Texto
. ‘E chamava o nome dele Jacó’; que signifique a doutrina do vero do natural, é o que se vê pela significação de ‘chamar o nome’ ou ‘chamar pelo nome’, que é a qualidade, de que acima se tratou (n. 3302). A qualidade, que por ‘Jacó’ é representada, é a doutrina do vero do natural, como se pode ver pela representação de ‘Esaú’, que é o bem da vida do vero do natural (n. 3300), e por um grande número de passagens na Palavra, onde ele é mencionado. Há, com efeito, duas coisas que constituem o natural, assim como há duas que constituem o racional, e mesmo [que constituem] todo o homem; uma que pertence à vida, outra que pertence à doutrina; a que à vida pertence à vontade, a que à doutrina pertence ao entendimento; aquela é denominada bem, esta é denominada vero; aquela é o bem que é representado por Esaú, mas o vero, por Jacó, ou, o que é o mesmo, o bem da vida do vero natural é o que é representado por Esaú, e a doutrina do vero do natural é a que é representada por Jacó. Quer se diga o bem da vida do vero do natural e a doutrina do vero do natural, quer se diga aqueles que neles estão, é a mesma coisa, porquanto o bem da vida e doutrina do vero não pode existir sem o seu sujeito. Se está sem o seu sujeito é alguma coisa abstrata, que ainda assim diz respeito ao homem no qual esse bem e doutrina está; razão por que, aqui, por ‘Jacó’ são significados aqueles que estão na doutrina do vero do natural.
[2] Aqueles que permanecem somente no sentido da letra creem que por ‘Jacó’, na Palavra, se entende todo esse povo que veio de Jacó, e em consequência disso eles atribuem a esse povo todas essas coisas que histórica e profeticamente são ditas a respeito de Jacó. Mas a Palavra é Divina principalmente nisto, que todas as coisas, em geral em particular, que nela estão não dizem respeito a uma única nação ou a um só povo, mas a todo o gênero humano, a saber, que é, que foi e que será; e mais universalmente ainda, a saber, ao Reino do Senhor nos céus; e, no sentido supremo, ao Senhor mesmo. Como é assim, a Palavra é Divina; se ela se referisse somente a uma nação, então seria humana, e nada conteria mais do Divino do que havia com essa nação santidade do culto. Que não houve uma tal santidade com o povo que é chamado Jacó, qualquer um pode saber. Daí é também evidente que por Jacó, na Palavra, não se entende Jacó; depois, que por Israel não se entende Israel, pois quase em toda a parte nos proféticos, onde se fala de Jacó, Israel é também nomeado, e ninguém pode saber o que se entende especificamente por um e o que se entende especificamente pelo outro, a não ser por um sentido que está mais elevadamente oculto e que esconde em si os arcanos do céu.
[3] Que, portanto, por Jacó, no sentido interno, seja significada a Doutrina do vero do natural, ou, o que é o mesmo, aqueles que estão nessa Doutrina, seja qual for a sua nação, e que por ele, no sentido supremo, se entende o Senhor, pode-se ver por estas passagens: Em Lucas:
“O Anjo disse a Maria: Conceberás no útero e parirás um filho, e chamarás o nome dele Jesus: este será grande, e Filho do Altíssimo será chamado; e dar-lhe-á o Senhor Deus o trono de Davi, seu pai, de modo que reinará sobre a casa de Jacó nos séculos e o Reino d’Ele não terá fim” (1:31, 32, 33);
que aqui pela ‘casa de Jacó’ não se entende a nação ou o povo judeu, qualquer um vê, visto que o Reino do Senhor foi não sobre esse povo, mas sobre todos os povos no universo que estão na fé n’Ele, e a partir da fé, na caridade. Daí se vê que por ‘Jacó’, nomeado pelo Anjo, não se entende o povo de Jacó, nem, consequentemente, em outras passagens, pela ‘semente de Jacó’, pelos ‘nascidos de Jacó’, pela ‘terra de Jacó’, pela ‘herança de Jacó’, pelo ‘rei de Jacó’, pelo ‘Deus de Jacó’, expressões que se leem tantas vezes na Palavra do Antigo Testamento.
[4] Acontece coisa semelhante com ‘Israel’, por exemplo, em Mateus:
“Um Anjo do Senhor apareceu em sonho a José, dizendo: [Quando] te acordares, toma o Menino e a mãe d’Ele e foge para o Egito. Para que se cumprisse o que fora dito pelo Profeta, dizendo: Do Egito chamei meu filho” (2:13, 14, 15);
no Profeta se diz assim:
“Quando Israel [era] menino, então amei-o, e do Egito chamei o meu filho” (Oseias, 11:1);
que Israel aqui é o Senhor, é manifestamente evidente; e, todavia, pelo sentido da letra, não é possível saber outra coisa, senão que ‘Israel menino’ sejam os primeiros pósteros de Jacó que vieram ao Egito e, em seguida, foram de lá chamados. Coisa semelhante acontece em outras passagens, onde Jacó e Israel são nomeados, embora isso não se mostre pelo sentido da letra; por exemplo, em Isaías:
“Ouve, ó Jacó, Meu servo, e [tu], ó Israel, a quem escolhi: Assim disse JEHOVAH, o teu feitor e o teu formador desde o útero: [Ele] te ajuda, não temas, Meu servo Jacó, e Jeshurum, a quem escolhi, porque derramarei águas sobre o sedento, e rios sobre a [terra] seca; derramarei o Meu espírito sobre a tua semente, e a Minha bênção sobre os teus nascidos; ... Este dirá: Eu [sou] de JEHOVAH; e este se chamará do nome de Jacó, e aquele escreverá com a sua mão a JEHOVAH, e pelo nome de Israel cognominar-se-á” (44:1–3, 5);
onde manifestamente ‘Jacó’ e ‘Israel’ estão no lugar do Senhor, a ‘semente e os nascidos de Jacó’ estão por aqueles que estão na fé n’Ele.
[5] No Profético a respeito dos filhos de Israel em Moisés:
“José se assentará na firmeza do seu arco, fortificar-se-ão os braços das mãos dele pelas mãos do Forte de Jacó; daí [ele será] o pastor da Pedra de Israel” (Gn. 49:24);
ali, o ‘Forte de Jacó’ e a ‘Pedra de Israel’ também estão manifestamente no lugar do Senhor. Em Isaías:
“A Minha glória não darei a outro; atenta para Mim, ó Jacó! E [tu], ó Israel, chama por Mim! Eu, o mesmo; Eu o primeiro, Eu também o novíssimo” (48:11, 12);
também aí, Jacó e Israel é o Senhor. Em Ezequiel:
“Tomarei a madeira de José, que [está] na mão de Efraim, e das tribos de Israel os companheiros deles, e ajuntá-los-ei sobre ele com a madeira de Judá, e fá-los-ei em uma só madeira, para que sejam um na minha mão. Eu tomarei os filhos de Israel dentre as nações para as quais foram, e reuni-los-ei dos arredores, e levá-los-ei sobre sua terra, e fá-los-ei em uma só nação na terra, nos montes de Israel, e um Rei haverá para todos eles como Rei, e não serão mais duas nações, e não serão mais divididos em dois reinos de novo. O Meu servo Davi [será] Rei sobre eles, e um único pastor haverá para todos eles; então habitarão sobre a terra que dei ao Meu servo Jacó, na qual habitaram os vossos pais; habitarão sobre ela, eles e os filhos deles, e os filhos dos filhos deles, até a eternidade; Davi, Meu servo [será] o príncipe deles pela eternidade; firmarei com eles uma aliança de paz, uma aliança de eternidade haverá com eles; dá-los-ei, e multiplicá-los-ei, e porei o Meu santuário no meio deles eternamente: Assim estará o Meu habitáculo com eles, e ser-lhes-ei por Deus, e eles serão a Mim por povo, para que as nações conheçam que Eu, JEHOVAH, santifico a Israel, quando estiver o Meu santuário no meio deles pela eternidade” (37:19, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 28).
Aqui de novo é manifestamente evidente que por ‘José’, ‘Efraim’, ‘Judá’, ‘Israel’, ‘Jacó’ e por ‘Davi’, não se entendem tais personagens, mas por eles, no sentido supremo, entendem-se os Divinos Espirituais que estão no Senhor, e que pertencem ao Senhor em Seu Reino e em Sua igreja. Que Davi não será esse rei nem esse príncipe pela eternidade, como é dito, qualquer um pode saber, mas que por Davi se entende o Senhor (n. 1888); pode-se também saber que Israel não será reunido dos lugares em que ele foi dispersado, que os judeus não serão santificados e o santuário não será posto no meio deles pela eternidade, como foi dito, mas que isso se refere aos que são significados no sentido representativo por ‘Israel’; que estes sejam todos os fiéis, é sabido.
[6] Em Miqueias:
“Ajuntando ajuntarei Jacó, todo inteiro, a ti, reunindo reunirei os remanescentes de Israel200, e pô-lo-ei juntamente como as ovelhas de Bozra” (2:12);
semelhantemente. Em Isaías:
“Aos que vierem Jacó [fará] enraizar, Israel florescerá e brotará201, e serão cheias de produto as faces do globo” (27:6);
também de forma semelhante. No mesmo:
“Assim disse JEHOVAH, Que redimiu Abrahão, à casa de Jacó: Jacó já não se envergonhará, e as faces dele já não empalidecerão, porque vendo ele os seus nascidos, obra das Minhas mãos, no meio dele santificarão o Meu nome, e santificarão o Santo de Jacó, e ao Deus de Israel temerão, e os errantes de espírito conhecerão a inteligência” (Is. 29:22, 23, 24).
No mesmo:
“Assim disse JEHOVAH ao Seu Ungido, a Ciro, de quem segurei a [mão] direita, para sujeitar diante dele as nações; e aos lombos dos reis soltareis; para abrir diante dele as portas, e os portões não se fecharão. Eu irei diante de ti, e o tortuoso endireitarei, as portas de bronze quebrarei, e os ferrolhos de ferro romperei; dar-te-ei os tesouros dos esconderijos, e as riquezas ocultas dos lugares secretos, para que conheças que Eu [sou] JEHOVAH, Que sou chamado do teu nome, o Deus de Israel, por causa do Meu servo Jacó, e de Israel Meu eleito; chamei-te do teu nome, cognominei a ti quando ainda não Me conhecias” (Is. 45:1, 2, 3, 4);
onde também manifestamente se trata do Senhor. Em Miqueias:
“Na extremidade dos dias, será a montanha da casa de JEHOVAH constituída na cabeça das montanhas; irão muitas nações, e dirão: Ide, e subamos à montanha de JEHOVAH, e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine a respeito dos Seus caminhos, e iremos na vereda d’Ele, pois de Sião sairá a doutrina, e a palavra de JEHOVAH de Jerusalém” (4:1, 2).
Em Davi:
“JEHOVAH ama os portões de Sião mais do que todos os habitáculos de Jacó; [coisas] gloriosas serão proclamadas em ti Cidade de Deus” (Salmo 87:1, 2, 3).
Em Jeremias:
“Servirão a JEHOVAH, seu Deus, e a Davi, seu Rei, que lhes suscitarei; e tu não temas, meu servo Jacó, e não [te] atemorizes, Israel, porque eis que Eu te conservo de longe” (30:9, 10).
Em Isaías:
“Atentai, ilhas, a mim, e escutai, povos de longe: JEHOVAH me chamou desde o útero, das vísceras da minha mãe lembrou-Se do meu nome, ...e disse-me: Tu [és] Meu servo, Israel, em quem [Me] tornarei glorioso” (49:1, 3).
No mesmo:
“Então [te] deliciarás em JEHOVAH, e arrebatar-te-ei às elevações da terra, e alimentar-te-ei da herança de Jacó” (Is. 58:14).
No mesmo:
“Produzirei de Jacó uma semente, e de Judá um herdeiro das Minhas montanhas, para que a possuam os Meus eleitos, e os Meus servos habitem ali” (Is. 65:9).
[7] Em todas essas passagens, por ‘Jacó’ e ‘Israel’, no sentido supremo, se entende o Senhor, e, no sentido representativo, o Reino espiritual do Senhor, e a igreja, que é a igreja pela doutrina do vero e a vida do bem; por ‘Jacó’ entendem-se aqueles que estão nos externos dessa igreja, e por ‘Israel’, os que estão nos internos. A partir dessas passagens e de várias outras, pode-se ver que por ‘Jacó’ não se entende, em parte alguma, Jacó; nem por Israel, Israel; do mesmo modo, nem por Isaque se entende Isaque, nem por Abrahão, Abrahão, onde eles são mencionados, como em Mateus:
“Muitos virão do oriente e do ocidente, e se assentarão com Abrahão, e Isaque e Jacó no reino dos céus” (8:11);
em Lucas:
“Vereis Abrahão, Isaque e Jacó, e todos os profetas no Reino de Deus” (13:28).
E no mesmo:
“Lázaro foi levado pelos Anjos ao seio de Abrahão” (16:22).
Com efeito, no céu não se conhece Abrahão, nem Isaque, nem Jacó; e por estas palavras, quando são lidas pelo homem, os que ali estão não percebem senão o Senhor quanto ao Divino e quanto ao Divino Humano; e quando se lê assentar-se com Abrahão, Isaque e Jacó, não percebem senão estar com o Senhor; e estar no seio de Abrahão, é estar no Senhor; mas isso foi assim dito, porque o homem, nessa época, se achava tão afastado dos internos, que não sabia outra coisa e não queria saber outra coisa, senão que tudo na Palavra se tem conforme a letra, e que quando, de acordo com a letra, o Senhor falava com aqueles [homens], eles recebiam a fé, e também que então havia nelas também um sentido interno por meio do qual se operava a conjunção do homem com o Senhor. Como assim acontece, pode-se ver o que é significado na Palavra do Antigo Testamento pelo ‘Deus de Jacó’ e pelo ‘Santo de Israel’, que, a saber, é o Senhor mesmo: que o ‘Deus de Jacó’ seja o Senhor, vê-se em 2Sm. 23:1; Is. 2:3; 41:21; Mq. 4:2; Sl. 20:1; 46:7; 75:9; 76:6; 81:1, 4; 84:8; 94:7; 114:7; 132:2; 146:5. Que o ‘Santo de Israel’ seja o Senhor, Is. 1:4; 5:19, 24; 10:20; 12:6; 17:7; 29:19; 30:11, 12, 15; 31:1; 37:23; 41:14, 16, 20; 43:3, 14; 45:11; 47:4; 48:17; 49:7; 54:5; 55:5; 60:9, 14; Jr. 50:29; Ez. 39:7; Sl. 71:22; 78:41; 89:18.