. ‘E todo gado miúdo negro nos cordeiros’; que signifique o proprium da inocência, que pertence ao bem significado por ‘Labão’, é o que se vê pela significação do ‘negro’, que é o proprium, de que se tratou (n. 3993); e pela significação do ‘cordeiro’, que é a inocência, de que se tratará no que segue. Eis o que acontece com o proprium da inocência, que é significado pelo ‘negro nos cordeiros: Em todo bem deve haver a inocência para que ele seja o bem; a caridade sem a inocência não é a caridade; menos ainda o amor ao Senhor; é por isso que a inocência é o essencial mesmo do amor e da caridade, por conseguinte, do bem. O proprium da inocência consiste em saber, em reconhecer e em crer, não de boca, mas de coração, que nada senão o mal procede de si, e que todo bem procede do Senhor; que, por conseguinte, o proprium do homem não é outra coisa senão o negro, a saber, tanto o proprium voluntário (que é o mal), como o proprium intelectual (que é o falso). Quando o homem está de coração nessa confissão e nessa fé, então o Senhor influi com o bem e vero, e lhe insinua o proprium celeste, que é o branco brilhante e resplandecente. Nunca alguém pode estar em uma verdadeira humilhação, salvo se estiver de todo coração nesse reconhecimento e nessa fé, pois então está na destruição completa de si [in sui annihilatione est], e mesmo na aversão de si e, portanto, na ausência de si; assim, então está em estado de receber o Divino do Senhor; daí vem que o Senhor influi com o bem no coração humilde e contrito. [2] Tal é o proprium da inocência, que aqui é significado pelo ‘negro nos cordeiros’, que Jacó escolheu para si; mas o ‘branco nos cordeiros’ é o mérito que é posto nos bens. Que o ‘branco’ seja o mérito, é o que foi dito acima (n. 3993); Jacó não escolheu esse branco, porque ele é contrário à inocência; com efeito, aquele que põe o mérito nos bens, este reconhece e crê que todo bem procede de si, pois nos bens que ele faz, é a si próprio que ele considera e não o Senhor, e, por conseguinte, ele requer uma retribuição em razão do mérito, motivo pelo qual um tal homem despreza os outros quando os compara a si; ele até faz mais, ele os condena, assim, ele se afasta outro tanto da ordem celeste, isto é, do bem e do vero. Sendo assim, pode-se ver que a caridade para com o próximo e o amor ao Senhor nunca podem existir, exceto se a inocência estiver neles, consequentemente, que nenhum homem, exceto se houver nele alguma inocência, pode vir ao céu, conforme as palavras do Senhor: “Amém vos digo: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele” (Mc. 10:15; Lc. 18:17); nesta e em outras passagens da Palavra, pela criança é significada a inocência. (Vejam-se as coisas que já foram ditas a esse respeito, a saber, que a infância não é a inocência, mas que a inocência habita na sabedoria, n. 2305, 3494; qual é a inocência da infância e qual é a inocência da sabedoria, n. 2306, 3183, então, qual é o proprium que o Senhor vivificou pela inocência e pela caridade, n. 154; que é a inocência que faz com que o bem seja bem, n. 2526, 2780.) [3] Que os ‘cordeiros’ signifiquem a inocência, pode-se ver por muitas passagens na Palavra, das quais se permite referir estas para confirmar. Em Isaías: “Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabritinho se deitará, e o bezerro e o leãozinho, e o boi [estarão] juntos; e um menino pequeno os conduzirá” (11:6); aí se trata o Reino do Senhor e do estado de paz e de inocência ali; o ‘lobo’ está em lugar dos que são contra a inocência, e o ‘cordeiro’, dos que estão na inocência. Semelhantemente em outra passagem, no mesmo: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão, como o boi, comerá palha, e para a serpente o pó [será] o seu pão; não farão mal e não danificarão em toda a montanha da Minha santidade” (Is. 65:25); o ‘lobo’, como acima, está em lugar daqueles que são contra a inocência, e o ‘cordeiro’, dos que estão na inocência; como o lobo e o cordeiro são opostos, o Senhor, em Lucas, também disse aos setenta que Ele enviou: “Eis, Eu vos envio como cordeiros no meio dos lobos” (10:3). Em Moisés: “Fê-lo sugar o mel da rocha, e o azeite do seixo da rocha, a manteiga do gado, e o leite do rebanho, com a gordura dos cordeiros e dos carneiros, filhos de Bashan” (Dt. 32:13, 14); aí, no sentido interno, se trata das coisas celestes da Igreja Antiga; a ‘gordura dos cordeiros’ é a caridade da inocência. [4] Os cordeiros, na língua original, são expressos por meio de vários nomes, e por esses nomes são significados os diversos graus da inocência, pois, como se disse, em todo bem deve estar a inocência para que ele seja o bem e, por isso, o mesmo acontece com o vero; aqui, os cordeiros são expressos pela mesma palavra que designa também as ovelhas308, como no Lv. 1:10; 3:7; 5:6; 17:3; 22:19; Nm. 18:17, e é a inocência da fé, que pertence à caridade, que é significada por outras palavras em outras passagens, como em Isaías: “Enviai o cordeiro do dominador da terra, da rocha [que está] para o deserto, para a montanha da filha de Sião” (16:1); ainda por uma outra palavra no mesmo: “O Senhor JEHOVIH como forte virá, e o braço d’Ele dominará para Ele; ... Como um pastor, ao seu rebanho apascentará, em seu braço recolherá os cordeiros, e no seu seio [os] levará, os que mamam conduzirá” (Is. 40:10, 11); ‘recolher os cordeiros em seu braço e levá-los em seu seio’ está pelos que estão na caridade em que há a inocência. [5] Em João: “Jesus, manifestando-Se a Pedro, disse: Simão de Jonas, Amas-Me mais do que a estes? Ele diz-lhe: Sim, Senhor; Tu sabes que Te amo. [Ele] diz a ele: Apascenta os Meus cordeiros. Diz-lhe outra vez: Simão de Jonas, Amas-Me? Diz-Lhe: Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo a. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas” (21:15,16); por ‘Pedro’, aqui como em outras passagens, é significada a fé (ver o prefácio do capítulo 18 e o prefácio do capítulo 22 de Gênesis, e o n. 3750); e como a fé não é a fé exceto se ela proceder da caridade para com o próximo e, assim, do amor ao Senhor, e que a caridade e o amor não são caridade nem amor a não ser que provenham da inocência, é por isso que o Senhor pergunta primeiro se [ele] O ama; isto é, se o amor está na fé; e diz depois: “Apascenta os Meus cordeiros”, isto é, aqueles que estão na inocência; e que, em seguida, depois da mesma pergunta, Ele disse: “Apascenta as minhas ovelhas”, isto é, aqueles que estão na caridade. [6] Como o Senhor é a Inocência mesma, que está em Seu Reino, pois dele procede o todo da inocência, por isso o Senhor é denominado ‘Cordeiro’, como em João: “No dia seguinte, João Batista viu Jesus vindo a ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, Que tira o pecado do mundo” (1:29, 36). E no Apocalipse: “Contra o Cordeiro pelejarão, mas o Cordeiro os vencerá, porque é Senhor dos senhores, e Rei dos reis, e os que estão com Ele [são] os chamados e os eleitos” (17:14). E, além disso, em outras passagens do Apocalipse, como 5:6; 6:1, 16; 7:9, 14, 17; 12:11; 13:8; 14:1, 4; 19:7, 9; 21:22, 23, 27; 22:1, 3. Que o ‘Cordeiro Pascoal’ seja, no sentido supremo, o Senhor, isso é notório, pois a Páscoa significa a glorificação do Senhor, isto é, o revestimento do Divino quanto ao Humano; e, no sentido representativo, significa a regeneração do homem; e também o ‘Cordeiro Pascoal’ significa aquilo que é o essencial da regeneração, a saber, a inocência, pois ninguém pode ser regenerado senão pela caridade em que há a inocência. [7] Como a inocência é o principal no Reino do Senhor e é ali o celeste mesmo, e tanto os sacrifícios como os holocaustos representavam as coisas espirituais e celestes do Reino do Senhor, por isso o essencial mesmo desse Reino, isto é, a inocência, era representada pelos cordeiros; razão pela qual o holocausto perpétuo ou cotidiano se fazia de cordeiros, um de manhã e um outro entre as tardes (Êx. 29:37, 38, 39; Nm. 28:3, 4); e ele era duplo nos dias de sabbath (Nm. 28:9, 10); e ele se fazia ainda com maior número de cordeiros nas festas estabelecidas (Lv. 23:12; Nm. 28:11, 17, 19, 27; 29:1 até o fim). Que a que tinha parido um filho, depois dos dias de sua purificação, oferecia em um holocausto um cordeiro e um pombinho ou uma rola (Lv. 12:6), era para que fosse significado o efeito do amor conjugal. Que este seja a inocência, a saber, o amor conjugal, foi visto (n. 2736), e também porque pelas crianças é significada a inocência.