. ‘E Esaú viu que Isaque abençoara Jacó’; que signifique o pensamento do bem do natural a respeito da conjunção por meio do bem que pertence ao vero, que é Jacó, isso é evidente pela significação de ‘ver’, que é pensar, porquanto pensar não é outra coisa senão ver dentro, ou a vista interna; pela representação de ‘Esaú’, que é o bem do natural (n. 3300, 3302, 3322, 3494, 3576, 3599); pela significação de ‘ser abençoado’, que é a conjunção (n. 3504, 3514, 3530, 3565, 3584); pela representação de ‘Isaque’, que é o Divino Racional do Senhor quanto ao Divino Bem, de que se tratou antes; e pela representação de ‘Jacó’, que é o bem que pertence ao vero (n. 3669, 3677); daí é evidente que por estas palavras, ‘Esaú viu que Isaque abençoara Jacó’, é significado o pensamento do bem do natural sobre a conjunção por meio do bem que pertence ao vero. [2] Mas o que é o pensamento do bem do natural a respeito da conjunção por meio do bem que pertence ao vero, não se pode explicar satisfatoriamente para ser compreendido, contudo, isso deve ainda assim ser explicado em poucas palavras: O pensamento do bem do natural é o pensamento do racional (ou homem interno) no natural (ou homem externo), e de fato proveniente do bem do natural. Com efeito, é o racional, ou homem interno, que pensa, e não o natural, ou homem externo, pois aquele, ou seja, o homem interno, está na luz do céu, luz em que há, pelo Senhor, a inteligência e a sabedoria (n. 3195, 3339, 3636, 3643); mas o homem externo está na luz do mundo, na qual a inteligência é nula, e de fato não há vida; se, por conseguinte, o homem interno não pensasse dentro do [homem] externo, nunca se poderia pensar coisa alguma, mas o fato é que ao homem parece que o seu pensamento está em seu [homem] externo, porquanto ele pensa a partir das coisas que entraram por meio dos sentidos e que pertencem ao mundo. [3] Acontece com isso como o que acontece com a visão do olho: o homem sensual imagina que o olho vê por si mesmo, quando, todavia, o olho é apenas um órgão do corpo por meio do qual o homem interno vê as coisas que estão fora do corpo, ou que estão no mundo. Acontece também com isso como o que acontece com a linguagem: o homem sensual acredita que a boca e a língua falam por si próprias, e aquele que pensar de um modo um pouco mais sublime, acreditaria que é a laringe e os órgãos interiores, pela aspiração procedente dos pulmões, quando, todavia, é o pensamento que fala por meio dessas coisas orgânicas, pois a linguagem não é nada mais do que um pensamento falante. Tais falácias dos sentidos são em grande número. Sucede o mesmo com toda a vida que se manifesta no homem externo, que é a vida do interno nele como em seu órgão material e corporal. [4] Eis o que acontece com o pensamento: enquanto o homem vive no corpo, ele pensa a partir do racional interiormente no natural, mas de modo diverso quando o natural corresponde ao racional, e de modo diverso quando o natural não corresponde. Quando o natural corresponde, então o homem é racional e pensa espiritualmente; mas quando o natural não corresponde, então não é racional nem pode pensar espiritualmente. Com efeito, naquele cujo natural corresponde ao racional, está aberta a comunicação para que a luz do céu procedente do Senhor possa influir por meio do racional no natural, e iluminá-lo de inteligência e sabedoria; daí vem que esse homem é racional e pensa espiritualmente. Mas com aquele cujo natural não corresponde ao racional, a comunicação está fechada, e só influi um pouco de luz no geral em volta ao redor e por fendas por meio do racional no natural, por isso ele não é racional e não pensa espiritualmente. O homem, com efeito, pensa conforme influi nele a luz do céu. É, pois, evidente que cada homem pensa segundo o estado de correspondência do natural com o racional quanto ao bem e ao vero. [5] No entanto, os espíritos e os anjos pensam de um modo diferente do que o homem pensa; o seu pensamento também termina, é evidente, no natural, pois eles possuem toda sua memória natural e todas as afeições que a elas se prendem, mas não lhes é permitido o uso dessa memória (n. 2475 a 2479); e ainda que não lhes seja permitido o seu uso, ela lhes serve, contudo, de plano, ou como base [sicut pro fundamento], a fim de que as ideias de seu pensamento nela terminem. Daí vem que as ideias do pensamento deles sejam interiores, e que a sua linguagem se componha não a partir das formas das palavras, como com o homem, mas pelas formas das coisas, daí é evidente que para eles também o pensamento é tal que existe a correspondência de seu natural com o seu racional, e que há espíritos que são racionais e pensam espiritualmente, e espíritos que não são racionais e não pensam espiritualmente, e isso absolutamente segundo as afeições e, por conseguinte, os pensamentos das coisas na vida do corpo, isto é, segundo o estado da vida que eles adquiriram no mundo. [6] Sendo assim, pode-se ver, portanto, um pouco o que é o pensamento do bem que pertence ao natural, a saber, que é o pensamento do bem no natural (segundo a ideia dos espíritos, chama-se pensamento do bem do natural e que segundo a ideia dos homens se chama pensamento no bem do natural). O racional pensa neste bem, a saber, no bem do natural, quando ele considera o bem como fim. Por conseguinte, o pensamento do bem do natural sobre a conjunção pelo bem que pertence ao vero e o pensamento no natural a respeito do fim, a saber, como o vero lhe pode ser conjunto, e isso segundo a Ordem Divina, pela via geral que consiste, como já se tem dito muitas vezes, em coisas que são os externos e, por conseguinte, os últimos ou os extremos na ordem; é por essas coisas que começa toda regeneração do natural. Esses extremos, ou últimos, são as primeiras cognições, tais como são as das crianças e dos meninos (n. 3665 no fim). [7] No começo, o vero que pertence ao bem, que é Esaú, não foi conjunto na forma externa com o bem que pertence ao vero, que é Jacó, pois o bem que pertence ao vero é o inverso em relação ao vero que pertence ao bem (n. 3669); mas ainda assim eles foram conjuntos intimamente, isto é, quanto aos fins. Com efeito, o fim do vero que provém do bem é que os veros lhe sejam adjuntos segundo a ordem, como se disse, o mesmo acontece com o fim do bem que provém do vero; e como o fim conjunge, é também por isso que eles são conjungidos (n. 3562, 3565); o inverso da ordem nos primeiros tempos é somente um meio que diz respeito ao fim.