Texto
. ‘Removendo dali todo gado salpicado e malhado’; que signifique que será separado todo o bem e todo o vero que lhe pertence, com o qual foi misturado o mal, que é o ‘salpicado’, e com o qual foi misturado o falso, que é o ‘malhado’, é o que se vê pela significação de ‘remover’, que é separar; e pela significação do ‘gado’ [ou gado miúdo], que aqui são as cabras e os cordeiros, que são os bens e os veros (n. 1824, 3519). Que nessas palavras e nas que seguem neste capítulo haja arcanos, pode-se ver por isso, que a maior parte não seria digna de ser mencionada na Palavra Divina a não ser que nelas houvesse coisas mais secretas além das que se manifestam na letra; como, por exemplo, que Jacó haja pedido como salário o gado miúdo salpicado e malhado entre as cabras, e negro entre os cordeiros; que depois ele tenha posto nas pias varas de álamo fresco e de aveleira descascadas até o branco diante dos rebanhos de Labão, quando eles se aqueciam; e, quanto aos cordeiros, que ele tenha dado as faces do rebanho ao listrado e negro no rebanho de Labão, e que assim ele se tornou rico não por uma boa conduta, mas por uma má. Em tudo isso não se apresenta coisa alguma de Divino, quando, todavia, a Palavra é Divina em todas e em cada uma das coisas que ela contém, e até quanto ao menor iota ela é Divina. E, além disso, saber isso não é de modo algum útil à salvação, nem mesmo a mínima coisa, quando, todavia, a Palavra, porque é Divina, não contém em si senão coisas tais que conduzem à salvação e à vida eterna.
[2] Por estas observações e outras semelhantes em outros lugares, cada um pode concluir que há aqui um arcano, e que cada uma dessas coisas, ainda que sejam tais no sentido da letra, trazem dentro as coisas mais Divinas. Quanto ao que elas trazem dentro, ninguém pode jamais ver, exceto pelo sentido interno, isto é, a não ser que se saiba o modo como essas coisas são percebidas pelos anjos, pois os anjos estão no sentido espiritual, quando o homem está no histórico natural. Pelo que se tem exposto aqui e em outros lugares, pode-se ver claramente, quanto esses dois sentidos parecem afastados um do outro, embora estejam muito conjuntos. O arcano mesmo que está encerrado nessas palavras e nas palavras seguintes deste capítulo, pode, de fato, ser de algum modo conhecido pelas coisas que antes foram ditas a respeito de Labão e de Jacó, a saber, que Labão é o bem tal pelo qual os bens e veros genuínos podem ser introduzidos, e que Jacó é o bem que pertence ao vero. Como, porém, há poucos que saibam o que é o natural correspondente ao bem do espiritual, e que há menos ainda que saibam o que é o bem espiritual, e que deve haver uma correspondência, e muito menos ainda que saibam que uma sorte de bem que se apresenta como bem é o intermediário para introduzir os bens e os veros genuínos, por isso os arcanos que tratam dessas coisas não podem ser expostos facilmente de um modo que sejam compreendidos, pois eles caem na sombra do entendimento, e é como quando alguém fala uma língua estranha: seja qual for o modo que se exponha claramente o assunto de que se trata, quem escuta não pode entretanto entender. Mas ainda que tal aconteça, deve-se dizer, porque o que a Palavra esconde no sentido interno deve ser aberto.
[3] Aqui, no sentido supremo, se trata do Senhor, de que modo Ele mesmo fez Divino o Seu Natural; e no sentido representativo se trata do natural no homem, como o Senhor o regenera e reconduz à correspondência com o homem interior dele, isto é, com aquele que deve viver depois da morte do corpo e então é chamado o espírito do homem, e que, depois de se ter desprendido do corpo, tem consigo todas as coisas que pertencem ao homem externo, exceto os ossos e a carne. A não ser que a correspondência do homem interno com o homem externo tenha sido feita em tempo, ou na vida do corpo, ela não se faz em seguida; trata-se aqui, no sentido interno, da conjunção de um e do outro por meio da regeneração pelo Senhor.
[4] Tratou-se dos veros gerais que o homem deve receber e reconhecer antes de poder ser regenerado. Esses veros foram significados pelos dez filhos que Jacó teve de Leah e das servas; e depois que o homem os recebeu e reconheceu, tratou-se da conjunção do homem externo com o homem interior, ou do homem natural com o homem espiritual, o que foi significado por José. Agora, segundo a ordem, se trata da frutificação do bem e da multiplicação do vero, as quais então existem primeiro quando a conjunção foi feita, e existem tanto quanto a conjunção se faz. São essas as coisas que são significadas pelo rebanho que Jacó adquiriu pelo rebanho de Labão; o rebanho aí significa o bem e o vero, como em muitas outras passagens da Palavra, o ‘rebanho de Labão’, o bem que é representado por Labão, bem cuja qualidade já se deu; o ‘rebanho de Jacó’, o bem e o vero genuínos que são adquiridos por meio do bem que Labão representa.
[5] Mas quanto ao modo como os bens e os veros genuínos são adquiridos, é esse modo que é descrito aqui; mas não pode ser compreendido de modo algum, exceto se se souber o que é significado no sentido interno pelo salpicado, pelo malhado, pelo negro e pelo branco; tratar-se-á, pois, deles primeiramente. O salpicado e o malhado, é o que provém do negro e do branco; o negro significa, em geral, o mal, em particular, o proprium do homem, porque este proprium não é senão o mal; mas o tenebroso significa o falso, e em particular os princípios do falso; o branco, no sentido interno, significa o vero, propriamente a Justiça e o Mérito do Senhor, e por conseguinte a Justiça e o Mérito do Senhor no homem, esse branco é denominado branco brilhante [ou cândido], pois ele resplandece pela luz que procede do Senhor. Mas o ‘branco’, no sentido oposto, significa a justiça própria ou o mérito próprio. Com efeito, o vero sem o bem tem consigo um tal mérito, pois quando alguém faz o bem não a partir do bem que pertence ao vero, então quer sempre ser retribuído, pois o faz por causa de si; mas quando faz o vero a partir do bem, então [esse vero] é iluminado pela luz que procede do Senhor. Daí se vê claramente o que é ‘malhado’, a saber, que é o vero com o qual foi misturado o falso; e o que é o ‘salpicado’, a saber, que é o bem com o qual foi misturado o mal.
[6] Na outra vida, aparecem em realidade cores tão belas e tão esplêndidas, que elas não podem ser descritas (n. 1053, 1624); elas resultam das variegações da luz e da sombra no branco e no negro; mas a luz ali, apesar de aparecer diante os olhos como luz, ainda assim não é como a luz no mundo; a luz no céu tem em si a inteligência e a sabedoria, pois a Divina Inteligência e a Divina Sabedoria procedentes do Senhor se mostram ali como luz, e também iluminam todo o céu (n. 2776, 3138, 3167, 3190, 3195, 3222, 3223, 3225, 3339, 3340, 3341, 3485, 3636, 3643, 3862). A sombra também, na outra vida, embora apareça como sombra, não é, contudo, como a sombra no mundo; com efeito, a sombra ali é a ausência da luz, por conseguinte, a carência de inteligência e de sabedoria. Daí vem, pois, o branco e o negro, e como eles existem, um por essa luz em que há a inteligência e sabedoria, e o outro por essa sombra que é a carência da inteligência e da sabedoria, é evidente que por eles, a saber, pelo branco e o negro, são significadas as coisas que acabam de ser ditas. Daí então as cores, que são as modificações da luz e da sombra nos brancos e nos negros como em planos; as variegações que daí resultam, são essas que se chamam cores (n. 1042, 1043, 1053).
[7] Por essas explicações se pode ver agora o que é o ‘salpicado’ (ou o que é marcado e semeado de pontos, a saber, negros e brancos), isto é, que é o bem com o qual foi misturado o mal; e também o que é o ‘malhado’, isto é, que é o vero com o qual foi misturado o falso. Estas são as coisas que foram tomadas do bem de Labão, e que servem para introduzir os bens e veros genuínos; mas como essas coisas podem servir, é um arcano que pode de fato se apresentar claramente diante dos que estão na luz do céu, pois, como foi dito, a inteligência está nessa luz; mas ele não pode se apresentar claramente diante dos que estão na luz do mundo, exceto se a luz do mundo, deles, for iluminada pela luz do céu, como com os que foram regenerados. Com efeito, cada regenerado vê os bens e os veros em seu lume natural a partir da luz do céu, pois a luz do céu faz a vista intelectual deles, e a luz do mundo a sua vista natural.
[8] Contudo, é necessário dizer em poucas palavras como as coisas acontecem: No homem não existe bem puro, ou bem com o qual o mal não tenha sido misturado, nem vero puro, ou vero com o qual o falso não tenha sido misturado. Com efeito, o voluntário do homem não é senão o mal, do qual influi continuamente o falso em seu intelectual; pois, como é notório, o homem, pelo hereditário, traz consigo o mal sucessivamente acumulado dos pais; desse mal ele próprio produz em ato o mal e o faz seu, e acrescenta ainda o mal que ele faz por si mesmo. Mas os males no homem são de diferentes gêneros; há males com os quais os bens não podem estar misturados, e há males com os quais eles podem; o mesmo acontece com os falsos; se tal não sucedesse, nunca homem algum teria podido ser regenerado. Os males e os falsos com os quais os bens e os veros não podem estar misturados são os que são contrários ao amor a Deus e ao amor para com o próximo, como são os ódios, as vinganças, as crueldades e, por conseguinte, o desprezo pelos outros quando os comparam a si próprios; depois também, por consequência, as persuasões do falso. Mas os males e os falsos com os quais os bens e os veros podem estar misturados são os que não são contrários ao amor a Deus e ao amor para com o próximo.
[9] Por exemplo, se alguém ama a si mais do que os outros, e que por esse amor ele se aplica a exceder os outros na vida moral e civil, nos conhecimentos e nos doutrinais, e em ser elevado às dignidades e também em se enriquecer mais do que os outros, e que, apesar disso, reconhece e adora a Deus, presta cordialmente serviços ao próximo e faz por consciência o que é justo e equitativo; o mal desse amor de si é um mal com o qual o bem e o vero podem estar misturados; porque é um mal que é o proprium do homem, e que nasce do hereditário; se ele fosse arrebatado de repente, seria extinguir o fogo dessa primeira vida. Mas se, ao contrário, ele ama a si próprio mais do que os outros, e que por esse amor ele tem desprezo pelos outros ao compará-los a si próprio, ódio contra os que não o honram e não lhe prestam, por assim dizer, um culto, e que por essa razão ele sente o prazer do ódio na vingança e na crueldade, o mal de um tal amor é um mal com o qual o bem e o vero não podem estar misturados, porque eles são contrários.
[10] Seja ainda um exemplo: Se alguém crê estar puro de pecados e tão limpo como o que se lava na água, quando uma vez ele fez penitencia e cumpriu o que lhe foi imposto por penitencia, ou quando ele ouviu o confessor fazer-lhe uma tal declaração depois da confissão, ou depois que ele participou na Santa Ceia, e se esse homem vive uma vida nova, na afeição do bem e do vero, há nisso um falso com o qual o bem pode estar misturado; mas se ele vive a vida da carne e do mundo como antes, então é um falso com o qual o bem não pode estar misturado.
[11] Seja ainda para exemplo: aquele que tem esta crença que o homem é salvo por crer o bem e não por querer o bem. E ele, entretanto, quer o bem e, por conseguinte, faz o bem. É isso um falso ao qual podem estar adjuntos o bem e o vero, mas não se ele não quer o bem e, por conseguinte, não faz o bem. Outro exemplo: se alguém não sabe que se ressuscita depois da morte e, por conseguinte, não crê na ressurreição, bem como o que sabe mas ainda assim duvida e quase nega, e que, apesar disso, vive no vero e no bem, o bem e o vero podem também estar misturados com esse falso; mas se vive no falso e no mal, então eles não podem estar misturados com esse falso, porque são contrários, e o falso destrói o vero, e o mal destrói o bem.
[12] Ainda um exemplo: o fingimento e a astúcia tendo por fim o bem, quer do próximo, quer da pátria, quer da igreja, são coisas da prudência; os males que neles estão misturados podem estar misturados com o bem pelo fim e por causa do fim. Ao contrário, o fingimento e astúcia que tem por fim o mal não é da prudência, mas é da astúcia e o dolo [ou velhacaria], com os quais o bem não pode de forma alguma estar conjungido, pois o dolo, que é o intuito do mal, introduz o infernal em todas e em cada uma das coisas que estão no homem, põe no meio o mal, e rejeita o bem para as periferias; essa ordem é a ordem infernal mesma; o mesmo sucede em inúmeros outros casos.
[13] Que haja males e falsos aos quais podem estar adjuntos bens e veros, pode-se ver por este único fato: que haja tantos dogmas e diversos doutrinais, que na sua maioria são inteiramente heréticos, e, apesar disso, em cada um desses dogmas e desses doutrinais há homens que são salvos; e mais, que entre as nações que estão fora da igreja há também a igreja do Senhor, e que, apesar de estarem nos falsos, contudo, os que vivem a vida da caridade são salvos (n. 2589–2604), o que não poderia de modo algum acontecer caso não houvesse males com os quais pudessem ser misturados bens, e falsos com os quais pudessem estar misturados veros. Com efeito, os males com os quais estão misturados bens, e os falsos com os quais estão misturados veros, são admiravelmente dispostos em ordem pelo Senhor, pois eles não estão conjuntos, e menos ainda unidos, mas são adjuntos e aplicados, e até de modo que, no meio, como em um centro, estejam os bens com os veros, e que gradualmente em torno ou sobre as circunferências estejam tais males e tais falsos, de onde resulta que estes são iluminados por aqueles, e são diversificados como os brancos e os negros pela luz que parte do meio ou do centro; essa ordem é a ordem celeste. São essas as coisas que são significadas, no sentido interno, pelos salpicados e os malhados.