Texto
. ‘E vestiu Jacó, seu filho menor’; que signifique a afeição do vero, ou da vida do bem proveniente do vero, é o que se vê pela representação de ‘Rebeca’, que é o Divino Vero do Divino Racional; pela representação de ‘Jacó’, que é o Divino Vero do Divino Natural; e pela significação de ‘vestir’, que aqui é comunicar e imbuir, a saber, os veros do bem, que são significados pelas ‘vestimentas de Esaú’ (n. 3537), assim, a afeição do vero do natural, que é aqui o mesmo que a vida do bem proveniente do vero. Pode-se saber o modo como essas coisas devem ser entendidas, pelas coisas que foram ditas acima (n. 3518), mas porque tais coisas são as que hoje são muitíssimo ignoradas, permite-se explicar ainda as mesmas para serem de alguma forma compreendidas. Neste capítulo, trata-se do Senhor, do modo como Ele fez Divino o Seu Natural; e no sentido representativo, da regeneração do homem quanto ao natural (n. 3490).
[2] Com o homem assim acontece: A regeneração tem por fim que o homem se torne novo quanto ao seu homem interno, assim, quanto à alma (ou espírito); mas o homem não pode tornar-se novo ou regenerado quanto a esse homem interno a não ser que ele seja também quanto ao externo, pois embora o homem, depois da morte, torne-se espírito, ainda assim ele tem consigo, na outra vida, as coisas que pertencem ao seu homem externo, a saber, as afeições naturais, e também os doutrinais, e mesmo os conhecimentos; em uma palavra, tem consigo todas as coisas que pertencem à memória exterior, ou natural (n. 2475 ao 2483). Essas coisas são efetivamente os planos em que terminam os seus interiores; no entanto, tal como essas coisas são dispostas, tais se tornam os interiores quando elas influem, pois é ali neles que elas são modificadas. Em razão disso, é evidente que o homem deve não apenas ser regenerado ou tornar-se novo quanto ao homem interno, ou racional, mas também quanto ao externo, ou natural; e a não ser que isto ocorra, não há correspondência alguma. Que haja uma correspondência entre o homem interno e suas coisas espirituais e o homem externo e suas coisas naturais, foi visto (n. 2971, 2987, 2989, 2920, 3002, 3493).
[3] O estado da regeneração do homem é descrito, neste capítulo, no sentido representativo, por meio de Esaú e Jacó; e aqui, o seu primeiro estado é descrito tal qual ele é, a saber, quando o homem está sendo regenerado ou antes que o homem tenha sido regenerado. Com efeito, este estado é plenamente invertido em relação àquele estado em que o homem está quando foi regenerado, porquanto nesse estado, a saber, quando o homem está sendo regenerado ou antes que ele tenha sido regenerado, os intelectuais que pertencem então ao vero, em aparência, constituem os primeiros lugares; mas quando ele foi regenerado, então são os voluntários que pertencem ao bem [que constituem os primeiros lugares]. Que no primeiro estado os intelectuais que pertencem ao vero aparentemente façam os primeiros, foi isso representado por Jacó, que tenha reivindicado para si a primogenitura de Esaú (ver os n. 3325, 3336); depois, que [tenha tomado para si] a bênção (do que aqui se trata); e que esse estado esteja completamente invertido, é representado por isso: que Jacó fingiu ser Esaú, a saber, que estava vestido com as vestimentas de Esaú, e que estava com peles de cabritos de cabras. Com efeito, nesse estado, o racional vero, ainda não estando convenientemente conjunto com o racional bem, ou, que é o mesmo, o entendimento não estando ainda convenientemente conjunto com a vontade, influi e atua desse modo no natural, e dispõe assim em seu sentido inverso as coisas que ali estão.
[4] Também se pode ver isso por várias experiências, principalmente por esta: que o homem pode aperceber pelo entendimento, e o natural pode daí conhecer diversas coisas que são bens e veros, mas que, entretanto, ainda assim a vontade pode não fazer conforme esses bens e veros. Seja como exemplo, que o amor e caridade seja o essencial no homem: a faculdade intelectual do homem pode ver isso e confirmar, mas, antes que o homem tenha sido regenerado, a faculdade voluntária não pode reconhecer. Há também homens que não estão em absolutamente nenhum amor ao Senhor e em nenhuma caridade para com o próximo que compreendem isso bem, e que compreendem igualmente que o amor é a vida mesma do homem, e que a vida é tal qual é o amor, bem como que do amor provém todo prazer e toda amenidade, por conseguinte, todo regozijo e toda felicidade, e também daí que qual é o amor tal é o regozijo e tal é a felicidade. O homem, embora a sua vontade dissinta, ou seja, também esteja no contrário, ainda assim pode, pelo entendimento, compreender que haja uma vida felicíssima oriunda do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, porque o Divino mesmo influi nela; e vice-versa, que haja uma vida infelicíssima proveniente do amor de si e do amor do mundo, porque o inferno influi nela. Daí também pode ser perceptível diante do entendimento, mas não diante da vontade, que o amor ao Senhor seja a vida do céu, e que o amor mútuo seja a alma que provém dessa vida. É por isso que quanto mais o homem não pensa a partir da vida de sua vontade, nem reflete sobre a vida que, por isso, é a sua, tanto mais ele percebe esse vero pelo entendimento; mas quanto mais ele pensa pela vida de sua vontade, tanto mais ele não o percebe, e até o nega.
[5] Também se pode mostrar isso com clareza diante do entendimento que está na humilhação, na qual o Divino pode influir no homem, isso por essa causa, porque nesse estado são afastados os amores de si e do mundo, por conseguinte, as coisas infernais que fazem obstáculo; mas enquanto a vontade não for nova e a esta não estiver unido o entendimento, o homem não pode estar na humilhação do coração; e mais, quanto mais o homem está na vida do mal, isto é, quanto mais a sua vontade é para o mal, tanto mais ele não pode isso, e também tanto mais isso é obscuro para ele e, em consequência, tanto mais ele o nega. Por isso também, o homem, pelo entendimento, pode perceber que a humilhação do homem não é por causa do amor da glória no Senhor, mas por causa do amor Divino, porque o Senhor pode influir assim com o bem e vero e fazer o homem bem-aventurado e feliz; mas quanto mais a vontade é consultada, tanto mais isto é obscurecido. Coisa semelhante acontece com várias outras coisas.
[6] Essa faculdade, a saber, que possa entender o que é o bem e o vero, embora não queira o bem, foi concedida ao homem para que ele possa ser reformado e regenerado. Por isso essa faculdade está tanto em poder dos maus como com os bons; e até, em poder dos maus, ela é por vezes mais acurada, mas com essa diferença: que em poder dos maus não há afeição alguma do vero por causa da vida, isto é, por amor do bem da vida que vem do vero; é por isso que eles não podem ser reformados; porém, nos bons há a afeição do vero por causa da vida, isto é, por amor do bem da vida; em consequência disso estes podem ser reformados. No entanto, o primeiro estado de reforma destes é que o vero da doutrina lhes pareça estar em primeiro lugar, e o bem da vida em segundo, pois é a partir do vero que eles fazem o bem; porém, o seu segundo estado é que o bem da vida está no primeiro lugar e o vero da doutrina em segundo, pois é a partir do bem que eles fazem o bem, isto é, a partir da vontade do bem; e quando isso acontece, porque a vontade foi conjunta ao entendimento como em um casamento, o homem foi regenerado. No sentido interno, trata-se desses dois estados nas partes que tratam de Esaú e Jacó.