Texto
. ‘E Esaú foi um filho de quarenta anos’; que signifique o estado da tentação quanto ao bem natural que pertence ao vero, é o que se vê pela representação de ‘Esaú’, que é o bem natural que pertence ao vero (n. 3300, 3302, 3322); pela significação de ‘quarenta anos’, que são os estados da tentação. (Que os ‘quarenta’ sejam as tentações, foi visto nos n. 730, 662, 2272; e que os ‘anos’ sejam os estados, n. 487, 488, 493, 893.) Que essas coisas relatadas a respeito de Esaú tenham sido acrescentadas imediatamente às que foram referidas sobre Abimeleque e Isaque, é porque se tratou dos que estão no bem que pertence ao vero, isto é, dos que estão na vida segundo os doutrinais tomados do sentido literal da Palavra; com efeito, estes foram significados por ‘Abimeleque’, ‘Ahuzzath’ e ‘Ficol’, como dito acima aqui e ali.
[2] Aqueles que estão, portanto, no bem do vero, ou na vida segundo os doutrinais, foram regenerados quanto aos interiores, que são os racionais deles, mas não ainda quanto aos exteriores, que são os seus naturais. De fato, o homem é regenerado quanto ao racional, antes de sê-lo quanto ao natural (n. 3286, 3288), pois o natural está inteiramente no mundo, e é no natural que estão fundados como em um plano o pensamento e a vontade do homem. É por essa causa que o homem, quando é regenerado, apercebe um combate entre o seu racional (ou seu homem interno) e o seu natural (ou o seu homem externo), e que o seu externo é regenerado muito mais gravemente e muito mais dificilmente do que o interno; porquanto o que está mais perto do mundo o mais perto do corpo, isto não pode ser facilmente levado à obediência ao homem interno, a não ser por uma demora de tempo considerável e por vários estados novos nos quais se deve ser introduzido, estados que são os de reconhecimento de si mesmo e reconhecimento do Senhor, a saber, o do reconhecimento de sua miséria e do reconhecimento da misericórdia do Senhor, assim, de humilhação por meio dos combates das tentações. Como é assim, por isso aqui, agora, imediatamente se ajunta isto a respeito de Esaú e de suas duas esposas, pelas quais são significadas tais coisas no sentido interno.
[3] Qualquer pessoa sabe o que é o bem natural, a saber, que seja o bem em que nasce o homem; mas o que é o bem natural que pertence ao vero, é conhecido por poucos, se é por alguém. O bem natural ou o que nasce com o homem, é de um quádruplo gênero, a saber: o bem natural proveniente do amor que pertence ao bem, o bem natural proveniente do amor que pertence ao vero, depois, o bem natural proveniente do amor que pertence ao mal, e o bem natural proveniente do amor que pertence ao falso.Com efeito, o bem em que o homem nasce, ele o traz de seus pais, seja do pai seja da mãe, porquanto tudo aquilo que os pais contraíram pelo uso frequente e pelo hábito, ou de que eles foram imbuídos a partir da vida ativa, ao ponto que se tornou para eles tão familiar que se mostre como natural, isto deriva nos filhos e se torna hereditário. Os pais que viveram no bem que pertence ao amor do bem e perceberam nessa vida o seu prazer e a sua bem-aventurança, se estiverem nesse estado quando concebem um filho, o filho recebe daí a inclinação para um semelhante bem. Os pais que viveram no bem do amor que pertence ao vero (ver a respeito desse bem os n. 3459, 3463) e perceberam nessa vida seu prazer, se estiverem nesse estado quando conceberem um filho, o filho recebe daí a inclinação a um semelhante bem.
[4] O mesmo acontece com aqueles que recebem do hereditário o bem do amor que pertence ao mal e o bem do amor que pertence ao falso. Estas últimas inclinações são denominadas bens por essa causa, porque naqueles em que elas estão elas aparecem na forma externa como bens, embora sejam tudo menos o bem. A maioria daqueles em que o bem natural aparece tem um tal bem. Aqueles que estão no bem natural do amor do mal são flexíveis e propensos a cada um dos gêneros do mal, pois se deixam facilmente seduzir; por causa desse bem eles são submissos, principalmente, às alianças voluptuosas, a adultérios e até a crueldades. E aqueles que estão no bem natural [do amor] do falso são propensos aos falsos de cada gênero; por causa desse bem eles se apossam do persuasivo, sobretudo da parte dos hipócritas e dos dolosos que sabem cativar os ânimos, insinuar-se nas afeições e fingir a inocência. É nesses, assim ditos, “bens”, a saber, que pertencem ao mal e ao falso, que nasce hoje a maioria dos que, no mundo cristão, estão no bem natural; a causa é que seus pais contraíram, por meio da vida ativa, o prazer do mal e o prazer do falso, e dessa forma os implantaram em seus filhos e, portanto, em seus pósteros [ou descendentes].