ac 2831

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Detrás, preso em um emaranhado’; que signifique entrelaçado no que pertence ao conhecimento natural, é o que se vê pela significação aqui de ‘estar preso’ que é estar entrelaçado; e pela significação do ‘emaranhado’, ou ‘mato denso’165 , que é o que pertence ao conhecimento, do que se tratará no que segue. Que os espirituais sejam retidos entrelaçados no que pertence ao conhecimento natural quanto aos veros da fé, eis o que acontece: Os espirituais não têm a percepção do bem e do vero como os celestes, mas no seu lugar eles têm a consciência, que é formada pelos bens e veros da fé que eles receberam, desde a infância, de seus pais e de seus professores, e, depois, pela doutrina da fé em que eles nasceram. Os que não têm a percepção do bem e do vero, estes não podem ser confirmados de outra forma senão pelas coisas do conhecimento. Cada um faz para si alguma ideia a respeito das coisas que aprende, mesmo dos bens e dos veros da fé; sem uma ideia não permanece nenhuma outra coisa na memória senão como que uma coisa vazia; as coisas que confirmam se aproximam e enchem a ideia de coisas provenientes de outras cognições, também pelas coisas do conhecimento; a própria ideia, confirmada por muitas coisas, faz com que não só ela fique gravada na memória e possa ser evocada daí no pensamento, mas também possa ser insinuada no homem como fé.
[2] Quanto ao que diz respeito à percepção em geral, como há poucos que saibam o que é a percepção, há de se dizer: Há a percepção do bem e do vero nas coisas celestes e espirituais, há a percepção do justo e do equitativo na vida civil e há a percepção do honesto na vida moral. Quanto ao que concerne à percepção do bem e do vero nas coisas celestes e espirituais, os anjos interiores a têm pelo Senhor; os homens da Igreja Antiquíssima a tiveram, e os [homens] celestes, que estão no amor ao Senhor, também a têm; eles sabem imediatamente, por uma certa advertência interna [ou atenção da alma], se tal coisa é um bem e se tal coisa é um vero, pois o Senhor insinua isto, porque estão conjuntos ao Senhor pelo amor. Mas os homens espirituais não possuem uma tal percepção do bem e do vero nas coisas celestes nem nas coisas espirituais, mas no lugar disso eles têm a consciência, que dita; mas a consciência, como foi dito, é formada a partir das cognições do bem e vero que eles receberam de seus pais e professores e, depois, por seu próprio estudo na doutrina e na Palavra. Por tais coisas agregam fé, muito embora não fossem, entretanto, nem bens nem veros. Daí vem que os homens podem ter a consciência a partir de uma doutrina qualquer. Os gentios também podem, por sua religiosidade, ter alguma coisa que não difere da consciência.
[3] Que os [homens] espirituais não tenham a percepção do bem e do vero da fé, mas digam e creiam que o que eles aprendem e compreendem é o vero, é o que se manifesta claramente no fato que todos eles dizem que o seu dogma é verdadeiro, os hereges mais ainda do que os outros; e eles não podem ver e menos ainda reconhecer o vero mesmo, ainda que mesmo mil coisas o proclamassem. Que cada um se examine: se pode perceber de outro lugar se é o vero ou se não quando algo muito verdadeiro lhe é manifestado, ainda que não reconheça; como por exemplo, o indivíduo que faz da fé o essencial da salvação, não o amor, ainda que se leia em sua presença tudo que o Senhor disse do amor e da caridade (ver n. 2373), e ainda que ele saiba, a partir da Palavra, que toda a Lei e todos os Profetas dependem do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, ele sempre permanecerá, ainda assim, na ideia da fé e dirá que só ela salva; mas é diferente com aqueles que estão na percepção celeste e espiritual.
[4] Mas, quanto ao que diz respeito à percepção do justo e do equitativo na vida civil, aqueles que, no mundo, são racionais a possuem, e também a percepção do honesto na vida moral. Quanto àquela e esta [dessas percepções], distingue-se de um homem para outro; mas esses mesmos [homens racionais] nunca têm por isso a percepção do bem e do vero da fé, porque essa percepção é superior, ou interior, e influi do Senhor pelo íntimo do racional.
[5] Há também uma causa por que os [homens] espirituais não têm a percepção do bem e do vero da fé, é que o bem e o vero são implantados não na parte voluntaria deles, como se dá com os homens celestes, mas na parte intelectual (ver n. 863, 875, 927, 1023, 1043, 1044, 2256); daí vem que os espirituais não possam chegar ao primeiro grau da luz em que estão os celestes (n. 2718), mas para eles há o relativamente obscuro (n. 1043, 1708, 2715); daí se segue que os espirituais estejam entrelaçados no que é do conhecimento natural quanto aos veros da fé.
[6] Que o ‘emaranhado’, ou ‘mato denso’, no sentido interno, signifique o que é do conhecimento natural, isto é, tal conhecimento que fica ligado à memória exterior, é o que se pode ver também por outras passagens na Palavra: Em Ezequiel:
“Eis que Asshur [era] um cedro no Líbano, de formosa fronde, e um bosque umbroso, e [de] elevada altura, e entre os [galhos] emaranhados estava seu ramo166” (31:3);
onde se trata do Egito, que é o conhecimento (n. 1164, 1165, 1186, 1462); ‘Asshur’ está no lugar do racional (n. 119, 1186), que também é designado, na Palavra, pelo ‘cedro’, assim como pelo ‘Líbano’; ‘entre os [galhos] emaranhados’ é entre as coisas do conhecimento; com efeito, o racional humano é fundado nas coisas que pertencem aos seus conhecimentos.
[7] No mesmo:
“Assim disse o Senhor JEHOVIH: Visto que és elevado em altura, e estendes o seu ramo entre os [galhos] emaranhados, e se tornou elevado o coração dele na sua altivez, cortá-lo-ão os estrangeiros, os [mais] violentos dentre as nações, e derrubá-lo-ão” (Ez. 31:10, 12);
trata-se do Egito; ‘estender o seu ramo entre os [galhos] emaranhados’ é ligar-se às coisas do conhecimento e daí considerar as coisas espirituais, as celestes e as Divinas. No mesmo:
“Para que não se elevem na sua altura todas as árvores das águas, e não estendam seu ramo entre os emaranhados, e não apoiem sobre eles, na sua altura, todos os que bebem as águas, porque todos eles estão entregues à morte, para a terra inferior no meio dos filhos do homem, para os que descem à cova” (31:14);
onde se trata daqueles que, por meio de raciocínios provenientes das coisas do conhecimento, querem entrar nos mistérios da fé. (Que estes sejam inteiramente cegos, vejam-se os n. 215, 232, 233, 1072, 1911, 2196, 2203, 2568, 2588.) Raciocinar a partir das coisas do conhecimento é “estender o ramo para dentro do emaranhado”. No mesmo:
“Havia para ela rebentos fortes para os cetros dos que dominam, e elevou-se a altura dela acima, entre os emaranhados” (19:11);
a mesma significação.
[8] No mesmo:
“Os trespassados de Israel em meio dos ídolos deles, ao redor dos altares deles, e sob toda árvore verde, e sob todo carvalho emaranhado” (6:13);
trata-se do culto que forjam para si os que têm fé em si próprios, assim, [do culto] para aqueles que não admitem as coisas que não provenham de seus conhecimentos; o ‘carvalho emaranhado’ é tomado pelas coisas do conhecimento em um tal estado; que os ‘carvalhos’ sejam as percepções provenientes das coisas do conhecimento, foi visto (n. 1442, 1443, 2144); é semelhante em outra passagem no mesmo:
“Viram toda colina alta, e toda árvore emaranhada, e sacrificavam ali seus sacrifícios” (20:28);
a ‘árvore emaranhada’ significa aquilo que a Palavra não dita, mas que o conhecimento próprio [dita]. Que o culto se fazia no bosque e que era significativo segundo a qualidade das árvores, foi visto (n. 2722).
[9] Em Isaías:
“Ande como fogo a malícia, devora a sarça e o espinheiro, e acenderá osemaranhados da floresta” (9:17 [Em JFA, 9:18]);
a ‘sarça’ e o ‘espinheiro’ são a falsidade e a cobiça, os ‘emaranhados da floresta’ são as coisas do conhecimento. No mesmo:
“JEHOVAH Zebaoth cortará os emaranhados da floresta com o ferro, e o Líbano pelo magnífico cairá” (10:34);
os ‘emaranhados da floresta’ são as coisas do conhecimento, o ‘Líbano’ são as coisas racionais. Em Jeremias:
“Levantai o estandarte para Sião, porque o mal Eu trago do norte e uma ruptura grande; subiu o leão do seu emaranhado, e o destruidor das nações tendo partido saiu do seu lugar, para pôr a tua terra em devastação, as tuas cidades serão destruídas, para que nenhum habitante [haja]” (4:6, 7);
‘de seu emaranhado’ é a partir do conhecimento [ex scientifico], do qual, quando sobe para os arcanos Divinos, põe a terra em devastação, isto é, devasta a igreja.
[10] Que as coisas do conhecimento, na Palavra, sejam chamadas ‘emaranhado’ [ou ‘matagal’], é porque elas são relativamente tais, principalmente quando aspiram as cobiças do amor de si e do mundo e os princípios do falso. O amor celeste e espiritual é o que dispõe em ordem as coisas do conhecimento, que pertencem à memória exterior, mas o amor de si e do mundo perverte a ordem e lança a perturbação em todas as coisas que estão nessa memória. O homem não nota isso porque põe a ordem na inversão [in perverso] da ordem, o mal no bem e o falso no vero; por isso essas coisas estão no matagal. Isso também vem do fato que essas coisas que pertencem à memória exterior, onde estão as coisas do conhecimento, em relação às que pertencem à memória interior, onde estão as coisas racionais, estejam no matagal, ou como em uma floresta obscura. O homem não pode saber, enquanto ele vive no corpo, quanto tudo nele é relativamente sombrio, obscuro e tenebroso, com efeito, ele então considera que toda a sabedoria e toda inteligência venham daí; mas fica sabendo, na outra vida, quando ele chega nas coisas que pertencem a memória interior, que na memória exterior, que é própria do homem quando ele vive no mundo, não há coisa alguma que pertença à luz da sabedoria e da inteligência, mas que há nessa memória o que é relativamente tenebroso, desordenado e confuso (ver do n. 2469 ao 2494).

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