. ‘Porque temeu dizer: [É] minha mulher: talvez os varões do lugar me matem por causa de Rebeca’; que signifique que não pôde abrir os Divinos Veros mesmos, assim, o Divino Bem não seria recebido, é o que se vê pela significação de ‘temer dizer’, que é não poder abrir; pela significação da ‘mulher’, aqui Rebeca, que é o Divino do Senhor quanto ao Divino Vero (n. 3012, 3013, 3077); pela significação de ‘me matar’, que é a não recepção do bem, visto que por ‘Isaque’, que é aqui ‘Me’, é representado o Divino Bem do Racional do Senhor (n. 3012, 3194, 3210). Com efeito, diz-se então do bem ‘estar morto’ ou ‘perecer’, quando ele não é recebido, pois se torna nulo no homem. E [também se vê] pela significação dos ‘varões do lugar’, que são aqueles que estão nos doutrinais da fé, do que se tratou acima (n. 3385). Agora, a partir dessas explicações, e evidente qual é o sentido interno dessas palavras, a saber, que se os Divinos Veros mesmos fossem abertos, eles não seriam recebidos por aqueles que estão nos doutrinais da fé, porque excedem toda a compreensão racional deles, portanto, excedem toda a fé deles e, consequentemente, nada do bem poderia influir do Senhor, porque o Bem que procede do Senhor, ou o Bem Divino, não pode influir senão nos veros, visto que os veros são os vasos do bem, como se demonstrou tantas vezes. [2] Os veros ou as aparências do vero são dados ao homem para que o Divino Bem possa formar o intelectual dele, assim, formar o homem mesmo, pois é por causa desse fim, que o bem possa influir, que há veros. Com efeito, o bem sem os vasos, ou os receptáculos, não encontra lugar, porque não acha estado que lhe corresponda; é por isso que onde não há veros, ou onde os veros não foram recebidos, ali não há bem racional, ou humano, consequentemente, o homem não tem vida espiritual. Para que entretanto o homem tenha os veros e, daí, uma vida espiritual, são dadas a ele aparências do vero, e de fato a cada um segundo a sua compreensão. Essas aparências são reconhecidas como veros por serem tais que os Divinos podem estar nelas. [3] Para que se saiba o que são as aparências, e que são as que servem como Veros Divinos para o homem, sejam os exemplos como ilustração: Se fosse dito que no céu não há ideia alguma de lugar, portanto, nenhuma ideia de distâncias, mas que no lugar dessas ideias há ideias de estado, o homem não poderia compreender isso de modo algum, porquanto acreditaria assim que nada seria distinto, mas que tudo seria confuso, a saber, todos estariam em um só ou juntamente, quando todavia ali todas as coisas são tão distintas, que jamais pode haver coisa mais distinta. Que os lugares, as distâncias e os espaços, que estão na natureza, sejam estados no céu, foi visto (n. 3356); daí é evidente que todas as coisas que, na Palavra, são ainda assim ditas a respeito dos lugares e dos espaços, tanto vindo deles como por meio deles, são aparências do vero, e a não ser que fossem ditas por meio dessas aparências, nunca seriam recebidas; por consequência, dificilmente haveria alguma recepção, pois a ideia do espaço e do tempo está em quase todas e cada uma das coisas do pensamento no homem enquanto ele está no mundo, isto é, no espaço e no tempo. [4] Que se fale segundo as aparências do espaço na Palavra, vê-se quase em todas e cada uma das coisas ali, como em Mateus: “Disse Jesus: Como disse Davi: [Disse] o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à Minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (22:44); onde ‘assentar-se à direita’ vem da ideia de lugar, assim, segundo a aparência, quando todavia é o estado do poder Divino do Senhor que é assim descrito. No mesmo: “Jesus disse: De agora em diante vereis o Filho do homem assentado à direita do poder, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt. 26:64); aqui semelhantemente ‘assentar-se à direita’, bem como ‘vir sobre as nuvens’, provêm da ideia de lugar para os homens, mas para os anjos vêm da ideia do poder do Senhor. Em Marcos: “Os filhos de Zebedeu disseram a Jesus: Concede-nos que um à Tua direita, e outro à Tua esquerda nos assentemos na Tua glória. Jesus respondeu: Assentar-se à Minha direita e à Minha esquerda não Me pertence dar, mas àqueles a quem isso foi preparado” (10:37, 40); daí é evidente que ideia os discípulos tiveram a respeito do Reino do Senhor, a saber, que fosse se assentar à direita e à esquerda; e como tal era a ideia deles, também o Senhor respondeu conforme a compreensão deles, assim, segundo o que lhes parecia. [5] Em Davi: “Este [é] como o noivo saindo do seu quarto nupcial, regozija-se como um herói ao correr o caminho; de um extremo dos céus [é] a saída d’Ele, e a volta d’Ele até os extremos deles” (Sl. 19:6, 7 [Em JFA, 5, 6]); aí se trata do Senhor, cujo estado de Divino poder é descrito por meio de expressões que dizem respeito ao espaço. Em Isaías: “Como caíste do céu, Lúcifer, filho da aurora? Disseste no teu coração: Aos céus subirei, acima das estrelas do céu elevareio meu trono, subirei acima das excelsas nuvens” (14:12, 13, 14); ‘cair do céu’, ‘subir aos céus’, ‘elevar seu trono acima das estrelas do céu’, ‘subir acima das excelsas nuvens’, são todas expressões oriundas da ideia e da aparência do espaço ou do lugar, pelas quais se descreve o amor de si profanando as coisas santas. Como as coisas celestes e as espirituais se apresentam diante do homem por semelhantes coisas, por isso o céu é também descrito como se estivesse no alto, quando, todavia, ele não está no alto, mas no interno (n. 450, 1380, 2148).