ac 3938

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E disse Leah: Em minha bem-aventurança, porque as filhas me terão-por-bem-aventurada’; que signifique, no sentido supremo, a eternidade, no sentido interno, a felicidade da vida eterna, no sentido externo, o prazer das afeições, é o que se vê pela significação da ‘bem-aventurança’ e pela significação de ‘as filhas me terão por bem-aventurada’. Que no sentido supremo a ‘bem-aventurança’ seja a eternidade, não é possível vê-lo a não ser pela correspondência com as coisas que estão no homem, pois as coisas que são Divinas, ou que são Infinitas, não podem ser compreendidas senão por meio das coisas finitas, das quais o homem pode ter uma ideia. Sem uma ideia proveniente das coisas finitas e principalmente sem a ideia proveniente das coisas que pertencem ao espaço e ao tempo, o homem nada pode compreender das coisas Divinas, e menos ainda do infinito. O homem não pode, sem a ideia do espaço e do tempo, sequer pensar alguma coisa (n. 3404), pois ele está no tempo quanto ao corpo, assim, quanto aos pensamentos que provêm das coisas sensuais externas. Os anjos, porém, não estando no tempo nem no espaço, têm ideias do estado; daí vem que os espaços e os tempos, na Palavra, signifiquem os estados (ver n. 1274, 1382, 2625, 2788, 2837, 3254, 3356, 3827).
[2] No entanto, há dois estados, a saber, o estado que corresponde ao espaço, e o estado que corresponde ao tempo; o estado que corresponde ao espaço é o estado quanto ao ser, e o estado que corresponde ao tempo é o estado quanto ao existir (n. 2625). Com efeito, há duas coisas que fazem o homem, a saber, o ser e o existir; o ser do homem não é outra coisa senão um recipiente do eterno que procede do Senhor, porquanto os homens, os espíritos e os anjos não são nada mais do que recipientes ou formas recipientes da vida procedente do Senhor; é da recepção da vida que se predica o existir; o homem crê que ele é, e até mesmo que ele é por si próprio, quando todavia ele não é por si próprio, mas ele existe, assim como foi dito. O SER existe no Senhor somente, e é o que é chamado JEHOVAH; oriundas do SER, que é JEHOVAH, vêm todas as coisas que se mostram como se elas fossem; mas o Ser do Senhor, ou JEHOVAH, nunca pode ser comunicado a quem quer que seja, ele somente foi ao Humano do Senhor. Este Humano foi feito Ser Divino, isto é, JEHOVAH. Que o Senhor quanto a uma e a outra Essências seja JEHOVAH, foi visto (n. 1736, 2004, 2005, 2018, 2025, 2156, 2329, 2921, 3023, 3035).
[3] O Existir é predicado também do Senhor, mas apenas quando Ele esteve no mundo e aí revestiu-Se do Divino Ser; mas desde que Ele se fez Divino Ser, o Existir não pode mais ser predicado d’Ele de outro modo senão como algum Procedente d’Ele; o que procede d’Ele é o que se mostra como o Existir n’Ele, contudo, não está n’Ele, mas procede d’Ele, e faz com que os homens, os espíritos e os anjos existam, isto é, vivam. O existir no homem, no espírito e no anjo, é viver, e o seu viver é a felicidade eterna. A felicidade da vida eterna é aquilo a que corresponde, no sentido supremo, a Eternidade que procede do Divino Ser do Senhor. Que seja a felicidade da vida eterna que é significada no sentido interno pela ‘bem-aventurança’, isso é evidente; então, que, no sentido externo, seja o prazer das afeições, assim se vê sem necessidade de explicação.
[4] Mas é o prazer das afeições do vero e do bem, prazer que corresponde à felicidade da vida eterna, que é significado. Todas as afeições têm seus prazeres, mas quais são as afeições tais são os prazeres; as afeições do mal e do falso também têm seus prazeres, e antes que o homem seja regenerado e receba do Senhor as afeições do vero e do bem, esses prazeres se mostram como os únicos, ao ponto que [o homem] creia que não existem outros prazeres, e que, consequentemente, caso fosse deles privado, pereceria inteiramente. Mas os que recebem do Senhor os prazeres das afeições do vero e do bem, veem e percebem gradualmente quais são os prazeres dessa vida que eles tinham crido ser os únicos, isto é, veem que eles são relativamente vis, e até imundos; e quanto mais progride nos prazeres das afeições do vero e do bem, tanto mais o homem começa a desprezar aqueles prazeres do mal e do falso e, enfim, estar averso a eles.
[5] Conversei algumas vezes, na outra vida, com os que estiveram nos prazeres do mal e do falso, e foi-me concedido lhes dizer que não tinham a vida senão quando privados de seus prazeres. Eles, porém, disseram, como os que são tais no mundo, que, se eles ficassem privados de tal prazer, nada mais haveria da vida deles. Foi dado, porém, responder-lhes que é então que a vida primeiro começa, e com esta vida uma felicidade tal qual existe no céu, que é relativamente inefável. Mas não puderam compreender isso, porque o que é desconhecido crê-se que nada é. Sucede o mesmo, no mundo, com todos aqueles que estão no amor de si e no amor do mundo, e que não estão, por isso, em caridade alguma; eles conhecem o prazer desses amores, mas não o prazer desta, a saber, da caridade, razão por que também não sabem de forma alguma o que é a caridade, e ainda menos que haja algum prazer na caridade, quando, todavia, o prazer da caridade é o que enche todo o céu e faz ali a bem-aventurança e a felicidade; e se se quiser crer, também faz a inteligência e a sabedoria com os prazeres [que elas proporcionam], pois o Senhor influi nos prazeres da caridade com a luz do vero e com a chama do bem, por conseguinte, com a inteligência e a sabedoria. No entanto, os falsos e os males rejeitam essas coisas, as sufocam e as pervertem, de onde resultam a insensatez e a insanidade. Por estas explicações, pode-se ver o que é o prazer das afeições, qual ele é, e que ele corresponde à felicidade da vida eterna.
[6] O homem deste século crê que, se somente na última hora da morte ele tem a confiança da fé, seja qual for a afeição em que ele tenha vivido durante todo o curso da sua vida, ele pode vir para o céu. Algumas vezes conversei também com os que assim viveram e que também tiveram tal crença; quando esses tais chegam na outra vida, a princípio eles não pensam em outra coisa senão que eles podem entrar no céu, não tendo em conta alguma a sua vida de antes, isto é, não refletindo que por essa vida eles introduziram em si o prazer da afeição do mal e do falso pelo [amor] de si e do mundo, que eles tinham tido por fim. Foi-me permitido dizer-lhes que cada um pode ser admitido no céu, porque o Senhor não nega o céu a quem quer que seja; e que, se forem admitidos, poderão saber se podem lá viver. Alguns que constantemente tiveram essa crença foram também admitidos. Como, porém, ali é a vida do amor ao Senhor e do amor para com o próximo que constitui toda a esfera e toda a felicidade da vida, quando ali chegaram, começaram a experimentar angústia — pois em tal esfera eles não podiam respirar — e a sentir então a imundície de suas afeições, por conseguinte, uma tortura infernal; por isso se precipitaram, dizendo que desejavam estar muito longe dali, e se admiravam de que o céu fosse tal, que para eles era um inferno. Daí se vê qual é um prazer e qual é o outro, e que aqueles que estão no prazer das afeições do mal e do falso não podem de modo algum estar entre os que estão no prazer da afeição do bem e do vero, e que esses prazeres são opostos assim como o céu e o inferno (ver n. 537, 538, 539, 541, 547, 1397, 1398, 2131, 2401).
[7] Enfim, quanto ao que diz respeito à felicidade da vida eterna, o homem que está na afeição do bem e do vero, quando vive no mundo, não pode percebê-la, mas em vez dessa felicidade ele percebe uma sorte de prazer; a causa é porque no corpo ele está nos cuidados mundanos e, por conseguinte, em ansiedades, o que faz com que a felicidade da vida eterna, que está nele interiormente, não possa então se manifestar de outro modo, pois quando ela influi desde os interiores nos cuidados e nas ansiedades que estão exteriormente no homem, cai ali entre os cuidados e ansiedades, e se torna uma sorte de prazer obscuro, mas ainda assim é um prazer em que há bem-aventurança, e nele está essa felicidade. Tal é o contentamento de estar em Deus; mas quando o homem é despojado do corpo e, ao mesmo tempo, dessas coisas mundanas, a felicidade, que assim estava oculta na obscuridade em seu homem interior se põe na frente e se revela.
[8] Como a afeição tem sido tantas vezes mencionada, deve-se dizer o que se entende por afeição. A afeição não é outra coisa senão o amor, mas é o contínuo do amor. Com efeito, pelo amor o homem é afetado ou do mal e falso, ou do bem e vero. Este amor, porque se aproxima e fica em todas e em cada uma das coisas que lhe pertencem não é percebido como amor, mas é variado segundo as coisas e segundo os estados e as mudanças dessas coisas, e isso continuamente em cada uma das coisas que o homem quer, pensa e faz. Este contínuo do amor é o que se chama afeição, e é tal contínuo que reina na vida do homem e que faz todo prazer nele, e porque este é assim, ele faz a sua vida mesma, pois a vida do homem não é nada mais do que o prazer que pertence à afeição, assim, não é nada mais do que a afeição que pertence ao seu amor. O amor é o querer do homem e, portanto, é o seu pensar e, por consequência, o seu agir.

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