. ‘E Raquel era estéril’; que signifique que os veros interiores não eram recebidos, é o que se vê pela representação de ‘Raquel’, que é a afeição do vero interior, de que se tratou; e pela significação de ‘estéril’, que é que daí não vieram doutrinas, assim, nem igrejas; isso é, com efeito, o oposto do que se disse de Leah, a saber, que ‘JEHOVAH abriu o útero dela’, pelo que é significado que daí vêm as doutrinas das igrejas. O motivo pelo qual os veros interiores não eram recebidos, é porque os veros interiores são tais que eles transcendem a fé do homem, visto que eles não caem em suas ideias e não são segundo as aparências externas ou segundo as falácias dos sentidos, pelas quais todo homem se deixa conduzir; e ele não os crê, exceto se coincidirem de algum modo com essas aparências ou com essas falácias. [2] Um exemplo: É um vero interior, que não há tempos nem espaços na outra vida, mas que em lugar dos tempos e dos espaços há estados; o homem, que está no tempo e no espaço enquanto vive na terra, tem todas as suas ideias pelo tempo e pelo espaço, e a tal ponto, que sem eles não lhe é possível pensar coisa alguma (n. 3404); por essa razão, a não ser que os estados que estão na outra vida fossem descritos diante do homem por meio de tempos e espaços, ou por coisas que deles tiram as suas formas, ele nada perceberia, portanto, nada creria, consequentemente, nada receberia; assim, seria estéril a doutrina, por conseguinte, não haveria igreja alguma. [3] Mais um exemplo: A não ser que as afeições celestes e espirituais fossem descritas por meio de coisas tais que pertencem às afeições mundanas e corporais, o homem também nada perceberia, pois ele está nessas afeições, e é daí que ele pode ter noções sobre as afeições celestes e espirituais, ainda que, entretanto, haja entre elas tanta diferença ou distância quanto entre o céu e a terra (n. 1839). Seja para exemplo a glória do céu ou dos anjos no céu: A não ser que o homem formasse para si, pela ideia da glória que está no mundo, uma ideia da glória no céu, ele não a compreenderia, portanto, ele não a reconheceria. [4] O mesmo se dá com todos os outros veros, é por isso que o Senhor, na Palavra, falou conforme a compreensão do homem e conforme as suas aparências. O sentido literal da Palavra é tal, mas tal, entretanto, que tem em si um sentido interno em que estão os veros interiores; daí vem agora que a respeito de Leah se diz, que ‘JEHOVAH abriu o útero dela’, e que ‘Raquel era estéril’, porque ‘Leah’ representa a afeição do vero exterior, e ‘Raquel’, a afeição do vero interior, como foi dito; mas foi provido pelo Senhor, porque os veros exteriores são os primeiros veros que o homem aprende, que o homem possa, por meio desses veros, ser introduzido nos veros interiores, e é o que é significado quando se diz que “Deus enfim lembrou de Raquel, e que Ele a tenha ouvido, e tenha aberto o seu útero” (Gn. 30:22). [5] São essas as coisas que se pode ver pelas igrejas que existiram desde o tempo antigo, e pelos seus doutrinais, a saber, que os doutrinais delas tinham sido formados de veros externos; por exemplo: pela Igreja Antiga, que existiu depois do dilúvio. Os doutrinais desta Igreja eram, na sua maioria, coisas externas representativas e significativas em que os veros internos estavam escondidos. O maior número desses antigos estava em um culto santo quando estavam nos externos; se alguém no começo lhes tivesse dito que essas coisas representativas e significativas não eram as coisas essenciais do culto Divino, mas que as coisas essenciais do culto eram as coisas espirituais e celestes que elas representavam e significavam, eles teriam absolutamente rejeitado isso, e assim a igreja teria se tornado nula. O mesmo teria acontecido, com mais forte razão, com a Igreja Judaica: se alguém tivesse dito aos judeus que os seus ritos tiravam a sua santidade dos Divinos do Senhor que estavam nesses ritos, eles nunca teriam reconhecido isso. [6] Tal era também o homem quando o Senhor veio ao mundo; ele era ainda mais corporal, e os outros os que eram da igreja, mais do que todos. É isso bastante evidente pelos próprios discípulos, que estavam continuamente com o Senhor e que o tinham ouvido dizer tantas coisas sobre Seu Reino; apesar disso, eles não podiam, entretanto, perceber ainda os veros interiores. Com efeito, eles não puderam ter sobre o Senhor outra noção senão a que os judeus têm hoje do Messias a quem eles esperam, isto é, que Ele devia elevar esse povo à dominação e à glória acima de todas as nações no universo; e depois de terem ouvido o Senhor dizer tantas coisas sobre o Reino celeste, mesmo assim eles não puderam ainda deixar de pensar que o Reino celeste era como um reino terrestre, que lá Deus Pai era o mais elevado, que depois dele seria o Filho, e depois eles doze; e que eles reinariam assim nessa ordem. É também por isso que Thiago e João pediram que um deles estivesse assentado à direita do Senhor e o outro à sua esquerda (Mc. 10:35, 36, 37), e que todos os outros discípulos ficaram indignados de que eles quisessem ser maiores do que eles (Mc. 10:41; Mt. 20:24). É ainda por isso que o Senhor, depois de lhes haver ensinado o que era ser o maior no céu (Mt. 20:25, 26, 27, 28; Mc. 10:42 a 45), lhes falou, contudo, segundo a concepção deles, dizendo-lhes que eles se assentariam sobre doze tronos e julgariam as doze tribos de Israel (Lc. 22:24, 30; Mt. 19:28). [7] Se Ele lhes tivesse dito que pelos discípulos não eram eles que eram entendidos, mas todos que estão no bem do amor e da fé (n. 3354, 3488), então que no Reino do Senhor não há tronos, nem principados e dominações como no mundo, e que eles não poderiam sequer julgar a menor ação de um só homem (n. 2129, 2553), eles teriam rejeitado a Palavra, e deixando assim o Senhor, cada um deles teria voltado ao seu negócio. Que o Senhor tenha falado assim, era a fim de que recebessem os veros externos, e que por estes veros eles fossem introduzidos nos veros internos, porque nesses externos que o Senhor pronunciara se achavam encerrados os internos, que se manifestam com o tempo, e quando se manifestam, esses externos são dissipados e servem somente de objetos ou de meios de pensar sobre os internos. Daí agora é possível saber o que se entende quando se diz que JEHOVAH abriu primeiro o útero de Leah, e que ela pariu filhos a Jacó, e que Ele abriu depois o útero de Raquel. * * * * * * *