. Que o último estado da igreja foi comparado às águias que se ajuntam sobre um cadáver ou um corpo, é porque as águias significam as coisas racionais do homem, que quando se dizem dos bons, são racionais veros, mas quando se dizem dos maus, são racionais falsos, ou raciocínios. Em geral as aves significam os pensamentos do homem também em um e outro sentido (n. 40, 745, 776, 866, 991, 3219), e cada espécie alguma coisa de particular; algumas, pelo fato de terem um voo elevado e uma vista penetrante, as coisas racionais. Que assim seja, pode-se ver por muitas passagens na Palavra, das quais se permite referir as seguintes para confirmação: Primeiro onde as aves significam os racionais veros: Em Moisés: “JEHOVAH achou o Seu povo na terra do deserto, e no vazio, na lamentação, na solidão; conduziu-o ao redor, instruiu, guardou-o como a menina dos olhos, como a águia desperta o seu ninho, move-se sobre os filhotes, estende as suas asas, toma-o, leva-o sobre a sua asa” (Dt. 32:10, 11); é a instrução nos veros e nos bens da fé que é aqui descrita e comparada à águia; a progressão mesma, até que o homem se torne racional e espiritual, está contida nessa descrição e nessa comparação. Na Palavra todas as comparações se fazem por meio de coisas significativas, por isso aqui a comparação é feita com a águia, que é o racional. [2] No mesmo: “JEHOVAH [disse] a Moisés: Vós vistes, o que fiz aos egípcios, e que vos trouxe sobre asas de águias, para trazer-vos a Mim” (Êxodo 19:3, 4); mesma significação. Em Isaias: “Os que esperam em JEHOVAH serão renovados em força, subirão com uma asa forte como as águias, correrão e não se cansarão, andarão e não se fatigarão” (40:31); ‘ser renovado em força’ está por crescer quanto a querer o bem; ‘subir com uma asa forte como as águias’ é crescer quanto a entender o vero, assim, quanto ao racional; a coisa é exposta aqui, como em outras passagens, por duas expressões, das quais uma envolve o bem que pertence à vontade, e a outra o vero que pertence ao entendimento; o mesmo se dá com o ‘correr sem se cansar’ e o ‘andar sem se fatigar’. [3] Em Ezequiel: “Uma parábola paraboliza sobre a casa de Israel, e diz: Assim diz o SENHOR JEHOVIH: A águia grande, ... longa de penas, cheia de plumagens, de várias cores, veio sobre o Líbano, e tomou um raminho de cedro; ... levou-o a uma terra de comércio, em uma cidade de perfumadores [a] pôs, ... germinou e tornou-se uma videira vistosa. ... Havia outra águia grande, grande de asas e cheia plumagens, para a qual, eis essa videira aplicava as suas raízes, e os seus ramos estendia para ela, a fim de irrigá-la dos canteiros das suas plantações em um campo bom, perto de muitas águas, ... mas será devastada. ... Enviou os seus embaixadores ao Egito para dar a si cavalos e muito povo” (17:2 ao 9, 15); A ‘águia’ mencionada em primeiro lugar é o racional esclarecido pelo Divino; a ‘águia’ mencionada em segundo lugar é o racional proveniente do proprium, que se tornou depois pervertido por meio dos raciocínios que vêm das coisas dos sentidos e dos conhecimentos; o ‘Egito’ significa os conhecimentos (n. 1164, 1165, 1186, 1462); os ‘cavalos’ são o intelectual que daí provém (n. 2761, 2762, 3217). [4] Em Daniel: “Visão de Daniel: Quatro bestas subiram do mar, estas diferentes da outra; a primeira como um leão, mas tinha ela asas de águia; estive vendo até que as asas dela foram arrancadas e que a elevou da terra, e que sobre os pés como um homem ficou ereta, e que um coração de homem se lhe deu” (Dn. 7:3, 4); é o primeiro estado da igreja que é descrito por meio de leão tendo asas de águia, e aí as ‘asas de águia’ são os raciocínios que vêm do proprium; as asas tendo sido arrancadas, as coisas racionais e voluntárias provenientes do Divino foram dadas, o que é significado nisso, que ela se elevou da terra e ficou erguida sobre os pés como um homem, e que um coração de homem se lhe deu. [5] Em Ezequiel: “A semelhança das faces dos quatro animais, ou querubins, [era como] a face de homem e ao lado direito aqueles quatro [tinham] face de leão, e ao lado esquerdo aqueles quatro [tinham] face de boi; e [tinham] face de águia aqueles quatro” (1:10). “[...] às rodas deles se chamava Galgal. E cada um tinha quatro faces; a face do primeiro era face de querubim, e a face do segundo, face de homem, e do terceiro, face de leão, e do quarto, face de águia” (10:13, 14). Em João: “Em redor do trono quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás; o primeiro animal semelhante a um leão, o segundo animal semelhante a um bezerro, o terceiro animal tinha a face como um homem, o quarto animal semelhante a uma águia que voa” (Apocalipse 4:7); que os animais que foram vistos signifiquem os arcanos Divinos, por conseguinte, que pela semelhança das faces deles, vê-se; mas não é possível saber quais são esses arcanos se se ignora o que significam no sentido interno o ‘leão’, o ‘bezerro’, o ‘homem’ e a ‘águia’. Que a ‘face da águia’ seja a circunspecção e, portanto, Providência, é evidente, pois os ‘querubins’, que foram representados pelos animais em Ezequiel, significam a Providência do Senhor, a fim de que o homem, por si próprio e pelo seu racional, não entre nos mistérios da fé (ver n. 308); daí é ainda evidente que, no sentido interno, a ‘águia’, quando predicada do homem, é o racional, e isso porque a águia voa alto, e que da posição superior se olha mais amplamente as coisas que estão embaixo. [6] Em Jó: “Será por tua inteligência que voa o gavião? [que ele] estende as asas para o sul? Será segundo a tua boca que se eleva a águia e que exalta o seu ninho?” (39:26, 27); aqui é evidente que a águia é a razão, que pertence à inteligência; a águia tinha essa significação na Igreja Antiga, pois o livro de Jó é um livro da Igreja Antiga (n. 3540 no fim). Com efeito, os livros desse tempo eram quase todos escritos por meio de coisas significativas, mas essas coisas significativas, no passar do tempo, foram de tal modo obliteradas, que nem sequer se sabe que as aves sejam em geral os pensamentos, ainda que na Palavra elas sejam tantas vezes mencionadas, e que aí seja bem manifesto que elas significam outra coisa. [7] Que a ‘águia’, no sentido oposto, signifique coisas racionais não verdadeiras, portanto, os falsos, isso é evidente pelas passagens seguintes: Em Moisés: “JEHOVAH levantará contra Ti uma nação de longe, da extremidade da terra, assim como voa a águia, uma nação de que não entendes a língua, nação dura de faces” (Dt. 28:49, 50). Em Jeremias: “Eis que subirá [como] nuvens, e os seus carros, como a tormenta; os seus cavalos serão mais ligeiros do que as águias. Aí de nós, porque somos devastados!” (4:13). No mesmo: “A tua jactância te enganou, a soberba do teu coração, [tu] que habitas nas cavidades das rochas, que ocupas a altura da colina, porque [te] elevas como águia o teu ninho, daí precipitar-te-ei. Eis como a águia sobe e voa, e estende as suas asas sobre Bozra, e tornou-se o coração dos poderosos de Edom, nesse dia [será] como o coração de uma mulher que [está] na angústia” (Jr. 49:16, 17, 22). No mesmo: “Ligeiros foram os nossos perseguidores mais do que as águias; sobre as montanhas perseguiram-nos, no deserto armaram-nos ciladas” (Lm. 4:19). Em Miquéias: “Vista a calvície, e apara-te, sobre os filhos das tuas delícias; alarga a calvície como a águia, porque migraram para ti” (1:16). Em Obadias: “Se te exaltaras como a águia, e se entre estrelas puseras o teu ninho, daí arrancar-te-ei” (vers. 4). Em Habacuque: “Eu excito os caldeus, nação amarga e precipitada, caminhando nas larguras da terra, para herdar os habitáculos não seus, ... cujos cavalos são mais leves que as águias293, ... os seus cavaleiros virão de longe, voarão como uma águia apressando-se paracomer” (1:6, 8). [8] Nessas passagens, pelas ‘águias’ é significada a falsidade induzida pelos raciocínios, que são induzidos a partir das falácias dos sentidos e das aparências externas. E no Profeta citado em último lugar, pelos ‘caldeus’ são significados aqueles que estão em uma santidade externa, mas interiormente no falso (ver n. 1368). Que esses, como Babel, sejam os quem vastam a igreja, foi visto (n. 1327). Que as ‘larguras da terra’ sejam os veros, n. 3433, 3434. A vastação deles é significada por ‘caminhando nas larguras da terra’. Que os cavalos sejam as coisas intelectuais daqueles que são semelhantes, foi visto (n. 2761, 2762, 3217). Daí se vê que a ‘águia que se apressa para comer’ é para desolar o homem em relação aos veros, porque se trata aí da desolação da igreja. As comparações são feitas com as águias, mas, como foi dito, as comparações na Palavra se fazem por meio de coisas significativas. Agora se vê claramente o que é significado pela comparação com as águias que se reuniram sobre o cadáver. * * * * * * *