. ‘Então se alguém vos disser: Eis aqui está o Cristo, ou ali; não creiais’ significa a exortação a fim de que se tome cautela a respeito da doutrina deles. O ‘Cristo’ é o Senhor quanto ao Divino Vero, portanto, é o Senhor quanto à Palavra e quanto à Doutrina proveniente da Palavra; que aqui seja o contrário, a saber, o Divino Vero falsificado ou a doutrina do falso, isso é evidente. Que ‘Jesus’ seja o Divino Bem, e ‘Cristo’, o Divino Vero, foi visto (n. 3004, 3005, 3008, 3009). [2] ‘Surgirão, pois, falsos Cristos e falsos profetas’ significa os falsos dessa doutrina. Que os ‘falsos Cristos’ sejam as coisas doutrinais provenientes da Palavra falsificada, ou veros não Divinos, isso é evidente pelo que foi dito logo acima (n. 3010, 3732 no fim); e que os ‘falsos profetas’ sejam os que ensinam esses falsos, n. 2531. Os que ensinam os falsos são, no mundo Cristão, principalmente os que têm como propósito a sua própria excelência, depois a opulência do mundo, pois estes pervertem em seu favor os veros da Palavra. De fato, quando se tem por fim o amor de si e o amor do mundo, não se pensa em outra coisa mais; são esses os falsos Cristos e os falsos profetas. [3] ‘E farão grandes sinais e prodígios’ significa confirmando e persuadindo por aparências externas e falácias, pelas quais os simples se deixam seduzir. Que essas coisas sejam dar sinais e prodígios, é o que, pela Divina Misericórdia do Senhor, se mostrará em outro lugar. [4] ‘A fim de que seduzam, se possível, até os eleitos’ significa aqueles que estão na vida do bem e do vero e, por isso, no Senhor; são estes que na Palavra são chamados eleitos; estes raramente se mostram na reunião dos que encobrem um culto profano sob um culto santo, ou, se aparecem, raramente são conhecidos, pois o Senhor os esconde e assim os põe em segurança. Com efeito, antes que tenham sido confirmados, eles se deixam levar facilmente pelas santidades externas, mas depois que foram confirmados, eles permanecem firmes, porquanto eles são mantidos pelo Senhor na consociação dos anjos — o que eles próprios ignoram — e, então, é impossível que sejam seduzidos por essa turba nefanda. [5] ‘Eis, [Eu] predisse para vós’ significa a exortação à prudência, a saber, que eles se acautelem, uma vez que estão no meio dos falsos profetas, que se mostram com vestimentas de ovelhas, mas que interiormente são lobos devoradores (Mateus 7:15). Esses falsos profetas são os ‘filhos do século’, que são mais prudentes, isto é, mais experientemente astuciosos do que os ‘filhos da luz’ em sua geração e dos quais se fala em Lucas (16:8); é por isso que o Senhor exorta a estes por estas palavras: “Eis, Eu vos envio como ovelhas ao meio de lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes, e simples como as pombas” (Mateus 10:16). [6] ‘Se, portanto, disserem a vós: Eis no deserto está, não saiais; eis, nas câmaras, não acrediteis’ significa que não se deve crer o que eles falam a respeito do vero, nem o que dizem a respeito do bem, nem muitas outras coisas. Que sejam essas as coisas que são significadas, ninguém pode ver exceto quem conhecer o sentido interno. Que um arcano esteja contido nessas palavras é o que se pode saber pelo fato de que o Senhor as pronunciou, e que, sem outro sentido interiormente escondido, é alguma coisa de nada, a saber, de não sair se disserem que o Cristo está no deserto, e de não acreditar se se disser que Ele está nas câmaras; mas é o vero devastado que é significado pelo ‘deserto’, e é o bem devastado que é significado pelas câmaras (ou os lugares mais recônditos). Que o vero devastado seja significado pelo ‘deserto’, vem isso de que, quando a igreja foi devastada, isto é, quando não há mais nada [de] vero algum Divino [nela], por não haver mais bem algum, ou que não há mais amor ao Senhor nem caridade para com o próximo, então se diz que ela é um deserto, ou está no deserto, porque pelo deserto se entende tudo que não é cultivado ou não habitado (n. 2708), então o que tem pouco vital (n. 1927), como está então o vero na igreja. [7] Daí é evidente que o ‘deserto’ aqui seja a igreja em que não há o vero. A câmara (ou que é mais recôndito) significa, no sentido interno, a igreja quanto ao bem, então simplesmente o bem. A igreja que está no bem é denominada a ‘casa de Deus’. A ‘câmara’ [ou o quarto mais retirado] são os bens e as coisas que estão na casa. Que a ‘casa de Deus’ seja o Divino Bem, e a ‘casa’ em geral, o bem que pertence ao amor e à caridade, foi visto (n. 2233, 2234, 2559, 3142, 3652, 3720). Que não se deva crer o que eles dizem sobre o vero nem o que eles dizem sobre o bem, é porque eles chamam de vero o falso, e de bem o mal, porquanto os que têm em vista a si próprios e o mundo não compreendem por vero e bem outra coisa senão que eles próprios devem ser adorados e que eles próprios devem ser beneficiados [isto é, que se deve fazer bem a eles próprios]; e, se inspiram a piedade, é para se mostrarem com vestimentas de ovelhas. [8] Além disso, porque a Palavra, que o Senhor pronunciou, contém em si inumeráveis coisas, e como o deserto é uma palavra de ampla significação, pois tudo que não é cultivado nem habitado é chamado deserto, e que todas as coisas que são interiores são denominadas câmaras; por isso também pelo deserto é significada a Palavra do Antigo Testamento, pois essa Palavra é considerada revogada, e pela câmara é significada a Palavra do Novo Testamento, porque ela ensina os interiores ou o que diz respeito ao homem interno. Igualmente ainda toda a Palavra é chamada deserto quando não serve mais para as coisas doutrinais, e são chamadas câmaras as instituições humanas que, pelo fato de se afastarem dos preceitos e das instituições da Palavra, fazem com que a Palavra seja um deserto; como também se conhece no mundo cristão, porquanto os que estão em um culto externo santo e em um culto interno profano, por causa das inovações que têm por alvo a sua elevação acima de todos e a sua opulência acima de todos, revogam a Palavra e até mesmo a tal ponto, que eles não permitem que ela seja lida pelos outros. E os que não estão neste culto profano, embora considerem a Palavra como santa e permitam que o vulgo a leia, mesmo assim fazem-na dobrar e a explicam segundo os seus doutrinais, o que faz com que na Palavra todas as outras coisas que não estão de acordo com os seus doutrinais sejam um deserto, como se pode ver claramente pelos que põem a salvação na fé e desprezam as obras da caridade; esses fazem como um deserto tudo que o Senhor mesmo disse no Novo Testamento, e tantas vezes foram ditas no Antigo Testamento a respeito do amor e da caridade; e de todas as coisas que pertencem à fé sem as obras eles fazem o aposento mais recôndito [ou câmaras]. Sendo assim, claramente se vê o que é significado por “Se vos disserem: Eis no deserto está, não saiais; eis nas câmaras, não acrediteis” [9] ‘Como, pois, o relâmpago sai do oriente e aparece até o ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem’ significa que assim acontecia com o culto interno do Senhor, como com o relâmpago, que imediatamente se dissipa. Com efeito, o ‘relâmpago’ significa o que pertence à luz celeste, por conseguinte, o que se diz do amor e da fé, pois o amor e a fé pertencem à luz celeste. O ‘oriente’, no sentido supremo, é o Senhor; no sentido interno, é o bem do amor, da caridade e da fé procedente do Senhor (ver n. 101, 1250, 3249). O ‘ocidente’, por sua vez, é, no sentido interno, o que morreu ou o que cessou de ser, assim, o não reconhecimento do Senhor nem do bem do amor, da caridade e da fé; assim, o ‘relâmpago que sai do oriente e aparece até ao ocidente’ é a dissipação. A vinda do Senhor não é segundo a letra, que Ele aparecerá uma segunda vez no mundo, mas é a Sua presença em cada um, presença que se repete tantas vezes quantas o Evangelho é pregado e que o pensamento se dirige sobre o que é santo. [10] ‘Onde, pois, estiver o cadáver, ali se reunirão as águias’ significa que as confirmações do falso pelos raciocínios se multiplicarão na igreja devastada. Quando a igreja está sem o bem e, por conseguinte, sem o vero da fé, ela se diz morta, pois a sua vida procede do bem e do vero; por isso, quando está morta, ela é comparada a um cadáver. Os raciocínios sobre os bens e os veros que eles não existem senão o quanto são compreendidos e as confirmações do mal e do falso por tais raciocínios, são as ‘águias’, como é possível ver pelo que vai seguir. Que aqui o ‘cadáver’ seja a igreja sem a vida da caridade e da fé, é isso evidente pelas palavras do Senhor, onde se trata da consumação do século, em Lucas: “Os discípulos diziam: Onde, Senhor?” a saber, onde se fará a consumação do século ou o juízo final? Jesus disse-lhes: “Onde estiver o corpo, ali se reunirão as águias” (Lc. 17:37); Aí o ‘corpo’ está em lugar do cadáver, visto que é o corpo morto que se entende aqui, e significa a igreja, pois se vê aqui e ali, na Palavra, que o juízo deve começar pela casa de Deus, ou a igreja. Eis o que significam as palavras do Senhor agora referidas e explicadas no sentido interno; quem as contemplar na conexão segundo a explicação pode ver que elas estão em uma belíssima serie, ainda que pareça não estar assim no sentido da letra.