. ‘E ouviu as palavras dos filhos de Labão, dizendo’; que signifique os veros que pertencem ao bem significado por Labão, tais quais eles eram relativamente ao bem adquirido dali no Natural pelo Senhor, é o que se vê pela significação dos ‘filhos’, que são os veros (n. 489, 491, 533, 1147, 2623, 3337); e pela representação de ‘Labão’, que é o bem comum de uma estirpe colateral (n. 3612, 3665, 3778); assim, tal bem que serve para introduzir os bens e os veros genuínos (n. 3974, 3982, 3986); aqui, que serviu, pois se trata de sua separação. Que ‘Jacó tenha ouvido as palavras’, envolve, no sentido interno, quais eram relativamente ao bem adquirido no Natural pelo Senhor, como se pode ver pelas coisas que agora seguem, pois eram palavras de indignação, e disseram que Jacó tinha tomado tudo que era de seu pai, e Jacó viu que as faces de Labão não eram como de ontem e de anteontem. Que ‘Jacó’ represente o Natural do Senhor, e no capítulo precedente o bem do vero nesse Natural, foi visto (n. 3659, 3669, 3677, 3775, 3829, 4009). [2] O modo como acontece com o bem significado por Labão relativamente ao bem que pertence ao vero, que é representado por Jacó, pode-se ver pelas coisas que foram ditas e demonstradas no capítulo precedente; isso pode ser amplamente ilustrado pelo estado de regeneração do homem, de que se trata também aqui no sentido representativo. Quando o homem está sendo regenerado, então ele é mantido pelo Senhor em um certo bem intermediário; esse bem serve para introduzir os bens e os veros genuínos, mas depois que esses bens e veros foram introduzidos, ele é então separado deles. Qualquer um que conhece alguma coisa da regeneração e do novo homem, pode compreender que o novo homem é inteiramente outro em relação ao velho. Com efeito, o novo homem está na afeição das coisas espirituais e celestes, pois estas coisas fazem os seus prazeres e as suas bem-aventuranças, mas o velho homem está nas afeições das coisas mundanas e terrestres, e estas coisas fazem os seus prazeres e os seus encantos. O novo homem visa, portanto, os fins no céu, enquanto o velho homem visa os fins no mundo; daí é evidente que o homem novo é absolutamente outro e diferente do velho homem. [3] Para que o homem seja conduzido do estado do velho homem ao estado do novo, as cobiças do mundo devem ser despojadas e as afeições do céu devem ser revestidas; isso se faz por inúmeros meios que são conhecidos do Senhor somente; e muitos dos quais são também conhecidos dos anjos pelo Senhor, mas o homem os conhece pouco, se é que os conhece; mas, mesmo assim, todos e cada um desses meios foram manifestos no sentido interno da Palavra. Portanto, quando o homem de velho homem se torna novo homem, isto é, quando se regenera, isso se faz não em um momento, como alguns o creem, mas em muitos anos, e até durante toda a vida do homem até o seu último instante. Com efeito, é necessário que as suas cobiças sejam extirpadas e as afeições celestes sejam insinuadas, e que homem seja dotado de uma vida que ele não teve antes, e de que dificilmente ele teve antes algum conhecimento. Como, pois, os estados de sua vida devem sofrer tão grandes mudanças, não pode acontecer outra coisa senão que ele não fique muito tempo em um certo bem intermediário, a saber, em um bem que tanto participa das afeições do mundo como das afeições do céu, e se ele não for mantido nesse bem intermediário, ele nunca admite os bens e os veros celestes. [4] É esse bem, a saber, o bem intermediário, que é significado por Labão e pelo seu rebanho. Contudo, o homem não é mantido nesse bem intermediário senão durante o tempo necessário para que ele sirva a esse uso, mas quando esse bem serviu, ele é separado. É dessa separação que se trata neste capítulo. Que haja um bem intermediário, e que depois de ter servido ao uso ele seja separado, é o que pode ser ilustrado pelas mudanças de estado por que cada homem sobe desde a infância até a velhice. Ora, é bem conhecido que um é o estado do homem em sua infância, outro na sua meninice, outro em sua juventude, outro em sua idade adulta e outro em sua velhice. Também é muito conhecido que o homem deixa o estado da infância com os seus brinquedos quando passa ao estado da meninice, que ele deixa o estado da meninice quando passa ao estado da juventude, e de novo quando passa ao estado da idade adulta, e, enfim, este, quando passa ao estado da velhice; e caso se reflita, pode-se também conhecer que cada idade tem os seus prazeres, e que é por meio deles que se é introduzido sucessivamente nos que pertencem à idade seguinte, e que esses prazeres lhe serviram para lá chegar e atingir enfim o prazer da inteligência e da sabedoria na idade senil. [5] Daí se vê claramente que os prazeres anteriores são sempre postos de lado quando se reveste um novo estado de vida. Mas essa comparação pode somente servir para se conhecer que há prazeres intermediários, e que esses prazeres são abandonados quando o homem entra no estado seguinte. Quando, porém, o homem é regenerado, então o seu estado torna-se completamente diferente em relação ao anterior, e ele é conduzido a esse novo estado pelo Senhor não de um modo natural, mas de um modo sobrenatural. Ninguém chega a esse estado a não ser por meio dos meios de regeneração que somente o Senhor provê; assim, pelo bem intermediário, de que se tratou; e quando o indivíduo foi conduzido a esse estado a ponto de ter por fim não mais as coisas mundanas, terrestres e corporais, mas sim as que pertencem ao céu, então esse bem intermediário é separado. Ter por fim é amar um mais do que o outro.