Texto
. ‘Que administrava todas as coisas que ele tinha’; que signifique os deveres [officia] do Homem Natural, é isso evidente pela significação de ‘administrar’, e precisamente pela de ‘administrar todas as coisas’, que é desempenhar os ofícios ou as funções. Que assim suceda com o homem natural em relação ao homem racional, ou, o que é o mesmo, que suceda com o homem externo em relação ao homem interno, assim como com um administrador em uma casa, foi visto (n. 1795). Todas as coisas que estão no homem se tem como com uma casa, isto é, como com uma família, nisto que há aquele que exerce a função de pai de família, e os que desempenham as dos servos. A mente racional mesma é a que dispõe todas as coisas assim como o pai de família, e que as põe em ordem por meio do influxo na mente natural, enquanto a mente natural é a que presta serviço e administra.
[2] Como a mente natural é distinta da mente racional e se acha em um grau abaixo dessa mente, e que ela age até por uma sorte de proprium, ela é chamada, relativamente, ‘servo mais velho da casa’ e ‘o que administra todas as coisas que nela estão’. Que a mente natural seja uma mente distinta da mente racional e se acha em um grau inferior, e que tenha uma sorte de proprium, é o que se pode ver pelas coisas que nela estão, e pelos seus ofícios. As coisas que nela estão são todas as coisas do conhecimento, assim, também todas as cognições de qualquer gênero que sejam; em uma palavra todas as coisas em geral e em particular pertencentes à memória exterior, ou corporal (n. 2471, 2480); a ela também pertence todo o imaginativo, que é um sensual mais interior no homem e está em vigor principalmente entre os meninos e na primeira idade da adolescência. Ela encerra ainda todas as afeições naturais que os homens têm em comum com os brutos animais; daí se vê claramente quais são os seus ofícios [ou deveres].
[3] Mas a mente racional é interior; as coisas cognitivas que nela estão não se mostram diante do homem, mas são, enquanto ele vive no corpo, imperceptíveis; a saber, são todas as coisas, em geral e em particular, que pertencem à memória interior, de que se tratou (n. 2470, 2471, 2472, 2473, 2474, 2489, 2490). Também todo cogitativo, que é o perceptivo do equitativo e justo, então, do vero e bem, é de sua alçada; também todas as afeições espirituais, que são propriamente humanas e pelas quais o homem é distinto dos brutos animais, são ainda de sua alçada. Essa mente influi por essas coisas na mente natural, e ela estimula as que lá estão, e as intui por uma sorte de vista, e assim julga e conclui. Que essas duas mentes sejam distintas, é o que se vê claramente por isto, que em muitos a mente natural domina sobre a mente racional, ou, o que é o mesmo, o homem externo sobre o interno; e que [a mente natural] somente não domina, mas serve, entre aqueles que estão no bem da caridade, isto é, aqueles que se deixam conduzir pelo Senhor.