Texto
. ‘E disse: Eis minha criada, Bilhah’; que signifique o intermediário que afirma, que está entre o vero natural e o vero interior, é o que se pode ver pela significação da ‘serva’, que é a afeição das cognições que pertencem ao homem exterior (n. 1895, 2567, 3849); e porque essa afeição é o meio de conjungir os veros interiores com os veros naturais, ou externos; por isso aqui a ‘serva’ significa o intermediário que afirma entre eles; e pela representação de ‘Bilhah’, que é a qualidade desse intermediário. Pelas servas dadas como mulheres a Jacó por Leah e Raquel para que procriassem filhos [sobolem], nenhuma outra coisa foi representada e significada no sentido interno, senão tal coisa que serve, aqui, que serve como meio de conjunção, a saber, entre o vero interior e o vero externo, visto que Raquel representa o vero interior, e Leah representa o vero externo (n. 3793, 3819). Com efeito, pelos doze filhos de Jacó, trata-se aqui das coisas gerais ou cardeais295, por meio das quais o homem é iniciado nas coisas espirituais e celestes quando está sendo regenerado, ou seja, quando está se tornando igreja. Com efeito, quando o homem está sendo regenerado ou se tornando igreja, isto é, quando de homem morto ele se torna vivo, ou que de corporal ele está se tornando celeste, ele é conduzido pelo Senhor por vários estados. São os estados gerais que são designados por esses doze filhos, e depois pelas doze tribos; é por isso que as doze tribos significam todas as coisas da fé e do amor, como foi demonstrado no n. 3858. Com efeito, as coisas gerais envolvem todas as coisas particulares e todas as singulares, e estas se referem àquelas.
[2] Quando o homem é regenerado, então o homem interno deve ser conjungido com o homem externo, por conseguinte, os bens e veros que pertencem ao homem interno com os bens e veros que pertencem ao homem externo, porquanto é em razão dos veros e bens que o homem é homem. Esses veros e bens não podem ser conjungidos sem os intermediários; os intermediários são coisas tais que tiram alguma coisa de uma parte e alguma coisa da outra parte, e essas coisas fazem que quanto mais o homem se aproxima de uma parte, tanto mais a outra é subordinada; são esses intermediários que são significados pelas servas: os intermediários da parte do homem interno pelas servas de Raquel, e os intermediários da parte do homem externo pelas servas de Leah.
[3] Que deva haver o intermediário [ou meio] de conjunção, pode-se ver pelo fato de que o homem natural por si mesmo não concorda de modo algum com o homem espiritual, mas está em tão grande discordância, que lhe é absolutamente oposto. Com efeito, o homem natural não visa e não ama senão a si próprio e o mundo; o espiritual por sua vez não visa a si e o mundo, só os têm em consideração tanto quanto isso contribui a estender os usos no mundo espiritual, assim, ele visa o seu serviço e o ama pelo uso e o fim. O homem natural crê ter a vida quando ele é elevado às dignidades, por conseguinte, à proeminência sobre os outros; mas o homem espiritual crê ter a vida na humilhação e no fato de ser o menor. Ele, porém, não despreza as dignidades, contanto que por elas, como por esses meios, ele possa servir ao próximo, à sociedade geral e à igreja, e se ele reflete sobre as dignidades a que é elevado, não é por causa de si, mas por causa dos usos que são para ele os fins. O homem natural está em sua bem-aventurança quando, mais do que os outros, ele é opulento e possui as riquezas do mundo; mas o homem espiritual está em sua bem-aventurança quando ele está nas cognições do vero e do bem, que são para ele a opulência, e muito mais ainda quando ele está no exercício do bem conforme os veros; todavia, ele não despreza também a opulência, porque por meio dela ele pode estar no exercício [do bem], e no mundo.
[4] A partir dessas poucas explicações se pode ver que os estados do homem natural e do homem espiritual são em si opostos pelos fins, mas que, apesar disso, eles podem ser conjungidos, o que sucede quando as coisas que pertencem ao homem externo foram subordinadas e servem aos fins do homem interno. Para que, pois, o homem se torne espiritual, é necessário que as coisas pertencentes ao homem externo sejam reduzidas à obediência; assim, os fins para ele e para o mundo devem ser rejeitados, e ele deve revestir os fins para o próximo e para o Reino do Senhor; aqueles não podem de modo algum ser rejeitados, nem estes ser revestidos, assim, só podem ser conjungidos pelos meios [ou intermediários]; esses intermediários são o que é significado aqui pelas servas, e especificamente pelos quatro filhos nascidos das servas.
[5] O Primeiro intermediário é o que afirma, ou o afirmativo do vero interno, a saber, o afirmativo que a coisa é assim; quando o afirmativo se efetua, então o homem está no começo da regeneração, o bem que procede do interno opera e faz a afirmação. Esse bem não pode influir no negativo, nem mesmo no dubitativo, antes que isso se torne afirmativo; esse bem depois se manifesta pela afeição, a saber, pelo fato de ser o homem afetado pelo vero, ou por começar a se deleitar com ele, primeiro nisto, que o conhece, depois nisto, que aja conforme ele; seja, por exemplo, que o Senhor é a salvação do gênero humano. A não ser que isto se torne afirmativo pelo homem, todas as coisas que aprendeu a respeito do Senhor a partir da Palavra ou na igreja, e que estão entre os conhecimentos na memória de seu homem natural, não podem ser conjungidas com seu homem interno, isto é, com as coisas que aí podem pertencer à fé, assim, não podem influir na afeição, nem mesmo nos gerais dessas coisas que contribuem para a salvação do homem. Quando, porém, isso se torna afirmativo, então inúmeras coisas sobrevêm e se enchem do bem que influi, pois o bem influi continuamente do Senhor, mas onde não há o afirmativo ele não é recebido. O afirmativo é, portanto, o primeiro meio e como que o primeiro habitáculo do bem que influi do Senhor. O mesmo acontece com todas as restantes coisas das quais se diz pertencerem à fé.