. Mostrou-se-me também, de um modo vivo, que ideia têm do céu aqueles mesmos que se crê terem mais do que todos os outros comunicação com o céu, e dali o influxo. Esses aparecem acima da cabeça e são aqueles que, no mundo, quiseram ser adorados como deuses, e nos quais o amor de si chegara ao cúmulo pelos graus do poder, e ao apogeu pela liberdade imaginária que dali provém, e eles são ao mesmo tempo dolosos sob a aparência da inocência e do amor ao Senhor. Eles aparecem no alto, acima da cabeça, por causa da fantasia de altura, mas eles estão, entretanto, debaixo dos pés no inferno. [2] Um dentre eles baixou para mim; e foi dito pelos outros que no mundo ele tinha sido Papa. Ele falou comigo de um modo brando, e primeiramente de Pedro e de suas chaves, que ele imaginava ter tido. Quando, porém, eu o interroguei a respeito do poder de introduzir no céu a quem quer que ele quisesse, ele tinha do céu uma ideia tão grosseira, que ele representava como uma porta por meio da qual havia introdução. Ele dizia que a tinha aberto gratuitamente aos pobres, mas que os ricos tinham sido avaliados, e que aquilo que eles tinham dado era coisa santa. Tendo-lhe perguntado se ele acreditava que aqueles que ele tinha introduzido ficariam ali, ele respondeu que não o sabia, se não, que eles podem de lá sair. Eu lhe disse, depois, que ele não podia conhecer os seus interiores, nem saber se eram dignos, que talvez fossem salteadores, de quem o inferno deve ser a morada. Ele respondeu que com isso não se preocupava, pois se não fossem dignos, eles podiam ser de lá expulsos. Porém, ele foi instruído sobre o que se entendia pelas chaves de Pedro, a saber, que essas chaves significam a fé do amor e da caridade, e porque só o Senhor que concede tal fé, que é somente o Senhor Quem introduz no céu, e que Pedro não aparece a pessoa alguma, e que ele é um simples espírito que não tem mais poder do que um outro. Esse papa não tinha a respeito do Senhor outra opinião que não fosse esta: que Ele deve ser adorado, tanto quanto Ele dá tal poder. Mas percebi que ele pensava que o Senhor não devia ser mais adorado se não desse esse poder. Enfim, tendo lhe falado do homem interno, ele só tinha uma ideia suja a respeito. [3] Mostrou-se-me de um modo vivo com que liberdade, plenitude e prazer ele respirava, quando estava assentado em seu trono no Consistório, e que ele acreditava falar pelo Espírito Santo. Ele foi posto em um estado semelhante ao que tinha estado quando presidia o Consistório — pois, na outra vida, cada um pode facilmente ser posto no estado de vida em que esteve no mundo, porque o estado da vida de cada um permanece depois da morte — e a respiração desse papa me foi comunicada tal qual ela fora então. Ela era livre com agrado, lenta, regular, elevada, enchendo o peito; mas quando se lhe contradizia, então havia, no abdômen, pela continuidade da respiração, alguma coisa que parecia enrolar-se e arrastar-se, e quando ele imaginava que o que ele pronunciava era Divino, ele percebia isso por uma sorte de respiração mais tácita e, por assim dizer, aprovadora. [4] Mostrou-se-me depois por quem são então governados tais pontífices, a saber, por uma turba de sereias que estão acima da cabeça, as quais se imbuíam da natureza e da vida de se insinuarem nas afeições, sejam elas quais forem, com a disposição de mandar e de submeter a si os outros, e de destruí-los todos por causa de si; a santidade e a inocência lhes servem de meio; elas têm temor de si próprias e procedem com precaução; mas quando se apresenta a ocasião, elas se entregam, em seu interesse, às ações mais cruéis, sem nenhuma misericórdia. * * * * * * *