Texto
. ‘E [ela] tomou o vestido, e cobriu-se inteiramente’; que signifique as aparências do vero, é o que se vê pela significação do ‘vestido’ com que as noivas cobriam inteiramente a face quando, pela primeira vez, viam o noivo, o que são as aparências do vero. Com efeito, as noivas, entre os antigos, representavam as afeições do vero, e os noivos, as afeições do bem, ou, o que é o mesmo, elas representavam a igreja, que era chamada noiva em razão da afeição do vero; a afeição do bem, que precede do Senhor, era o noivo. Por isso, o Senhor mesmo é, aqui e ali na Palavra, chamado o Noivo. As noivas velavam a sua face quando se aproximavam pela primeira vez do noivo para que representassem as aparências do vero. As aparências do vero não são os veros em si, mas se apresentam como veros (do que se tratará abaixo). A afeição do vero, a não ser por meio das aparências do vero, não pode se aproximar da afeição do bem, nem antes se despojar das aparências senão quando ela foi conjungida, pois então ela se torna o vero do bem, e se torna o [vero] genuíno tanto quanto o bem é genuíno.
[2] O bem mesmo é santo porque ele é o Divino que procede do Senhor, e ele influi pela via ou a porta superior no homem; mas o vero não é originariamente santo, porque ele influi pela via ou porta inferior, e primeiro ele pertence ao homem natural; mas quando ele é elevado dali para o racional, ele é purificado por graus e ao primeiro aspecto da afeição do bem, ele é separado das coisas do conhecimento e reveste as aparências do vero, e assim se aproxima do bem, indicio de que ele é de tal origem, e que ele não poderia suportar o primeiro aspecto do Bem Divino antes de ter entrado no tálamo do noivo, isto é, de ter entrado no santuário do bem e de ter sido feita a conjunção, porque então o vero não considera mais o bem a partir das aparências ou por meio das aparências, mas sim é considerado pelo bem, sem elas.
[3] Contudo, deve-se saber que nunca com o homem, nem sequer com o anjo, há veros puros, isto é, sem aparências, todos eles são em geral e em particular aparências do vero, mas ainda assim são recebidos pelo Senhor como veros se há neles o bem. É somente no Senhor que há veros puros, porque eles são Divinos, pois o Senhor assim como é o Bem mesmo, assim é o Vero mesmo; mas vejam-se as coisas que foram ditas a respeito dos veros e de suas aparências, a saber: Que as coberturas e que os véus da Tenda tenham significado as aparências do vero, n. 2576; e que os veros com o homem sejam aparências imbuídas de falácias, n. 2053; que as coisas racionais do homem sejam aparências do vero, n. 2516, que os veros estejam nas aparências, n. 2196, 2203, 2209, 2242; que o Bem Divino influa nas aparências, e até nas falácias, n. 2554; que as aparências do vero sejam adaptadas pelo Senhor como se fossem veros, n. 1832; que na Palavra se tenha falado segundo as aparências, n. 1838.
[4] Ora, o que seriam as aparências, pode-se ver claramente pelas coisas que estão na Palavra, onde se falou segundo as aparências; mas há graus das aparências do vero. As aparências naturais do vero são na maioria falácias, mas quando elas estão com aqueles que estão no bem, então não devem ser chamadas falácias, mas sim aparências, e mesmo em algum relativo, veros, pois que o bem que há nelas, no qual está o Divino, faz com que haja nelas uma outra essência. Por sua vez, as aparências racionais do vero são mais e mais interiores; nestas aparências estão os céus, a saber, os anjos que estão nos céus (ver n. 2576).
[5] Para que se tenha alguma ideia do que são as aparências do vero, sejam como ilustração os exemplos seguintes:
(i.) O homem crê que ele é reformado e regenerado pelo vero da fé, mas é uma aparência, ele é reformado e regenerado pelo bem da fé, isto é, pela caridade para com o próximo e pelo amor ao Senhor.
(ii.) O homem crê que o vero dá a perceber o que é o bem, visto que ele ensina, mas é uma aparência, é o bem que dá ao vero o perceber, pois o bem é a alma, ou a vida, do vero.
(iii.) O homem crê que o vero introduz ao bem quando ele vive segundo o vero que aprendeu, mas é o bem que influi no vero e introduz para si esse vero.
(iv.) Parece ao homem que o vero aperfeiçoa o bem, quando, todavia, é o bem que aperfeiçoa o vero.
(v.) Os bens da vida parecem ao homem como sendo os frutos da fé, mas são os frutos da caridade.
Por esses poucos exemplos se pode saber, de algum modo, o que são as aparências do vero; essas aparências são inúmeras.