Texto
. ‘Na verdade, eis que ela [é] tua mulher; e como disseste, ela [é] minha irmã?’; que signifique ‘se é o Divino Vero, não seria também o [vero] racional?’, é o que se vê pela significação da ‘mulher’, que é aqui ‘Rebeca’, que é o Divino Vero do Divino Racional do Senhor (n. 3012, 3013, 3077); e pela representação da ‘irmã’, que é o vero racional (n. 3086); assim, ‘eis que ela [é] tua mulher’; e como disseste, ela [é] minha irmã?’ significa ‘como é o Divino Vero, não pode ser o racional?’
[2] Com esse arcano, assim acontece: Os espirituais, porque não têm a percepção como os celestes, não sabem que o Divino Vero se torna racional vero no homem quando este foi regenerado. De fato eles dizem que todo bem e todo vero procedem do Senhor, mas quando entretanto o bem e o vero existem no racional deles, afirmam, apesar disso, que o bem e vero lhes pertence, assim, quase afirmam que procede deles, porquanto eles não podem ser separados do proprium, que quer isso; quando, todavia, com os celestes a coisa acontece assim: que eles percebem o Divino Bem e o Divino Vero no racional, isto é, nas coisas racionais que, iluminadas pelo Divino do Senhor, são aparências do vero (n. 3368), e até no natural, isto é, nos conhecimentos e nas coisas dos sentidos; e porque os celestes estão em tal estado, eles podem reconhecer que todo bem e vero influi do Senhor, assim como que é o perceptivo do bem e do vero que lhes é comunicado e apropriado pelo Senhor e faz o seu prazer, a sua bem-aventurança e felicidade. Vinha daí que os antiquíssimos, que foram homens celestes, em cada um dos objetos que viam com os olhos219, não percebiam senão coisas celestes e espirituais (n. 1409).
[3] Como se trata aqui do homem espiritual regenerado, que recebeu do Senhor, por meio da regeneração, o Divino Bem em uma nova vontade e o Divino Vero em um novo entendimento, e como esses regenerados não estão em outra percepção, senão que se uma coisa fosse racional, ela não poderia ser Divina, como dito acima, portanto, que se ela fosse Divina ela nada teria de comum com o racional, por isso se diz aqui, ‘se é o Divino Vero, não é também o racional?’; este é também o motivo por que eles querem que essas coisas que pertencem à fé sejam cridas com simplicidade, sem intuição alguma pelo racional, não sabendo que nunca alguma coisa da fé, nem sequer a coisa mais secreta dela, é compreendida por algum homem sem alguma ideia racional, e também natural, mas qual, ele não conhece (n. 3310 no fim). Por meio disso eles podem de fato se defender contra aqueles que raciocinam a respeito de todas e cada uma das coisas a partir do negativo para saber se assim é (n. 2568, 2588); mas em relação aos que estão no afirmativo a respeito da Palavra, a saber, que é preciso crer, uma tal posição é danosa, porquanto assim podem retirar a cada um o livre de pensar, e até prender a consciência ao que há de mais herético, dominando assim sobre os internos e os externos do homem. São essas e aquelas coisas que são significadas por isso, que Abimeleque disse a Isaque: “Eis que ela [é] tua mulher; e como disseste: ela [é] minha?”