. ‘E disse Leah: Vem uma turma’; que signifique, no sentido supremo, a Onipotência e a Onisciência, no sentido interno, o bem da fé, no sentido externo, as obras, é o que se vê pela significação de ‘uma turma’, aqui. Que ‘turma’, no sentido supremo, seja a Onipotência e a Onisciência, é porque aqui ‘uma turma’ é uma multidão, e a ‘multidão’, quando se predica essa palavra do Divino do Senhor, é uma multidão infinita, que não é outra coisa senão a Onipotência e a Onisciência. Contudo, predica-se a Onipotência a partir da quantidade que pertence à grandeza, e predica-se a Onisciência a partir da quantidade que pertence à multidão296; então a Onipotência se diz do bem infinito, ou, o que é o mesmo, do Divino Amor, assim, da Divina Vontade; a Onisciência, por sua vez, se diz do vero infinito, ou, o que é o mesmo, da Divina Inteligência. Que a ‘turma’, no sentido interno, seja o bem da fé, é pela correspondência, pois a Onipotência Divina do Senhor corresponde ao bem, que pertence à caridade; e a Onisciência ao vero, que pertence à fé. [2] Que, no sentido externo, a ‘turma’ sejam as obras, é porque as obras correspondem ao bem da fé; com efeito, o bem da fé produz as obras, pois o bem da fé não pode existir sem as obras, assim como pensar o bem e querer o bem não pode existir sem fazer o bem297. Pensar e querer são o interno, e fazer é o externo correspondente; e mais, eis o que acontece em relação às obras: As obras, a não ser que correspondam ao bem da fé, não são obras da caridade nem obras da fé, pois não vêm de seu interno, mas são obras mortas nas quais não há bem nem vero; mas quando elas correspondem, então são obras ou da caridade ou da fé. As obras da caridade são as que fluem da caridade como de sua alma, as obras da fé por sua vez são as que fluem da fé; aquelas, a saber, as obras da caridade, estão no regenerado, mas as obras da fé estão com aquele que ainda não foi regenerado, mas que será regenerado. Dá-se com essas obras o que se dá com as afeições, a saber, com a afeição do bem e com a afeição do vero; o regenerado faz o bem pela afeição do bem, assim, a partir do querer o bem, mas o homem que deve ser regenerado faz o bem pela afeição do vero, assim a partir do saber o bem; mostrou-se muitas vezes antes qual é a diferença; daí se vê o que são as obras. [3] Além disso, dá-se com o bem da fé, em relação às obras, o que se dá com a vontade do homem e com o pensamento proveniente da vontade em relação à sua face. Ora, sabe-se que a face é a imagem da mente [animi], isto é, da vontade do homem e do pensamento proveniente de sua vontade; se a vontade e o pensamento não se manifestam na face como em sua imagem, então não é a vontade nem o pensamento que se apresentam, mas é a hipocrisia ou o dolo [ou velhacaria], porque o homem apresentou uma face que difere do que ele quer e do que ele pensa. O mesmo acontece com todo ato do corpo relativamente aos interiores que pertencem ao pensamento e à vontade: o interno do homem vive em seu externo pelo ato ou pelo agir, se o ato ou o agir não for segundo o seu interno, é um indício de que, ou não é o interno que produz o ato, mas é um movimento proveniente de um costume ou de um hábito, ou é alguma coisa mentirosa tal como a que existe na hipocrisia ou no dolo. Sendo assim, vê-se mais uma vez o que são as obras. Daí resulta que aquele que professa a fé, e mais ainda se for o bem da fé, e que nega as obras, e ainda mais se as rejeita, está sem fé e ainda mais sem caridade. [4] Como são essas as obras da caridade e da fé, e que o homem nunca está na caridade e na fé se não estiver nas obras, é por isso que na Palavra as obras são mencionadas tantas vezes, como se pode ver pelas passagens seguintes: Em Jeremias: “Os teus olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos do homem, para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo os frutos das suas obras” (32:19). No mesmo: “Desviai-vos cada um do seu caminho do mal, e fazeis boas as vossas obras” (Jr. 35:15). No mesmo: “Restituir-lhes-ei segundo a obra deles e segundo a obra das mãos deles” (Jr. 25:14). Em Oseas: “Visitarei sobre eles os seus caminhos, e as suas obras retribuir-lhes-ei” (4:9). Em Miquéias: “Será a terra em desolação sobre os habitantes dela, por causa dos frutos das suas obras” (7:13). Em Zacarias: “Assim disse JEHOVAH Zebaoth: Desviai-vos dos vossos caminhos maus e das vossas obras más. ... Pensou JEHOVAH Zebaoth fazer-nos segundo os nossos caminhos, e segundo nossas obras, assim fez a nós” (1:4, 6). Em João: “Bem-aventurados os mortos que no Senhor morrem desde agora, sim diz o espírito, para que descansem dos [seus] trabalhos, [pois] as suas obras os seguem” (Ap. 14:13). [5] No mesmo: “Vi os mortos pequenos e grandes, estando diante de Deus, e os livros foram abertos; e um outro livro foi aberto, que é o da vida; e os mortos foram julgados conforme as coisas que [estavam] escritas nos livros, segundo as obras deles. Deu o mar os que [estavam] nele mortos, e a morte e o inferno deram aqueles que neles [estavam] mortos; e assim foram julgados cada um segundo as suas obras” (Ap. 20:12, 13). No mesmo: “Eis que cedo venho, [e] Minha recompensa [está] comigo, para dar a cada um segundo a sua obra” (Ap. 22:12). Em JoãoEvangelista: “Este é o juízo: Que a Luz veio ao mundo, mas os homens preferiram mais as trevas do que a luz, porquanto eram más as obras deles. Todo aquele que faz más [obras], odeia a luz, e não vem à luz, para que não sejam censuradas as suas obras; quem, porém, faz a verdade vem à luz, para que sejam manifestadas as suas obras, porque em Deus foram feitas” (João 3:19, 20, 21). No mesmo: “Não pode o mundo vos odiar, a Mim, porém, odeia, porque Eu dou testemunho a respeito dele, que as obras deles são más” (João 7:7). No mesmo: “[...] Jesus [disse] aos judeus: Se fosseis filhos de Abrahão, as obras de Abrahão faríeis; [...] vós fazeis as obras do vosso pai. [...]” (João 8:39, 41). No mesmo: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (13:17). [6] Em Mateus: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras. Quem faz e ensina, esse é chamado grande no Reino dos céus” (Mt. 5:16, 19). No mesmo: “Não é todo aquele que Me diz: Senhor, Senhor, [que] entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Meu Pai, Que está nos céus. Muitos Me dirão nesse dia: Senhor, Senhor, pelo Teu Nome não profetizamos? E pelo Teu Nome não expulsamos demônios? E no Teu Nome não fizemos muitas virtudes? Mas então lhes confessarei: Não vos conheço, apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade” (7:21–23). Em Lucas: “O pai de família respondendo, disse-lhes: Não vos conheço; de onde sois? Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti e bebemos, nas nossas praças ensinaste. Mas dirá: Digo-vos, não vos conheço de onde sois, apartai-vos de Mim todos os obreiros da iniquidade” (Lc. 13:25, 26, 27). Em Mateus: “Todo aquele que ouve as minhas palavras e as faz, compararei a um varão prudente; ... mas todo aquele que ouve as minhas palavras, mas não as faz, será comparado a um varão insensato” (7:24, 26). No mesmo: “Virá o Filho do homem na glória do Seu Pai com os Seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Mt. 16:27). [7] Por todas essas passagens, é evidente que são as obras que salvam o homem e que condenam o homem, a saber, que as boas obras salvam e que as más condenam. Com efeito, nas obras está o querer do homem; quem quer o bem, esse faz o bem; mas que não faz o bem, ainda que diga que quer o bem, ele ainda não o quer quando não o faz; é como se ele tivesse dito: ‘Quero isso, mas não quero’. E porque a vontade mesma está nas obras, e que a caridade pertence à vontade, e a fé, à caridade, claramente se vê o que há de vontade, ou o que há de caridade e de fé no homem, quando ele não faz [as boas obras], e com mais forte razão quando ele faz obras contrárias, a saber, as más obras. [8] Além disso, deve-se saber que o Reino do Senhor no homem se inicia pela vida que pertence às obras, porque então o homem está no começo da regeneração; mas quando o Reino do Senhor está no homem, esse Reino termina nas obras, e então o homem foi regenerado. Com efeito, o homem interno então fica de um modo correspondente no homem externo; e as obras pertencem ao homem externo, mas a caridade e a fé proveniente da caridade pertencem ao homem interno, razão por que então as obras estão na caridade. Como nas obras do homem externo existe assim a vida do homem interno, é por isso que o Senhor, onde se trata do Juízo Final (em Mateus 25:32–46), não recenseia nada mais do que as obras, e declara que os que fizeram boas obras entrarão na vida eterna, e que os que fizeram más obras entrarão na danação. A partir das coisas que foram ditas se pode ver ainda o que significa o que se lê de João, “que se tinha inclinado ao peito e no seio de Jesus, e que [Ele] o amava mais do que os outros (João 13:23, 24; 21:20); com efeito, João representava as boas obras (ver pref. ao cap. 18 e pref. ao cap. 22 de Gênesis). Em outro lugar, pela Divina Misericórdia do Senhor, se dirá mais plenamente o que são as obras da fé, que podem também pela aparência se chamar frutos da fé, e o que são as obras da caridade.