, subirão com agrado ao meu Altar, e ornarei a casa do meu esplendor” (60:7); aí se trata do Divino Humano do Senhor; os ‘rebanhos de Kedar’ são os Divinos celestes, e ‘os carneiros de Nebaioth’, os Divinos espirituais. De tudo que precede, pode-se agora ver que o carneiro, no sentido interno, significa o Divino espiritual do Senhor e, por conseguinte, o espiritual no homem, ou, o que é a mesma coisa, os provenientes do gênero humano que são espirituais.