Texto
. Que, portanto, por essas palavras que são referidas aqui, é significado o estado da igreja então quanto ao bem, isto é, quanto à caridade para com o próximo e ao amor ao Senhor, é o que se vê pelo sentido interno dessas palavras, que é este:
“Logo, porém, depois da aflição destes dias” significa o estado da igreja quanto ao vero que pertence à fé, estado de que brevemente se trata nas coisas precedentes. Na Palavra, aqui e ali a desolação do vero é denominada ‘aflição’; que os ‘dias’ sejam os estados, foi visto (n. 23, 487, 488, 493, 893, 2788, 3462, 3785); daí, é evidente que por estas palavras é significado que, depois que não houver mais nenhuma fé, não haverá nenhuma caridade, pois é a fé que conduz para a caridade, porque ela ensina o que é a caridade, e a caridade recebe a sua qualidade pelos veros que pertencem à fé, mas os veros da fé recebem da caridade a sua essência e a sua vida, como foi demonstrado várias vezes nas partes precedentes [desta obra].
[2] “O sol se escurecerá e a lua não dará a sua luz” significa o amor ao Senhor, que é o ‘sol’, e a caridade para com o próximo, que é a ‘lua’; ‘escurecer-se e não dar a sua luz’ significa que esse amor e essa caridade não se mostrarão, assim, que desaparecerão. Que o ‘sol’ seja o celeste do amor, e a ‘lua’, o espiritual do amor, isto é, que o ‘sol’ seja o amor ao Senhor, e a ‘lua’ a caridade para com o próximo, caridade que existe pela fé, foi visto (n. 1053, 1529, 1530, 2120, 2441, 2495). A causa de ser essa a significação do sol e da lua, é porque o Senhor, na outra vida, aparece como Sol aos que, no céu, estão no amor a Ele, os quais são chamados celestes, e aparece como Lua aos que estão na caridade para com o próximo, os quais são chamados espirituais (ver n. 1053, 1521, 1529, 1530, 1531, 3536, 3643).
[3] Nunca o Sol e a Lua nos céus, ou o Senhor são escurecidos nem perdem seu lume, mas brilham perpetuamente; assim também nem o amor ao Senhor nos celestes e a caridade para com o próximo nos espirituais, nos céus, nem na terra naqueles entre os quais os anjos estão, isto é, os que estão no amor e na caridade. Mas entre aqueles que não estão em amor algum nem em caridade alguma, mas que estão no amor de si e do mundo e, por isso, nos ódios e nas vinganças, eles introduzem em si próprios essa escuridão; tem-se isso como com o Sol do mundo, o Sol brilha perpetuamente, mas quando nuvens se interpõem, ele não aparece (ver n. 2441).
[4] “E as estrelas cairão do céu” significa que perecerão as cognições do bem e do vero. Na Palavra, por ‘estrelas’, onde são mencionadas, não é significada outra coisa (n. 1808, 2849). “E os poderes dos céus serão abalados” significa os fundamentos da igreja, dos quais se diz que são abalados e sacudidos quando perecem. De fato, a igreja na terra é o fundamento do céu, pois o influxo do bem e vero procedente do Senhor por meio dos céus nos bens e veros que estão no homem da igreja termina no último, razão por que quando o homem da igreja se acha em tal estado pervertido, como não admite mais o influxo do bem e vero, então se diz que os poderes dos céus estão abalados. É por isso que é sempre provido pelo Senhor que permaneça alguma coisa da igreja, e quando a velha igreja perece, que uma nova seja instaurada.
[5] “E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu” significa então a aparição do Vero Divino; o ‘sinal’ é a aparição, o ‘Filho do homem’ é o Senhor quanto ao Vero Divino (ver n. 2803, 2813, 3704); é a respeito dessa aparição, ou desse sinal, que os discípulos perguntam, quando dizem ao Senhor: “Dize-nos, quando estas coisas acontecerão, sobretudo, qual o sinal da Tua vinda e da consumação do século” (vers. 3 desse capítulo); pois eles sabiam, da Palavra, que, quando fosse consumado o século, o Senhor haveria de vir; e eles sabiam, pelo Senhor, que Ele havia de vir outra vez, e por isto tinham compreendido que o Senhor viria pela segunda vez ao mundo, não sabendo ainda que o Senhor tinha vindo outras tantas vezes quando a igreja tinha sido devastada; não que Ele tivesse vindo em pessoa, como quando Ele tomou o Humano por nascimento e o fez Divino, mas tinha vindo por aparições quer manifestas quais quando Ele apareceu a Abrahão em Mamre, a Moisés na sarça, ao povo de Israel na montanha de Sinai, a Josué quando ele entrou na terra de Canaã, quer por modos não assim manifestos, como pelas inspirações pelas quais [Ele deu] a Palavra; e enfim pela Palavra. Com efeito, na Palavra o Senhor está presente, pois todas as coisas que pertencem à Palavra procedem d’Ele e são a respeito d’Ele, como se pode ver pelas coisas que se tem mostrado muitas vezes até aqui.
[6] É essa aparição que é significada aqui pelo ‘sinal Filho do homem’ e de que se trata neste versículo. “E então gemerão todas as tribos da terra” significa que estarão na dor todos que estão no bem do amor e no vero da fé. Que o ‘gemido’ ou o pranto signifique isto, vê-se em Zacarias (cap. 12:10, 11, 12, 13, 14); e que as ‘tribos’ signifiquem todas as coisas do bem e do vero, ou do amor e da fé (n. 388, 3926); consequentemente, daqueles que estão no bem do amor e no vero da fé se diz as tribos da terra, porque aqui são significados os que estão dentro da igreja. Que a ‘terra’ seja a igreja, foi visto (n. 662, 1066, 1067, 1262, 1733, 1850, 2117, 2928, 3355).
[7] “E verão o Filho do homem vindo nas nuvens dos céus com poder e muita glória” significa que então será a Palavra revelada quanto ao seu sentido interno, no qual está o Senhor; o ‘Filho do homem’ é o Vero Divino que está na Palavra (n. 2803, 2813, 3704); a ‘nuvem’ é o sentido literal; o ‘poder’ se diz do bem e a ‘glória’ se diz do vero, que ali estão. Que seja isso o que é significado por ‘ver o Filho do homem vir nas nuvens do céu’, é o que foi explicado no Prefácio ao capítulo 18 do Gênesis. Essa vinda do Senhor é a que se entende aqui, mas não que aparecerá nas nuvens segundo a letra. O que segue agora diz respeito à instauração da nova igreja, a que se efetua quando a velha igreja foi devastada e rejeitada.
[8] “Enviará os anjos com trombeta e grande voz” significa a eleição, não por anjos visíveis, e ainda menos com trombetas e grandes vozes, mas pelo influxo do santo bem e do santo vero procedentes do Senhor por meio dos anjos, por isso é que pelos anjos, na Palavra, é significada alguma coisa que pertence ao Senhor (n. 1925, 2821, 3039); aqui eles significam coisas que são provenientes do Senhor e tratam do Senhor; pela ‘trombeta’ e a ‘grande voz’ é significada a evangelização, como também em outra passagem na Palavra.
[9] “E ajuntarão os eleitos dos quatro ventos desde a extremidade dos céus até a extremidade deles” significa a inauguração da nova igreja. Os ‘eleitos’ são os que estão no bem do amor e da fé (n. 3955 no fim, 3900); os ‘quatro ventos dos quais eles serão ajuntados’ são todos os estados do bem e do vero (n. 3708); ‘desde a extremidade dos céus até a extremidade deles’ são os internos e os externos da igreja. São essas então as coisas que são significadas por essas palavras do Senhor.