Texto
. ‘Por pouco um do povo se deitaria com tua mulher, e terias trazido culpa sobre nós’; que signifique que [o Divino Vero] poderia ter sido adulterado e, assim, profanado, é o que se vê pela significação de ‘deitar-se’, que é ser pervertido ou adulterado; pela significação de ‘um do povo’, que é alguém da igreja, a saber, da igreja espiritual (n. 2928); pela significação da ‘mulher’, aqui de Rebeca, que é o Divino Vero, do que se falou acima; e pela significação da ‘culpa’, que é a culpabilidade da profanação do vero. Daí é evidente que ‘por pouco um do povo se deitaria com a tua esposa, e terias trazido culpa sobre nós’ significa que o Divino Vero poderia ser facilmente adulterado por alguém na igreja, e induziria nessa pessoa o delito da profanação do vero. Acima (n. 3386) foi dito que porque Abrahão tinha dito duas vezes que Sarah, sua esposa, era sua irmã — primeiro no Egito e depois em Gerar com Abimeleque —; e que Isaque tinha dito semelhantemente — também com Abimeleque — que Rebeca, sua mulher, era sua irmã; e porque esses três fatos tinham sido também lembrados na Palavra, que a razão disso assim acontecer seja um secretíssimo arcano. O arcano mesmo nesses relatos se evidencia no sentido interno, a saber: como pela ‘irmã’ é significado o vero racional, e pela ‘mulher’ o Divino Vero, e que fora dito que era o vero racional (isto é, a ‘irmã’) a fim de que o Divino Vero, que é a ‘mulher’ (aqui Rebeca), não fosse adulterado, e assim profanado.
[2] Com a profanação do vero acontece assim: O Divino Vero não pode de modo algum ser profanado senão por aqueles que precedentemente o reconheceram, porque esses entraram primeiro pelo reconhecimento e pela fé no vero, e assim são iniciados neles; quando depois eles se afastam deles, então o seu vestígio permanece continuamente impresso interiormente, o que simultaneamente é lembrado ao mesmo tempo quando são lembrados o falso e o mal; daí o vero, porque a eles adere, é profanado. Por isso aqueles nos quais isso acontece têm continuamente em si o que dana, assim, o seu inferno. Com efeito, quando os espíritos infernais se aproximam da esfera em que estão o bem e o vero, eles sentem logo o seu inferno, pois eles vêm naquilo em que têm ódio, consequentemente, no tormento. Aqueles que, portanto, profanaram o vero habitam continuamente com aquilo que os atormenta, e isso conforme o grau da profanação. Como acontece assim, que o Senhor provê, com o maior cuidado, que o Divino Bem e o Divino Vero não sejam profanados; e isso é providenciado principalmente por isso, que o homem, este é tal que não poderia outra coisa senão profanar; ele é mantido tão longe quanto é possível do reconhecimento e da fé do vero e do bem, pois, como foi dito, não pode profanar senão aquele que anteriormente reconheceu e creu.
[3] Essa foi a causa de que aos pósteros de Jacó, os israelitas e os judeus, não foram revelados os veros internos; nem sequer se lhes disse abertamente que houvesse algum interno no homem, assim, nem que houvesse um culto interno, e mal se disse alguma coisa a respeito da vida depois da morte, e do Reino Celeste do Senhor, ou do Messias, a quem eles esperaram. A causa foi porque eram tais que se previu que, se esses veros lhes fossem descobertos, eles não poderiam fazer outra coisa senão profaná-los, porquanto eles não quiseram senão coisas terrestres; e como essa geração foi tal, e também é tal, permite-se ainda que eles fiquem inteiramente na incredulidade. Com efeito, se uma vez eles reconhecessem, e em seguida se retirassem, então não poderiam outra coisa senão induzir em si o inferno mais penoso de todos.
[4] Essa também foi a causa de que o Senhor não veio antes ao mundo e não revelou os internos da Palavra, senão quando não havia mais com eles absolutamente nenhum bem restante, nem sequer o bem natural, pois então eles não podiam mais receber vero algum até um reconhecimento interno, pois é o bem que recebe, assim, não puderam profanar. Tal era o estado que se entende pela ‘plenitude dos tempos’ e pela ‘consumação do século’, e também pelo ‘último dia’, de que se fala tantas vezes nos Profetas. É ainda pela mesma causa que agora são revelados os arcanos do sentido interno da Palavra, porque hoje dificilmente há alguma fé, porque não há nenhuma caridade, assim, porque é a consumação do século, e quando esta chega, então esses arcanos podem ser revelados sem perigo de profanação, porque eles não são reconhecidos interiormente.
[5] É por causa desse arcano que se relata na Palavra, a respeito de Abrahão e de Isaque, que em Gerar com Abimeleque eles chamaram as suas esposas de irmãs. (Pode-se ver, além disso, as coisas que foram ditas e demonstradas anteriormente acerca do mesmo assunto, a saber: que os que reconhecem podem profanar, mas não os que não reconhecem, e menos ainda os que não sabem, n. 593, 1008, 1010, 1059; qual o perigo que resulta da profanação das coisas santas e da Palavra, n. 571, 582; que os que estão no interior da igreja podem profanar as coisas santas, mas não os que estão fora da igreja, n. 2051; que é providenciado pelo Senhor que não se efetue a profanação, n. 1001, 2126; que o culto se torna externo, a fim de que o culto interno não seja profanado, n. 1327, 1328; que se é mantido na ignorância, a fim de que os veros da fé não sejam profanados, n. 301, 302, 303.)