ac 3318

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E ele [estava] cansado’; que signifique o estado de combate, pode-se ver pela significação de ‘cansado’ ou do ‘cansaço’ [ou fadiga], que é o estado depois do combate; aqui, o estado de combate, porque se trata do estado de conjunção do bem com o vero no homem natural Que ‘cansado’, aqui, signifique o estado de combate, não se pode ver senão pela série das coisas no sentido interno, e, daí, sobretudo, que o bem não pode ser conjungido com o vero no homem natural sem combates, ou, o que é mesmo, sem tentações. Para que se saiba o modo como isso acontece, mas no homem, serão ditas umas poucas palavras.
[2] O homem não é outra coisa senão um órgão ou um vaso que recebe a vida procedente do Senhor, visto que o homem não vive por si mesmo (n. 290, 2021, 2536, 2706, 1954, 2886 a 2889, 3001); a vida, que influi no homem desde o Senhor, provém do Divino Amor do Senhor; esse amor, ou a vida que daí procede, influi e se aplica nos vasos que estão no racional, e as coisas que estão no natural do homem. Esses vasos no homem estão em uma posição contrária, relativamente à vida, por causa do mal hereditário em que nasce o homem e do mal ativo que ele próprio adquiriu para si. Mas quanto mais a vida, que influi, pode dispor os vasos para que se receba, tanto mais ela dispõe. Esses vasos, no homem racional e no natural dele, são essas coisas que são chamadas veros e que, em si mesmas, não são senão as percepções das variações da forma desses vasos, e mudanças de estado segundo as quais existem de diferentes modos as variações, que se operam em substâncias sutilíssimas por modos inexprimíveis (n. 2487). O bem mesmo, em que está a vida procedente do Senhor, ou que é a vida, é o que influi e dispõe.
[3] Quando, portanto, esses vasos, que devem ser variados quanto às formas, estão em uma posição e lado contrários em relação à vida, como foi dito, pode-se ver que eles devem ser redirecionados a uma posição em conformidade com a vida, ou seja, sob a obediência da vida. Isso não pode de forma alguma ser feito enquanto o homem estiver nesse estado em que nasceu e ao qual ele próprio se reduziu, porquanto esses vasos não obedecem, porque resistem com teimosia e se obstinam contra a ordem celeste segundo a qual a vida opera, se estão em oposição. Com efeito, o bem que os move e ao qual eles obedecem, pertencem ao amor de si e do mundo; e esse bem, desse calor grosseiro que está nele faz com que esses vasos sejam tais. É por essa razão que, antes de se tornarem obsequiosos e de poderem ser idôneos [ou convenientemente adequados] a receber alguma coisa da vida do amor do Senhor, cumpre que sejam amolecidos [ou abrandados]. Esse amolecimento [ou abrandamento] não acontece por outros meios que não sejam por tentações, porquanto as tentações retiram as coisas que pertencem ao amor de si e as que se referem ao desprezo pelos outros em relação a si, consequentemente, as coisas que pertencem à glória de si, depois, as que dizem respeito aos ódios e às vinganças em razão dessa glória. Quando, portanto, essas coisas foram temperadas e subjugadas o bastante por meio das tentações, então esses vasos começam a se tornar cedentes e obedientes à vida do amor do Senhor, que influi continuamente no homem.
[4] Daí agora vem que o bem, primeiro no homem racional, e em seguida no homem natural, começa a ser conjungido aos veros, pois os veros, como foi dito, não são outra coisa senão percepções das variações das formas segundo os estados que são continuamente mudados; e as percepções provêm da vida que influi. Daí a causa de que o homem, por meio das tentações, ou, o que é o mesmo, por meio dos combates espirituais, é regenerado, isto é, torna-se novo, e que, depois, ele é dotado de uma outra índole, a saber, que se torne manso, humilde, simples e contrito de coração. A partir dessas explicações, pode-se ver a que uso as tenções se prestam, a saber, este, que o bem procedente do Senhor pode não só influir, mas também dispor os vasos à obediência e, assim, conjungir-se com eles. (Que os veros sejam os vasos recipientes do bem, foi visto, n. 1496, 1832, 1900, 2063, 2261, 2269.) Aqui, pois, como se trata da conjunção do bem e do vero no homem natural, e que o primeiro da conjunção existe por meio de combates, que são os das tentações, pode-se ver que por estas palavras, ‘ele estava cansado’ é significado o estado de combate.
[5] Quanto ao que diz respeito ao Senhor, de Quem se trata aqui no sentido supremo, Ele mesmo, por meio dos combates mais graves da tentações, repôs todas as coisas n’Ele na Ordem Divina, ao ponto que nada restou do humano que Ele trouxera da mãe (n. 1444, 1573, 2156, 2574, 2649, 3036), assim, de sorte que Ele foi feito novo não como um outro homem, mas inteiramente Divino, visto que o homem que se torna novo pela regeneração ainda retém em si a inclinação para o mal, e mesmo o próprio mal, mas é mantido afastado do mal por meio do influxo da vida do amor do Senhor, e isso por uma força extremamente poderosa [vi admodum forti]. O Senhor, porém, rejeitou inteiramente todo o mal, que n’Ele era o hereditário procedente da mãe, e Se fez Divino também quanto aos vasos, isto é, quanto aos veros; é isso que na Palavra se chama ‘Glorificação’.

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