Texto
. Que ‘Isaque voltou, e tornou a cavar os poços de águas que cavaram nos dias de Abrahão, seu pai’ signifique que o Senhor abria esses veros que tinham estado com os antigos, é o que se vê pela representação de ‘Isaque’, que é o Senhor quanto ao Divino Racional, de que já se tratou; pela significação de ‘voltar e de tornar a cavar’, que é abrir de novo; pela significação dos ‘poços de águas’, que são os veros das cognições; que os poços sejam os veros, foi visto (n. 2702, 3096), e que as ‘águas’, as cognições, n. 28, 2702, 3058; e pela significação dos ‘dias de Abrahão, seu pai’, que é o tempo e estado precedentes quanto aos veros, que são significados pelos ‘[poços] que então cavaram’, assim, os que estavam com os antigos. (Que os ‘dias’ sejam tempos e estados, ver n. 23, 487, 488, 493, 893). Quando os dias são o estado, por ‘Abrahão, seu pai’ é representado o Divino mesmo do Senhor, antes de ter sido adjunto ao Seu Humano (ver n. 2833, 2836, 3251); quando eles são o tempo, por ‘Abrahão, seu pai’ são significados os bens e veros que procediam do Divino do Senhor antes de Ele ter sido adjunto ao Humano, assim, os bens e veros que estavam com os antigos.
[2] Os veros que estiveram com os antigos estão hoje inteiramente obliterados, a tal ponto que dificilmente há alguém que saiba que tenham existido e que puderam ser outros que não os que ensinam também hoje, mas eram absolutamente outros. Eles tiveram os representativos e os significativos dos celestes e dos espirituais do Reino do Senhor, portanto, do Senhor mesmo, e aqueles que os entenderam eram chamados sábios; e foram também sábios, pois assim puderam falar com os espíritos e os anjos. Com efeito, a linguagem angélica, que é incompreensível ao homem, porque essa linguagem é espiritual e celeste, quando desce para o homem, que está na esfera natural, cai em coisas representativas e significativas tais quais as que estão na Palavra, daí vem que a Palavra seja o Códice Santo. O Divino, para que haja uma completa correspondência, não pode, na realidade, se apresentar de outro modo diante do homem natural.
[3] E como os antigos estiveram nos representativos e significativos do Reino do Senhor, no qual não há senão o amor celeste e espiritual, eles também tiveram os doutrinais, que tratavam tão somente ‘do amor a Deus e da caridade para com o próximo’, é também em razão desse amor e dessa caridade que eles eram ditos sábios. A partir desses doutrinais eles sabiam que o Senhor devia vir ao mundo, e que JEHOVAH estaria n’Ele, que Ele tornaria Divino o Humano n’Ele, e assim salvaria o gênero humano. A partir desses doutrinais, eles também sabiam o que é a caridade, que, a saber, é a afeição de servir aos outros sem nenhum fim de retribuição; e o que é o próximo para com o qual a caridade deve ser exercida, que, a saber, são todos que existem no universo, mas cada um deles, entretanto, com distinção. Esses doutrinais hoje estão inteiramente perdidos, e no lugar deles há os doutrinais da fé, de que os antigos não faziam relativamente caso algum. Esses doutrinais, a saber, os do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, são rejeitados hoje, em parte pelos que, na Palavra, são chamados babilônios e caldeus, e em parte pelos que são chamados filisteus e também egípcios, e foram de tal modo perdidos, ao ponto que mal reste um vestígio dele. Com efeito, quem conhece hoje o que é a caridade exercida sem nenhuma consideração de si e com aversão a tudo que é por causa de si? E quem é que conhece o que é o próximo, que seja cada um com distinção segundo a qualidade e a quantidade do bem que há neles, assim, que é o bem mesmo? Por conseguinte, quem sabe que, no sentido supremo, é o Senhor mesmo, porque Ele está no bem, e o bem procede d’Ele, e que o bem que não procede d’Ele não é um bem, seja qual for o modo como aparece? E como não se sabe o que é a caridade, nem o que é o próximo, não se sabe quem são aqueles que, na Palavra, são significados pelos pobres, pelos míseros, pelo indigentes, pelos doentes, pelos famintos e sedentos, pelos oprimidos, pelas viúvas, pelos órfãos, pelos cativos, pelos nus, pelos peregrinos, pelos cegos, pelos surdos, pelos coxos, pelos mancos e por outros semelhantes, quando, entretanto, os doutrinais dos antigos ensinavam quais eram esses e a que classe de próximo e, assim, da caridade, eles pertenciam. Toda a Palavra está, quanto ao sentido da letra, de acordo com esses doutrinais; razão pela qual quem não os conhece nunca pode saber de sentido interior algum da Palavra.
[2] Por exemplo, em Isaías:
“E não é que repartas com o faminto o pão, e aos aflitos desterrados introduzas na casa? [E] quando virdes o nu então o cubras, e da tua carne não te escondas? Então romperá como a aurora a tua luz, e a tua saúde logo brotará, e andará diante de ti a tua justiça, e a glória de JEHOVAH te recolherá” (58:7, 8);
aquele que se limita ao sentido da letra crê que, se ele somente der pão a quem tem fome, se receber em sua casa os aflitos desterrados ou errantes, e se der roupa a quem está nu, há de vir, por causa disso, na glória de JEHOVAH ou ao céu, quando, todavia, essas obras são somente externas, e que os ímpios podem fazê-las também do mesmo modo para merecer. Mas pelos famintos, os aflitos e os nus são significados aqueles que são tais espiritualmente, assim, diferentes estados de miséria em que está o homem que é o próximo para com o qual a caridade deve ser exercida. Em Davi:
“JEHOVAH, que faz juízo aos oprimidos, que dá pão aos famintos; JEHOVAH, que desata os acorrentados; JEHOVAH, que abre [os olhos] aos cegos; JEHOVAH, que levanta os curvados; JEHOVAH, que ama os justos; JEHOVAH, que guarda os peregrinos; sustenta o órfão e a viúva” (Sl. 146:7, 8, 9);
aí, pelos ‘oprimidos’, ‘famintos’, ‘acorrentados’, ‘cegos’, ‘curvados’, ‘peregrinos’, o ‘órfão’ e a ‘viúva’, se entendem não aqueles que assim se ouvem, mas aqueles que são tais quanto às coisas espirituais, ou quanto às almas. Os doutrinais dos antigos ensinavam quem esses eram, e em que estado e em que grau eles eram próximos, assim, que caridade devia ser exercida para com eles. Além dessas passagens, em qualquer outra parte no Antigo Testamento se trata disso, porquanto o Divino, quando desce ao natural no homem, cai em tais coisas, que são as obras da caridade, com distinção conforme os gêneros e as espécies. O Senhor também falou semelhantemente, porque Ele falou a partir do Divino mesmo; como em Mateus:
“O Rei dirá aos que [estiverem] à direita: Vinde benditos de Meu Pai; possuí o reino preparado para vós; pois tive fome e Me destes o que comer; tive sede e Me destes de beber, fui peregrino e Me acolhestes, estive nu e Me vestistes, estive doente e visitastes-Me, estive na prisão e viestes a Mim” (25:34, 35, 36);
pelas obras recenseadas nessa passagem são significados os gêneros universais de caridade, e em que grau se acham os bens ou os bons, que são os próximos para com os quais a caridade deve ser exercida; e que o Senhor seja o próximo no sentido supremo, pois se diz:
“Quando fizestes a um desses meus pequeninos irmãos, a Mim [o] fizestes” (Ibid. vers. 40).
A partir dessas poucas explicações se pode ver o que se entende pelos veros com os antigos; mas que esses veros foram inteiramente obliterados por aqueles que estão nos doutrinais da fé e não na vida da caridade, isto é, pelos que, na Palavra, são chamados filisteus, é significado por isso, que ‘os filisteus taparam os poços depois da morte de Abrahão’, a respeito do que se tratará agora.