Texto
. ‘O servo tomou dez camelos dos camelos do seu senhor, e foi’; que signifique as coisas gerais do conhecimento no Homem Natural, vê-se pela significação do ‘servo’ aqui, que é o Homem Natural, de que acima se tratou (n. 3019, 3020); pela significação de ‘dez’, que são as relíquias, que são os bens e veros escondidos no homem pelo Senhor (ver n. 468, 530, 560, 561, 660, 661, 1050, 1906, 2284), e quando ‘dez’ ou as relíquias se predicam do Senhor, são as coisas Divinas que o Senhor adquiriu por Si mesmo (n. 1738, 1906); e pela significação dos ‘camelos’, que são as coisas gerais do conhecimento, das quais, porque foram Divinas ou foram adquiridas pelo Senhor, se diz que tenham sido dez, depois, que eram dez camelos dos camelos de seu senhor. Que ‘tenha ido’ [isso] significa a iniciação por essas coisas do conhecimento, iniciação de que se trata neste capítulo.
[2] Trata-se do processo de conjunção do Vero com o Bem no Divino Racional do Senhor, primeiro do processo de iniciação (n. 3012, 3013); que este processo é descrito tal qual tenha sido na série; aqui, no fato que o Senhor, no Homem Natural, separou as coisas que procediam d’Ele mesmo, isto é, que eram Divinas, das que provinham do materno. As coisas que procediam d’Ele, ou que eram Divinas, são as pelas quais a iniciação foi feita, e são aqui os ‘dez camelos dos camelos de seu senhor’. Daí vem que na sequência se fala muitas vezes dos camelos, por exemplo, que fizera os camelos deitar sobre o joelho, fora da cidade (vers. 11); também que Rebeca deu de beber aos camelos (vers. 14, 19, 20); que eles foram conduzidos a casa e que se lhes deu palha e pasto, (vers. 31, 32), e mais, que Rebeca e as suas meninas montaram sobre camelos (vers. 61); que Isaque viu os camelos que vinham, e que Rebeca, quando viu Isaque, caiu de cima do camelo (vers. 63, 64). Que os camelos sejam tantas vezes mencionados, é por causa do sentido interno, no qual eles significam as coisas gerais do conhecimento que estão no homem natural, das quais provém a afeição do vero que deve ser iniciada à afeição do bem no racional; e isso, segundo uma via geral, como acima se mostrou, porquanto o racional, quanto ao vero, sem as coisas do conhecimento e as cognições, nunca pode nascer e ser aperfeiçoado.
[3] Que os camelos signifiquem as coisas gerais do conhecimento, vê-se por outras passagens da Palavra, onde eles são mencionados, como em Isaías:
“Profecia das bestas do sul: Na terra de angústia e de opressão, o jovem leão e o velho leão [vêm] dentre eles, a víbora e a serpente ardente voadora, levam sobre o ombro de jumentinhos as suas riquezas, e sobre o dorso dos camelos os seus tesouros, a um povo [a que] não são proveitosos. E os egípcios em vão e inutilmente auxiliarão; [...]” (30:6, 7);
as ‘bestas do sul’ estão pelos que estão na luz das cognições, ou estão nas cognições, mas na vida do mal; ‘levar sobre os ombros dos jumentinhos as suas riquezas’ está no lugar das cognições que pertencem ao racional deles; que o jumentinho seja o vero racional, foi visto (n. 2781); ‘sobre o dorso dos camelos os seus tesouros’ está pelas cognições que pertencem ao natural deles; o ‘dorso dos camelos’ é o natural, os ‘camelos’ mesmos designam as coisas gerais do conhecimento que ali estão; os ‘tesouros’ são as cognições que eles consideram como preciosas; que ‘os egípcios vã e inutilmente auxiliarão’, é que os conhecimentos não lhes serão de nenhum uso (que o Egito seja o conhecimento, ver n. 1164, 1165, 1186, 1452, 2588 no fim). Que os ‘camelos’ aqui não sejam camelos, é evidente, pois se diz que o jovem leão e o velho leão levam sobre as costas dos camelos os seus tesouros. Qualquer um pode ver que por essas palavras é significado algum arcano da igreja.
[4] No mesmo:
“Profecia do deserto do mar: Assim disse o Senhor: Vai, estabeleça uma sentinela que o que vir declarará: E viu um carro, um par de cavaleiros, um carro de jumento, um carro de camelo, e escutou a escuta; [...] respondeu e disse: Caiu, caiu, Babel” (Is. 21:6, 7, 9);
o ‘deserto do mar’ está pela vanidade dos conhecimentos que não são adquiridos por causa do uso; o ‘carro de jumento’ está pelo acúmulo de conhecimentos particulares; o ‘carro de camelo’ está pelo acúmulo de conhecimentos gerais, que estão no homem natural; são os raciocínios vãos, que estão com aqueles que são significados por Babel, tais raciocínios são assim descritos.
[5] No mesmo:
“Dilatar-se-á o teu coração, porque voltará a ti a multidão do mar, as riquezas das nações virão a ti; uma multidão de camelos cobrir-te-á, os dromedários de Midiã e Efa, todos eles virão de Sheba, ouro e incenso portarão, e os louvores de JEHOVAH evangelizarão” (Is. 60:5, 6);
onde se trata do Senhor e dos Divinos celestes e espirituais em Seu natural; a ‘multidão do mar’ está pela imensa abundância do vero natural; as ‘riquezas das nações’ pela imensa abundância do bem natural; a ‘multidão de camelos’ pela abundância de coisas gerais do conhecimento; o ‘ouro’ e o ‘incenso’ pelos bens e veros, que são os louvores de JEHOVAH; ‘de Sheba’ é o que provém dos celestes do amor e da fé (ver n. 113, 117, 1171). Quando a rainha de Sheba veio a Salomão em Jerusalém com muito grandes riquezas, com ‘camelos que levavam aromas e uma grande quantidade de ouro e de pedras preciosas’ (1Rs. 10:1, 2); ela representava a sabedoria e a inteligência, as quais se aproximaram do Senhor, que ali, no sentido interno, é Salomão; os ‘camelos que levavam os aromas, o ouro e as pedras preciosas’ são as coisas que pertencem à sabedoria e à inteligência no homem natural.
[6] Em Jeremias:
“Contra a Arábia e contra os reinos de Hazor, aos quais feriu Nabucodonosor, rei de Babel. ... levantai[-vos] e subi para a Arábia, e devastai os filhos do oriente; tomarão as suas tendas ... as cortinas deles, e todos os vasos deles, e os camelos deles levarão para si; [...] E serão os camelos deles para preza,... e dispersá-lo-ei a todo vento” (49:28, 29, 32);
aqui, a Arábia e os reinos de Hazor são tomados, no sentido oposto, pelos que estão nas cognições das coisas celestes e das espirituais sem terem por fim nenhum outro uso senão de ter a reputação de sábios e inteligentes para si para o mundo; os camelos que eles levarão, que serão para preza e dispersados a todo vento são no geral os conhecimentos e as cognições do bem e do vero que lhe são também retirados, na vida do corpo pelo fato de ele crerem em coisas contrárias, e na outra vida inteiramente.
[7] Em Zacarias:
“A praga, pela qual JEHOVAH ferirá a todos os povos que pelejarão contra Jerusalém; [...] Assim haverá a praga do cavalo, do mulo, do camelo, do jumento e de toda besta...” (14:12, 15);
a praga do cavalo, do mulo, do camelo, do jumento, é a privação dos intelectuais, que assim em ordem se sucedem desde os racionais até os naturais. (O que é cavalo, ver n. 2761, 2762; o que é o mulo, n. 2781; o que é o jumento, n. 2781.) Os ‘camelos’ são as coisas gerais do conhecimento, que pertencem ao homem natural. A peste no Egito que era “sobre o rebanho que estava no campo, sobre os cavalos, jumentos, camelos, sobre o gado e o rebanho” (Êx. 9:2, 3), significava coisas semelhantes.
[8] A partir disso se pode ver que pelos ‘camelos’, no sentido interno da Palavra, são significados os conhecimentos gerais, que pertencem ao homem natural. Os conhecimentos gerais são os que contêm em si muitos conhecimentos particulares, e estes compreendem os singulares e formam, no geral, o homem natural quanto à sua parte intelectual.