ac 2967

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Do que passa entre mercadores’; que signifique aplicado ao estado deles, é o que se vê pela significação de ‘mercador’ e, daí, de ‘do que passa aos mercadores’. O ‘mercador’, na Palavra, significa aqueles que têm as cognições do bem e do vero; e a mercadoria significa essas cognições mesmas; daí ‘a prata que passa entre os mercadores’ significa o vero tanto quanto pode ser recebido, ou, o que é o mesmo, aplicado ao estado e à faculdade de cada um. Que essa adição envolva alguma coisa de oculto, qualquer um pode ver.
[2] Mais adiante se falará da significação do ‘mercador’ e da ‘mercadoria’; mas quanto ao que diz respeito a coisa mesma, eis o que sucede: Todos que são reformados e regenerados recebem do Senhor como dom a caridade e a fé, mas cada qual segundo a sua faculdade e o seu estado. Com efeito, há males e falsos, de que o homem se imbui desde a infância, os quais impedem que um possa receber um dom semelhante ao do outro; esses males e esses falsos devem ser vastados antes que o homem possa ser regenerado. Tanto quanto, depois da vastação, há resíduo da vida celeste e espiritual, outro tanto esses resíduos podem ser iluminados pelo vero e enriquecidos pelo bem. São essas as relíquias que são os bens e os veros escondidos no homem pelo Senhor e que recebem então a vida. Os bens e os veros são adquiridos desde a infância até o tempo da reforma, em um em maior quantidade, em outro em menor quantidade. Eles são reservados em seu homem interno, e não se podem produzir antes que seu homem externo tenha sido posto na correspondência, o que se faz sobretudo por meio das tentações e por muitas espécies de vastações. Porquanto, antes que fiquem em repouso as coisas corpóreas que são contrárias a esses bens e a esses veros, quais são as coisas que pertencem ao amor de si e ao amor do mundo, não podem influir as coisas celestes e as espirituais que pertencem à afeição do bem e do vero; é essa a razão pela qual cada um é reformado de conformidade com o seu estado e com a sua faculdade. É também o que o Senhor ensina na parábola do homem que peregrinou
“e chamou os próprios servos, e transferiu a eles suas riquezas, e a um deu cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, a cada um segundo [sua] própria faculdade. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e lucrou outros cinco talentos, do mesmo modo também aquele [que recebeu] os dois, esse também lucrou dois outros talentos” (Mt. 25:14, 15, 16, 17 e seguintes).
Então Ele também fala de dez servos, aos quais se deu dez minas para que com elas ‘negociassem’ (Lucas, 19:12, 13 e seguintes).
[3] Que ‘mercador’ signifique os que têm as cognições do bem e do vero, e a ‘mercadoria’ essas cognições mesmas, vê-se pelas passagens que acabam de ser referidas em Mateus e em Lucas, e, além disso, pelas seguintes, em Ezequiel:
“Digas a Tiro, habitante sobre as entradas do mar! Negociante dos povos até as muitas ilhas... Társis (era) tua mercadora pela multidão de todas as riquezas, em prata, em ferro, em estanho e chumbo forneceram os teus mercados. Javã, Tubal e Meseque, eles teus negociantes; com alma do homem, e com vasos de bronze, fizeram os teus comércios. [...] Os filhos de Dedan [eram] teus negociantes; as muitas ilhas, a mercadoria da tua mão. A Síria, tua mercadora na multidão das tuas obras. Judá e a terra de Israel, eles, os teus negociantes em trigo, minnith e pannag, e em mel, azeite e bálsamo fizeram o teu comércio. Damasco, tua mercadora na multidão das tuas obras, pela multidão de todas as riquezas, no vinho de Hesbon e lã de Zachar. E Dã e Javã deram ferro polido nos teus mercados. Dedan tua negociante em vestimentas de liberdade para o carro. E a Arabia e todos os principais de Kedar, eles [eram] os mercadores da tua mão, com cordeiros, carneiros e cabritos, nessas [coisas] eram teus mercadores. Os negociantes de Sheba e de Raamah [eram] eles teus negociantes no melhor de todo aroma. Haran e Channeh, e Éden, os negociantes de Sheba; Asshur, Kilmad, tuas negociantes. Estes teus negociantes em perfeições [...]” (27:3, 12–23);
essas coisas são ditas de Tiro, pela qual são significadas as cognições do bem e do vero, como se viu (n. 1201), e como é evidente em cada uma dessas coisas. Os negócios e as mercadorias, assim como as riquezas que ali são lembradas, não significam outra coisa; é por isso que Tiro é denominada habitante sobre as entradas do mar, porque as águas são as cognições e o mar é a reunião delas (n. 28). É assim que ela é chamada ‘negociante dos povos até muitas ilhas’, isto é, até aqueles que, mais afastados, estão no culto (n. 1158). Vê-se no n. 1156 o que é Társis; a prata, o ferro, o estanho e o chumbo que daí provinham são os veros em sua ordem até os últimos que são as coisas sensuais; o que significa a prata, n. 1551, 1048; o ferro, n. 425, 426; o que se entende por Javã, Thubal e Meseque, n. 1151, 1152, 1153, 1155. A ‘alma de homem’ e os ‘vasos de bronze’ que daí provêm são as coisas que pertencem à vida natural, porquanto a ‘alma do homem’ é toda a vida que procede do Senhor (n. 1000, 1040, 1436, 1742), e os ‘vasos de cobre’ [ou bronze] são os bens naturais que recebem essa vida (n. 425, 1551); o que se entende por Dedan (n. 1172) e pela Síria (n. 1232, 1234). ‘Judá e a terra de Israel, seus negociantes de trigo, de minnith e pannag, de mel, azeite, bálsamo’, significa as coisas celestes e espirituais provenientes da Palavra; as restantes nações e os seus comércios, que são lembrados nessa passagem, são gêneros e espécies do vero e do bem, por conseguinte, as cognições que possuíam os que são significados por Tiro.
[4] Que sejam as cognições, das quais provêm a sabedoria e a inteligência, é o que se vê claramente no mesmo Profeta nestes termos:
“Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: ...Na tua sabedoria, e na tua inteligência fizeste para ti riquezas, e fizeste ouro e prata nos teus tesouros; na multidão da tua sabedoria no teu negócio, multiplicaste as tuas riquezas, e se elevou o teu coração nas tuas riquezas; [...] Por isso, eis, trago sobre ti estrangeiros, os violentos das nações” (Ez. 28:2, 4, 5, 6, 7);
onde é bastante evidente que as mercadorias com as quais eles fizeram o negócio são as cognições do bem e do vero, porque a sabedoria e a inteligência não vêm de outra parte senão dessas cognições, por isso se diz: “Na tua sabedoria e na tua inteligência fizeste para ti riquezas, e amontoas ouro e prata em teus tesouros”. Mas quando as cognições são em vista de si mesmo para se pôr em evidência e para adquirir ou reputação ou riquezas, elas não têm vida, e os que agem assim ficam inteiramente privados dessas cognições, na vida do corpo abraçando os falsos pelos veros e os males pelos bens, e na outra vida eles são também privados inteiramente das cognições, que são veros; é por isso que se diz: “Porque o teu coração se elevou nas tuas riquezas, por isso, eis, trago sobre ti estrangeiros”, isto é, falsos, e “os violentos das nações”, isto é, os males.
[5] E nesta passagem no mesmo:
“Tiro [que foste] como cortada do meio do mar, quando [fazias] sair as tuas mercadorias dos mares, saciaste a muitos povos; pela multidão das tuas riquezas e dos teus comércios enriqueceste os reis da terra. Agora foste quebrada pelos mares, na profundidade das águas, teu comércio e toda a multidão no meio de ti caíram; os mercadores dentre os povos assobiam sobre ti” (Ez. 27:32, 33, 34, 36);
e em Isaías:
“Profecia sobre Tiro: Calam-se os habitantes da ilha; o mercador de Sidom, que atravessa o mar, encheram-te; e nas águas [muitas sementes] de Sior, messes do rio, [era] seu provento, e era a mercadoria das nações. [...] Quem aconselhou isto sobre Tiro coroando-se, cujos mercadores [são] príncipes?” (23:2, 3, 8);
onde se trata da vastação de Tiro.
[6] A respeito da Babilônia, fala-se do mesmo modo de negócios e de mercadorias, que são as cognições do bem adulteradas e as cognições do vero falsificadas. Em João:
“Babilônia pelo vinho do furor da sua escortação, deu de beber a todas as nações; e os reis da terra com ela escortaram, e os mercadores da terra pela abundância das suas delícias enriqueceram; os mercadores da terra chorarão e prantearão sobre ela, porque as mercadorias dele ninguém compra mais; mercadorias de ouro e de prata, e de pedra preciosa, e de pérola e de fino linho, e de púrpura, e de seda, e de escarlate, etc; os mercadores dessas coisas, que se enriqueceram por ela, de longe estarão, por causa do medo do seu tormento, chorando e pranteando” (Ap. 18:3, 11, 15);
que ‘Babilônia’ seja o culto cujos externos parecem santos, mas cujos internos são profanos, foi visto (n. 1182, 1283, 1295, 1304, 1306, 1326); aí se vê claramente quais são os seus negócios e suas mercadorias.
[7] Que o mercador designa aquele que adquire para si as cognições do vero e do bem e, por conseguinte, a inteligência e a sabedoria, é o que se vê pelas palavras do Senhor em Mateus:
“Semelhante é o reino dos céus a um homem comerciante, que procura belas pérolas, o qual, tendo achado uma preciosa pérola, se foi e vendeu tudo o que tinha, e comprou-a” (13:45, 46);
a ‘bela pérola’ é a caridade ou o bem da fé.
[8] Que todas as cognições do bem e do vero procedem do Senhor, vê-se em Isaías:
“Assim disse JEHOVAH: O trabalho do Egito e o negócio de Cush e dos sabeus, varões de medida, sobre ti passarão e de ti serão; atrás de ti irão, acorrentados passarão, e diante de ti se curvarão, a ti orarão; somente em ti [está] Deus, e além [não há] nenhum Deus” (45:14);
onde se trata do Divino Humano do Senhor.
[9] Sendo assim, pode-se ver agora o que é ‘fazer comércio’, ou ‘comprar e vender’, isto é, que é adquirir para si as cognições do bem e vero, e por meio delas, o bem mesmo. Que isso é dado somente pelo Senhor, vê-se no mesmo Profeta:
“Oh, todos [vós] que tendes sede, ide às águas, e [vós] que não tendes nenhuma prata, ide, comprai e comei; ide, pois, comprai, sem prata e sem preço, vinho e leite” (55:1, 2);
onde ‘comprar’ é adquirir para si; o ‘vinho’ é vero espiritual (n. 1071, 1798); o ‘leite’ é o bem espiritual (n. 2184); qualquer um pode ver que ‘ir para as águas’ não é ir para as águas, que ‘comprar’ não é comprar, que ‘prata’ não é prata, e que ‘vinho e leite’ não sejam vinho e leite, mas que todas essas coisas são coisas correspondentes no sentido interno; com efeito, é a Palavra Divina, e cada uma dessas expressões que provêm do mundo natural e das coisas sensuais do homem correspondem a coisas Divinas espirituais e celestes; é assim e não de outro modo que a Palavra é divinamente inspirada.

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