Texto
. ‘E para o rebanho que se juntou depois, não pôs’; que signifique os que eram constrangidos, é o que se vê pela significação de ‘juntar-se depois’. Que ‘juntar-se primeiro’ seja o espontâneo, ou o livre, mostrou-se acima (n. 4029); daí se vê que ‘juntar-se depois’ seja o constrangido, ou o não livre, e vê-se também pela ligação das coisas no sentido interno, bem como por isso, que aqui não se diz ‘aquecer-se’ como foi dito a respeito do primeiro ajuntamento, visto que por ‘aquecer-se’ é significada a afeição e, aí, o ardor da afeição. Tudo que não provém da afeição provém do não espontâneo ou do não livre, porque tudo que é espontâneo ou livre pertence à afeição, ou ao amor (n. 2870); é ainda evidente pela derivação dessa palavra na língua original, que é uma falta; quando, de fato, falta o ardor da afeição, então o livre cessa, e o que se faz então se diz não livre, e enfim coagido.
[2] Que toda conjunção do bem e do vero se faça no livre, ou pelo espontâneo, por conseguinte, toda reforma e regeneração, é o que se pode ver pelos lugares acima citados (n. 4029). Consequentemente, que no não livre (ou pelo constrangido) não é possível fazer-se nenhuma conjunção, assim, nenhuma regeneração; o que é o livre e de onde provém o livre, foi visto (n. 2870 a 2893), onde se tratou do livre do homem. Aquele que não sabe que nenhuma conjunção do vero e do bem, isto é, nenhuma apropriação, nem, por conseguinte, nenhuma regeneração, pode ser feita senão no livre do homem, esse, quando raciocina sobre a Providência do Senhor, sobre a salvação do homem e sobre a danação de um grande número de homens, se precipita em meras sombras e, por conseguinte, em graves erros. Com efeito, ele considera que se o Senhor quiser Ele salvar a quem quer que seja, e isto por inúmeros meios, como por milagres, por mortos que ressuscitam, por imediatas revelações, por anjos que [o] desviariam dos males e impeliriam ao bem por uma poderosa força manifesta, por muitos estados nos quais, quando o homem é introduzido, ele faz penitência, e por muitos outros meios.
[3] Mas ele não sabe que todos esses meios são constrangimentos, e que o homem não pode ser reformado por meio deles, pois tudo que constrange o homem, isto não põe nele afeição alguma; e se o constrangimento for tal que se imponha, ele se liga à afeição do mal. Com efeito, parece que ele infunde alguma coisa de santo, e até infunde, mas a verdade é que quando o estado muda, o indivíduo volta às suas precedentes afeições, a saber, aos males e aos falsos, e então esse santo se conjunge com males e falsos e se torna profano a tal ponto que ele introduz no inferno mais grave de todos; porque tal indivíduo reconhece primeiramente e crê, e até é afetado pela santidade, e depois o nega, e mais ainda o tem em aversão. Que os que profanam sejam aqueles que reconhecem de coração e, depois, negam, mas não os que não reconheceram de coração, foi visto (n. 301, 302, 303, 571, 582, 593, 1001, 1008, 1010, 1059, 1327, 1328, 2051, 2426, 3398, 3399, 3402, 3898). Daí vem que hoje não se fazem milagres manifestos, mas se fazem os que não são manifestos, ou que não são notados, e isso a fim de que não infundam o que é santo, e não tomem do homem o livre; e é por isso que os mortos não ressuscitam, e que um indivíduo não é, por meio de revelações imediatas, nem por anjos, desviado dos males, e levado ao bem por uma poderosa força manifesta.
[4] É no livre do homem que o Senhor opera, e é por ele que Ele o curva [flectit]; com efeito, todo livre do homem pertence ao seu amor ou à sua afeição, por conseguinte, à sua vontade (n. 3158); se não recebe o bem e vero no livre, o bem e vero não pode ser-lhe apropriado ou tornar-se dele, pois aquilo a que é constrangido não é dele, mas é daquele que constrange, pois não faz isso de si próprio, embora isso seja feito por ele. Que às vezes parece que o homem é constrangido ao bem, como nas tentações e nos combates espirituais, mas então o seu livre é mais forte do que fora das tentações, foi visto (n. 1937, 1947, 2881). Parece também que o homem é constrangido ao bem quando ele constrange a si mesmo, mas uma coisa é constranger a si mesmo e outra coisa é ser constrangido. Quem constrange a si mesmo, o faz pelo livre que há dentro [de si], mas ser constrangido é sê-lo pelo não livre. Ora, sendo assim, pode-se ver em que sombras e, por conseguinte, em que erros podem se precipitar os que raciocinam sobre a Providência do Senhor, e sobre a salvação do homem, e sobre a danação de um grande número de homens, e que não sabem que é pelo livre que o Senhor opera e de nenhuma forma pelo constrangimento, porque nas coisas da santidade, se a santidade não for recebida pelo livre, é perigoso.