. Que ‘os pastores de Gerar contenderam com os pastores de Isaque’ signifique que aqueles que ensinam não viam tal sentido ali, porque se mostram opostos, vê-se pela significação de ‘contender’, quando se trata do sentindo interno da Palavra, que é negar que haja tal sentindo, portanto, dizendo não o ver por si; pela significação dos ‘pastores’, que são os que ensinam (n. 343); e pela significação de ‘Gerar’, que é a fé (n. 1209, 2504, 3365, 3383); assim. os ‘pastores do vale de Gerar’ são aqueles que não reconhecem senão o sentido literal da Palavra. A causa pela qual eles não veem um tal sentido, a saber, algum sentido interior, é porque as coisas que estão no sentido interno e as que estão no sentido literal se mostram opostas; mas embora se mostrem opostas, nem por isso elas são opostas, mas correspondem completamente. Porém, que pareçam opostas, é porque aqueles que veem assim a Palavra estão eles próprios no oposto. [2] Isso acontece com o homem como o que acontece com aquele que está no oposto em si próprio, isto é, cujo homem externo (ou natural) está inteiramente em dissidência com o seu homem interno (ou espiritual), ele vê as coisas que pertencem a seu homem interno, ou espiritual, como se elas lhe fossem opostas, quando, todavia, ele mesmo, quanto ao seu homem externo, ou natural, está no oposto, e se ele não estivesse no oposto, mas o seu externo, ou natural, fosse subordinado a seu interno, ou espiritual, esses dois homens se corresponderiam inteiramente. Por exemplo, aquele que está no oposto crê que se deve abdicar das riquezas, e de todas as volúpias do corpo e do mundo, assim, dos prazeres da vida, para receber a vida eterna, pois crê-se que essas coisas são opostas à vida espiritual; porém, elas não são opostas em si, mas correspondem. Com efeito, elas são os meios para um fim, a saber, para que o homem interno (ou espiritual) possa fruir delas a fim de que exerça os bens da caridade, e, além disso, para que ele viva satisfeito em um corpo sadio. São unicamente os fins que fazem que o homem interno e o homem externo sejam ou opostos ou estejam em correspondência; eles são opostos quando as riquezas, as volúpias e os prazeres, de que se falou, se tornam os fins, pois então ele despreza e desdenha as coisas espirituais e celestes, que pertencem ao homem interno, e até as rejeita; mas estão em correspondência quando essas riquezas e volúpias e esses prazeres não fazem os fins, mas são meios para fins superiores, a saber, para coisas que pertencem à vida depois da morte, assim, ao Reino celeste, e ao Senhor mesmo, então dificilmente as coisas corporais e mundanas lhe parecem relativamente alguma coisa, e quando pensa a respeito delas, ele as estima simplesmente como meios para os fins. [3] Daí é evidente que essas coisas que parecem opostas não são em si mesmas opostas, mas que se mostram opostas porque os homens estão no oposto. Aqueles que não estão no oposto agem semelhantemente, falam semelhantemente, ambicionam semelhantemente as riquezas e também semelhantemente as volúpias, do mesmo modo que aqueles que estão no oposto, ao ponto que dificilmente podem ser distinguidos pela face externa. A causa é que são somente os fins que constituem a distinção, ou, o que é o mesmo, são somente os amores, pois os amores são os fins. Mas embora apareçam semelhantes pela forma externa ou quanto ao corpo, ainda assim, são, todavia, absolutamente dissemelhantes pela forma interna, ou quanto ao espírito.Aquele que está em correspondência, isto é, em quem ao homem interno corresponde o homem externo, o seu espírito é cândido e belo tal qual é o amor celeste em forma. Mas aquele que está no oposto, isto é, em quem o homem externo é oposto ao interno, seja qual for a semelhança que há com o outro quanto ao externo, o seu espírito é negro e disforme, tal qual é o amor de si e do mundo, isto é, tal qual é o menosprezo em relação aos outros, e tal qual é o ódio em forma. [4] Acontece coisa semelhante com um grande número de coisas que estão contidas na Palavra, a saber, que as coisas que estão no sentido literal mostram-se opostas às que estão no sentido interno, quando, todavia, elas nunca são opostas, mas correspondem completamente. Por exemplo, diz-se muitíssimas vezes, na Palavra, que JEHOVAH, ou o Senhor, se ira, se inflama, devasta, lança no inferno, quando entretanto Ele nunca se ira, e menos ainda lança alguém no inferno, aquilo pertence ao sentido da letra, mas isto pertence ao sentido interno; essas duas ações se mostram opostas, mas a causa é porque o homem está no oposto. Tem-se isto assim como que o Senhor apareça como Sol aos anjos que estão no céu e, por isso, como calor semelhante ao da primavera, e como luz semelhante à da aurora; mas aos infernais Ele aparece como o que é absolutamente sombrio, e por isso como um frio semelhante ao do inverno, e como uma escuridão semelhante a da noite. Por conseguinte, Ele aparece aos anjos no amor e na caridade, mas aos espíritos infernais, no ódio e na hostilidade; assim, a estes, segundo o sentido da letra, parece que Ele se ira, se inflama, devasta, lança no inferno; mas àqueles, segundo o sentido interno, que Ele nunca se ira, nem se inflama, e ainda menos que devasta e lança no inferno. Quando, portanto, se trata, na Palavra, dessas coisas que são contrárias ao Divino, elas não podem ser apresentadas de outra forma senão assim segundo a aparência: é mesmo Divino, que os maus vertidos em diabólicos, operem isto assim; é por essa razão que quanto mais os maus se aproximam do Divino, tanto mais eles se precipitam em tormentos infernais. [5] O mesmo acontece com essas palavras do Senhor na Oração: “Não nos induzas em tentação”. O sentido segundo a letra é que o Senhor induza em tentação, mas o sentido interno é que Ele não induz pessoa alguma em tentação, como se sabe (ver n. 1875). Acontece de forma semelhante com as restantes coisas que pertencem ao sentido literal da Palavra.