. ‘E chamou o nome do poço Esek, porque contenderam com ele’; que signifique a negação por causa dessas coisas, e depois por causa de outras, que são contra eles, e por causa de muitas outras, vê-se por isso, que os nomes que eram postos antigamente eram significativos de uma coisa real ou do estado (n. 3422), daí podiam recordar-se de muitas circunstâncias que lhes diziam respeito, principalmente as qualidades que eles tinham. Aqui, pelo fato de terem os pastores de Gerar contendido com os pastores de Isaque, tinha-se dado ao poço um nome que indicava essa circunstância. Que ‘contender’ ou ‘contestar’ signifique também negar, foi visto (n. 3425); daí o nome ‘Esek’, que na língua original significa contestação ou contenda; e é derivado de um vocabulário com o qual tem afinidade, que significa opressão e injúria; e como aqui o ‘poço’ significa a Palavra quanto ao sentido literal, no qual está o sentido interno, por ‘Esek’, ou ‘contenda’, é significada a negação do sentido interno da Palavra. As causas dessa negação estão também no mesmo vocábulo, causas que são por causa dessas coisas de que se tratou logo acima (n. 3425), a saber, que se mostram opostas, é evidente; depois, também que sejam por causa de outras. [2] Assim acontece a respeito do sentido interno da Palavra: Aqueles que estão somente no conhecimento das cognições e são chamados filisteus, e aqueles que estão somente nos doutrinais da fé, que são ditos ‘pastores do vale de Gerar’, e estão na caridade nula para com o próximo, esses não podem de modo algum fazer outra coisa senão negar que haja um sentido interno da Palavra. As causas principais são porque em seus corações eles não reconhecem o Senhor, ainda que O professem de boca; e também não amam de coração o próximo, embora declarem amor para com ele; e aquele que não reconhece de coração o Senhor e não ama de coração o próximo, este de maneira alguma pode outra coisa, senão negar o sentido interno da Palavra, pois a Palavra, no sentido interno, não trata de outra coisa senão do amor ao Senhor e do amor para com o próximo; é por isso que o Senhor disse que desses dois Preceitos dependem a Lei e os Profetas, isto é, toda a Palavra (Mt. 22:35, 36, 37, 38). O quanto eles negam o sentido interno da Palavra, foi-me até concedido ver por tais indivíduos na outra vida, diante dos quais, quando somente se lhes fazia lembrar que existe o sentido interno da Palavra, que não se mostra em seu sentido literal, e que ele trata do amor ao Senhor e para com o próximo. Então percebeu-se deles, não somente uma negação, mas também uma aversão, e mesmo náuseas; é essa a causa primária [ou a razão mais importante]. [3] A segunda [causa] é que eles invertem inteiramente a Palavra, pondo aquilo que está embaixo em cima, ou, o que é o mesmo, pondo aquilo que está atrás, na frente; com efeito, eles estabelecem ser a fé o essencial da igreja, e as coisas que pertencem ao amor ao Senhor e ao amor para com o próximo serem os frutos da fé; quando, entretanto, assim se tem: Se o amor ao Senhor é comparado à Árvore de Vida no paraíso de Éden, a caridade e as suas obras são os seus frutos, mas a fé e tudo que pertence à fé são apenas as folhas. Quando, pois, eles invertem assim a Palavra, a ponto de tirar os frutos não da árvore, mas das folhas, não é de admirar que neguem o sentido interno da Palavra e reconheçam apenas o seu sentido literal, pois pelo sentido literal, como se sabe, pode-se confirmar qualquer dogma, até o mais herético. [4] Além disso também, aqueles que estão somente nos doutrinais da fé, mas não no bem da vida, não podem outra coisa senão estar em uma fé persuasiva, isto é, em princípios captados igualmente de falsos e de veros, consequentemente, são mais estúpidos do que outros, já que quanto mais alguém está na fé persuasiva, tanto mais é estúpido; mas quanto mais alguém estiver no bem da vida, isto é, no amor ao Senhor e na caridade para como o próximo, tanto mais ele está na inteligência, isto é, na fé pelo Senhor. Vem também daí que aqueles não podem outra coisa senão estar no negativo sobre o sentido interno da Palavra, estes por sua vez não podem outra coisa senão estar no afirmativo. Com efeito, os interiores naqueles que estão somente nos doutrinais e não no bem da vida, estão fechados, ao ponto que a luz do vero que procede do Senhor não pode influir e lhes conceder aperceber que assim seja. Mas os interiores naqueles que estão no amor ao Senhor estão abertos, ao ponto que a luz do vero que procede do Senhor pode influir, afetar as suas mentes e conceder-lhes a apercepção de que assim seja. [5] Há também a causa que não tenham outro prazer na leitura da Palavra senão que por meio dela ganhem honras e riquezas e a fama por causa dela, este prazer é o prazer que pertence ao amor de si e do mundo, e isso a tal ponto que se eles não tiram dali ganhos, eles rejeitam inteiramente a Palavra. Os que são tais negam em seu coração não somente o sentido interno da Palavra, quando ouvem a respeito dele, mas também o sentido literal mesmo, embora considerem que creiam nele; com efeito, aquele que tem por fim o prazer do amor de si e do mundo rejeita inteiramente em seu coração todas as coisas que pertencem à vida eterna, e é somente a partir de seu homem natural e corporal que ele profere tais coisas, que ele diz serem verdadeiras, não por causa do Senhor e do Reino do Senhor, mas por causa de si e dos seus. Essas e várias outras causas fazem com que aqueles que são chamados ‘pastores do vale de Gerar’ e aqueles que são chamados ‘filisteus’ neguem o sentido interno da Palavra.