ac 3863

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Porque disse: Que JEHOVAH viu’; que signifique, no sentido supremo, a Previdência, no sentido interno, a fé, no sentido interior, o entendimento, no sentido externo, a vista (aqui, a fé procedente do Senhor), vê-se pela significação de ‘ver’, de que se tratará no que segue. A partir daquelas explicações, que são premissas, pode-se ver que as ‘doze tribos’, que obtiveram os seus nomes dos doze filhos de Jacó, significaram todas as coisas do vero e do bem, ou da fé e do amor, assim, todas as coisas da igreja, e que cada ‘tribo’ significou algum universal, portanto, as ‘doze tribos’, doze universais, que compreendem em si e sob si todas e cada uma das coisas que pertencem à igreja, e no sentido universal, todas as que pertencem ao Reino do Senhor. O universal que Rúben significa é a fé; que esta, a saber, a fé, é o primeiro universal, é por causa disto, porque o homem, quando é regenerado, ou se torna igreja, deve primeiro aprender e imbuir-se das cosias que pertencem à fé, isto é, ao vero espiritual, pois é pela doutrina da fé ou do vero que ele é introduzido. Com efeito, o homem é tal, que, por si mesmo ele não sabe o que é o bem celeste, mas este ele aprende pela doutrina que é chamada doutrina da fé. Toda a doutrina da fé visa a vida como fim, e porque visa a vida, visa o bem, pois o bem é a vida.
[2] Entre os antigos foi posto em disputa quem seria o primogênito da igreja, se o vero que pertence à fé, ou se o bem que pertence ao amor. Aqueles que disseram que o vero da fé é primogênito concluíram a partir da aparência externa e o estabeleceram como primogênito porque ele é primeiro aprendido e deve ser primeiro aprendido, e porque é por ele que o homem é introduzido ao bem. Mas eles ignoraram que o bem seria essencialmente o primogênito, e que, pelo Senhor, ele é insinuado por meio do homem interno, a fim de que este adote e receba o vero que é introduzido por meio do homem externo, e que a vida está pelo Senhor no bem, e que no vero não há outra vida senão a que vem por meio do bem, de sorte que o bem é a alma do vero e ele se apropria e se reveste do vero, como a alma reveste o corpo. Daí se pode ver claramente que, segundo a aparência externa, o vero está no primeiro lugar e, por assim dizer, seja o primogênito quando o homem está sendo regenerado, embora o bem esteja essencialmente no primeiro lugar e seja o primogênito, e é o que acontece também quando o homem foi regenerado; que assim seja, foi visto (n. 3539, 2548, 3556, 3563, 3570, 3576, 3603, 3701).
[3] Como neste capítulo e naqueles que precedem se trata da regeneração do natural, e aqui, de seu primeiro estado, que é o da introdução por meio do vero ao bem, por isso o primeiro filho de Jacó, Rúben, foi nomeado pela expressão “JEHOVAH ver”, o que, no sentido interno, significa a fé procedente do Senhor. A fé, considerada em si, é fé pelo entendimento e fé pela vontade. Saber e entender o vero que pertence à fé é o que se chama‘fé pelo entendimento’, mas querer o vero que pertence à fé é o que se chama ‘fé pela vontade’; aquela, a saber, a ‘fé pelo entendimento’ é a que é significada por ‘Rúben’, enquanto esta, a saber, a ‘fé pela vontade’, é a que é significada por ‘Simeão’. Que a fé pelo entendimento, ou entender o vero, precede a fé pela vontade, ou querer o vero, é o que cada um pode ver. Com efeito, aquilo que é desconhecido pelo homem, como é o bem celeste, é necessário primeiro saber que ele existe e entender o que é antes que se possa querê-lo.
[4] Que ‘ver’, no sentido externo, signifique a vista [ou visão], constata-se sem necessidade de explicação; que ‘ver’, no sentido interior, signifique o entendimento, também se pode constatar, uma vez que a vista [ou visão] do homem interno não é outra coisa senão o entendimento; é também por isso que na linguagem comum o entendimento é chamado vista interna, e que a respeito dele também se predica a luz, assim como da vista externa, e que se chama luz intelectual. Que ‘ver’, no sentido interno, seja a fé procedente do Senhor, é o que se vê no fato que o entendimento não tem outros objetos senão os que pertencem ao vero e ao bem, porquanto estes pertencem à fé. Esse entendimento interior, ou essa vista interna, que tem por objetos os veros que pertencem à fé, não se manifesta assim como o entendimento que tem por objetos os veros que pertencem à vida civil e à vida moral, e o motivo é porque o entendimento interior está por dentro e na luz do céu, luz que está no obscuro enquanto o homem está na luz do mundo; contudo, entre aqueles que foram, entretanto, regenerados, ele se revela principalmente por meio da consciência. Que ‘ver’, no sentido supremo, seja a Previdência, pode-se constatar, pois a inteligência que é predicada do Senhor é a inteligência infinita, que não é outra coisa senão a Previdência.
[5] Que por ‘ver’, a partir do que Rúben recebeu seu nome, significava, no sentido interno, a fé procedente do Senhor, isso é evidente por um grande número de passagens da Palavra, das quais se permite referir estas: Em Moisés:
“Disse JEHOVAH a Moisés: Faze para ti uma serpente, e põe-na sobre a madeira; e acontecerá [que], todo aquele que for mordido, e vi-la, então viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e pô-la sobre a madeira, e aconteceu [que] se uma serpente mordesse um varão, e [ele] olhasse a serpente de bronze, revivia” (Nm. 21:8, 9).
Que a ‘serpente de bronze’ tenha representado o Senhor quanto ao externo, ou o natural, foi visto (n. 197); que o ‘bronze’ seja o natural, n. 425, 1551. Que a fé n’Ele tenha sido representada pelo fato de que aqueles que viram ou olharam, para a serpente reviveram, é o que o Senhor mesmo ensina em João:
“Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, assim convém que seja elevado o Filho do homem, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:14, 15).
[6] Em Isaias:
“O Senhor disse: Vai e dize a este povo: Ouvindo ouvis, mas não entendeis, e vendo vereis, e não conheceis; engorda o coração deste povo, e pesa as orelhas dele, e fecha os olhos dele, para que não veja com os seus olhos, e com as suas orelhas ouça, e o coração dele entenda” (6:9, 10);
que aí ‘ver vendo e não conhecer’ seja entender o que é o vero e, entretanto, não reconhecer, é evidente; e que ‘fechar os olhos, para que não veja com seus olhos’ seja privar do entendimento do vero, e que seja a fé no Senhor que é significada nesta passagem por ‘ver’, vê-se pelas palavras do Senhor em Mateus (13:13, 14), e em João (12:36–37, 39–40).
[7] Em Ezequiel:
“Filho do homem, no meio da casa da rebelião tu habitas, com os que [têm] olhos para ver, mas não veem, os que [têm] orelhas para ouvir, e não ouvem” (12:2);
que ‘têm olhos para ver mas não veem’ significa que eles podem compreender os veros que pertencem à fé, mas não querem, e isso por causa dos males, que são ‘a casa da rebelião’, que induzem uma luz mentirosa sobre os falsos e trevas sobre os veros, segundo estas palavras em Isaias:
“Um povo de rebelião [é] esse, filhos mentirosos, filhos [que] não quiseram ouvir a lei de JEHOVAH; que disseram aos que viam: Não vejais; e aos que tinham visão, não vejais para nós coisas retas; falai-nos de coisas agradáveis, vede ilusões” (30:9, 10).
Em Isaias:
“Este povo, [os] que andavam em trevas viram uma grande luz; [os] que habitavam na terra da sombra da morte, uma luz brilhou sobre eles” (9:1 [Em JFA, 9:2]);
‘ver uma grande luz’ é receber e crer nos veros que pertencem à fé; da luz celeste se diz brilhar sobre os que estão na fé, pois a luz que está no céu é o Divino Vero procedente do Divino Bem.
[8] No mesmo:
“JEHOVAH derramou sobre vós um espírito de sonolência, e fechou os vossos olhos; os profetas, e os vossos cabeças, os videntes, [os] cobriu” (Is. 29:10);
‘fechar os olhos’ é fechar o entendimento do vero, porque os olhos são o entendimento (ver o n. 2701); ‘cobrir os videntes’ é os que sabem e ensinam os veros da fé; os profetas outrora eram chamados videntes; que sejam os que ensinam, então, [que sejam] os veros da doutrina, foi visto (n. 2534). No mesmo:
“O sacerdote e o profeta vagueiam pela bebida forte, vagueiam entre os videntes, tropeçam no juízo” (Is. 28:7);
a mesma significação. Que o ‘juízo em que tropeçam’, seja o vero da fé, foi visto (n. 2235). No mesmo:
“Os olhos dos que veem não pestanejarão, e as orelhas dos que ouvem escutarão” (Is. 32:3);
igualmente.
[9] No mesmo:
“Os teus olhos olharão o Rei na sua beleza; verão a terra dos que estão longe” (Is. 33:17);
‘olhar o Rei na sua beleza’ está em lugar dos veros da fé que procedem do Senhor, eles são chamados ‘belos’ por causa do bem; ‘ver a terra dos que estão longe’ é o bem do amor; que o ‘rei’ seja o vero da fé, foi visto (n. 1672, 2015, 2069, 2915, 3009, 3670); viu-se também que o belo se diz do bem (n. 553, 3038, 3821); que a terra é o bem do amor, n. 620, 636, 3368, 3379. Em Mateus:
“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (5:8);
que ‘ver Deus’ seja crer n’Ele, assim, vê-lo pela fé, é isso evidente; aqueles que de fato estão na fé pela fé veem Deus, pois Deus está na fé, e Deus é isto na fé, o que verdadeiramente é a fé.
[10] No mesmo:
“Se o teu olho te escandalizar, arranca-o; ... bom é para ti cego de um olho entrar na vida do que, tendo dois olhos, ser lançado na gehenna de fogo” (Mt. 18:9);
que aqui o ‘olho’ não seja o olho, e que o olho não deva ser arrancado, é evidente, uma vez que não é o olho que escandaliza, mas é o entendimento do vero, que aqui é o olho (n. 2701). Que seja preferível não saber e não compreender os veros da fé do que sabê-los e compreendê-los e, apesar de tudo isso, viver na vida do mal, é isso que é significado por “bom é entrar cego de um olho na vida do que ter dois olhos e ser lançado na gehenna de fogo”.
[11] No mesmo:
“Bem-aventurados são os vossos olhos, porque veem, e as vossas orelhas, porque ouvem. Amém vos digo que: Muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, mas não viram” (Mt. 13:13 a 17; João, 12:40);
‘ver’ é saber e entender as coisas que pertencem à fé no Senhor, assim, é a fé, pois não é por terem visto o Senhor, nem terem visto os seus milagres, que eles foram bem-aventurados, mas é por terem crido, como se constata por estas palavras em João:
“Disse-vos que também Me vistes e não credes; ... esta é a vontade d’Aquele que Me enviou, que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna. ... Não que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele Que está no Pai284, Este viu o Pai. Amém, amém, vos digo: Quem crê em Mim, tem a vida eterna” (João, 6:36, 40, 46, 47);
‘ver e não crer’ é conhecer os veros da fé e não os receber; ‘ver e crer’ é conhecê-los e recebê-los; ‘Ninguém viu o Pai, senão Aquele que está no Pai’ significa que o Divino Bem não pode ser reconhecido senão pelo Divino Vero; que o Pai é o Divino Bem e o Filho é o Divino Vero, foi visto (n. 3704); assim, o sentido interno é que ninguém pode ver o bem celeste a menos que reconheça o Senhor.
[12] Igualmente no mesmo:
“Deus ninguém viu jamais, o Filho Unigênito, Que está no seio do Pai, Ele [O] expôs” (João, 1:18).
E no mesmo:
“Jesus disse: Quem Me vê, vê Aquele Que Me enviou; Eu, a Luz, vim ao mundo para que todo aquele que crê em Mim não permaneça nas trevas” (João, 12:45, 46);
aí se diz claramente que ‘ver’ é crer ou ter a fé. E no mesmo:
“Jesus disse: Se Me conhecêsseis, também conheceríeis Meu Pai, e desde já O tendes conhecido e O tendes visto; ... quem vê a Mim, vê o Pai285” (João, 14: 7, 9).
No mesmo:
“O espírito de verdade o mundo não pode receber, porque não o vê, e não o conhece. ... Não vos deixarei órfãos, venho a vós: ainda um pouco, quando o mundo não mais Me verá, vós porém Me vereis, porque Eu vivo, e vós vivereis” (João 14:17, 18, 19);
‘ver’ é ter fé; com efeito, o Senhor é visto unicamente por meio da fé, porquanto a fé são os olhos do amor, pois o Senhor é visto desde o amor por meio da fé, o amor é a vida da fé, é por isso que se diz:
“vós Me vereis, porque Eu vivo, e vós vivereis”.
[13] No mesmo:
“Disse Jesus: Eu vim a este mundo para o juízo, a fim de que aqueles que não veem vejam, aqueles que veem, porém, se tornem cegos. Os fariseus disseram: Será que também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fosseis cegos, não teríeis pecado, mas agora dizeis, vemos, por isso o vosso pecado permanece” (João, 9:39, 40, 41);
‘aqueles que veem’ são os que se creem mais inteligentes do que os outros; deles se diz que eles se tornarão cegos, isto é, que não receberão a fé. Que ‘não ver’ ou ‘ser cego’ se diz dos que estão nos falsos, e também dos que estão na ignorância, foi visto (n. 2388). Em Lucas:
“A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, aos restantes, porém, em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não ouçam” (8:10);
semelhantemente. No mesmo:
“Digo-vos: Há alguns aqui presentes que não provarão a morte até que tenham visto o Reino de Deus” (Lc. 9:27; Mc. 9:1);
‘ver o Reino de Deus’ é crer. No mesmo:
“Jesus disse aos discípulos: Virão dias, quando desejareis ver um dos dias do Filho do homem, mas não vereis” (Lc. 17:22);
aí se trata da consumação do século, ou do último tempo da igreja, quando não há mais fé alguma.
[14] No mesmo:
“Aconteceu que, quando Jesus estava à mesa com eles, tomando o pão abençoou-o, e partindo deu-lhes286; e os olhos deles foram abertos, e O conheceram” (Lc. 24:30, 31”;
por este fato foi significado que o Senhor se manifesta pelo bem, mas não pelo vero sem o bem, pois o pão é o bem do amor (n. 276, 680, 2165, 2177, 3478, 3735, 3813); por essas passagens e por muitas outras, vê-se que ‘ver’, no sentido interno, é a fé procedente do Senhor, pois não existe outra fé que seja fé senão a que procede do Senhor; é essa também que dá ao homem ver, isto é, crer; mas a fé que é procedente de si, ou do proprium do homem, não é a fé, porque esta faz ver os falsos como veros e os veros como falsos, e se ela faz ver os veros como os veros, o homem contudo não os vê, porque não crê, porquanto ele vê a si próprio neles e não o Senhor.
[15] Que ‘ver’ seja ter a fé no Senhor, é o que se pode ver manifestamente pelas coisas que muitas vezes foram ditas sobre a luz do céu, a saber, que a luz do céu, pelo fato de proceder do Senhor, tem consigo a inteligência e a sabedoria, por conseguinte, a fé no Senhor, pois a fé no Senhor está interiormente na inteligência e na sabedoria por essa razão: que ‘ver a partir dessa luz’, como os anjos veem, não pode significar outra coisa senão a fé no Senhor. O Senhor mesmo também está nessa luz, porque ela procede do Senhor; é ainda essa luz que brilha na consciência dos que têm a fé no Senhor, embora o homem não o saiba enquanto vive no corpo, pois então a luz do mundo obscurece aquela luz.

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