Texto
. ‘E eis [que] ele [não era] de modo algum para com ele como ontem e anteontem322’; que signifique o estado inteiramente mudado para com o bem significado por Jacó, de quem, todavia, nada foi tomado, pois ele tinha o que lhe era próprio como anteriormente, exceto o estado quanto à conjunção, é o que se pode ver nisto que ‘[não era] de modo algum para com ele como ontem e anteontem’ seja o estado inteiramente mudado para com Jacó, isto é, para com o bem significado por Jacó; e [é também o que se pode ver] pelas coisas que precedem, que ele nada tomou de Labão, isto é, do bem significado por Labão, pois ele tinha o que lhe era próprio como antes.
[2] Para que se compreenda como a coisa se passa em relação aos bens e aos veros no homem, é necessário revelar o que dificilmente é conhecido por alguém. De fato se sabe e se reconhece que todo bem e todo vero procede do Senhor, e até mesmo alguns reconhecem que há um influxo, mas tal que o homem nada sabe a respeito; contudo, como não se sabe, pelo menos, como não se reconhece de coração, que ao redor do homem há espíritos e anjos, e que o homem interno está no meio deles e assim é governado pelo Senhor, acredita-se pouco nisso, embora se diga isso. Há, na outra vida, inúmeras sociedades que foram dispostas e reguladas pelo Senhor de acordo com todos os gêneros de bem e de vero, e, em oposição, há sociedades segundo todos os gêneros de mal e de falso, isto ao ponto que não há gênero de bem e de vero, nem espécie alguma desse gênero, nem mesmo diferença alguma especifica, que não tenham tais sociedades angélicas, ou aos quais não correspondam sociedades angélicas; e que, vice-versa, não há gênero de mal e de falso, nem espécie alguma desse gênero, nem mesmo diferença alguma específica, aos quais não correspondam sociedades diabólicas. Todo homem está na sociedade desses anjos e desses espíritos quanto aos pensamentos e às afeições, ainda que ele o ignore. Tudo que o homem pensa e quer vem daí, a tal ponto que se as sociedades de espíritos e de anjos, nas quais ele está, lhe fossem retiradas, imediatamente ele estaria sem pensamento e sem vontade, ainda mais, ele cairia em um instante inteiramente morto. Tal é o estado do homem, embora este imagine que de si próprio ele tem todas as coisas, e que não há inferno nem céu, ou que o inferno está longe afastado de si, e o céu também.
[3] Além disso, o bem no homem lhe parece alguma coisa simples ou como uma coisa só, entretanto ele é de tal sorte múltiplo e consiste em tantas coisas diversas, que jamais é possível explorá-lo sequer quanto às coisas gerais, o mesmo acontece com o mal no homem. Ora, tal qual é o bem no homem, tal é nele a sociedade dos anjos, e tal qual é o mal no homem, tal é nele a sociedade de maus espíritos. O homem chama para si mesmo as sociedades, ou ele próprio se coloca na sociedade dos que se lhe assemelham, pois o semelhante se associa ao semelhante; por exemplo, quem é avaro chama para si as sociedades dos espíritos que estão na cobiça da avareza; quem se ama acima dos outros e despreza os outros, chama para si os seus semelhantes; quem põe o seu prazer nas vinganças atrai espíritos que se acham em um semelhante prazer; e assim por diante; tais espíritos comunicam com o inferno, o homem está no meio deles, e é inteiramente governado por eles, a tal ponto que ele não pertence mais a si próprio mas está sob o poder deles, ainda que, pelo prazer que tem e, daí, pelo livre que resulta, ele acredita que governa a si próprio. Mas, quem não é avaro ou quem não se ama acima dos outros e não despreza os outros, e quem não tem prazer nas vinganças, está na sociedade de anjos que se lhe assemelham, e o Senhor o conduz por meio deles, e até mesmo pelo livre, para todo bem e vero para os quais ele se permite conduzir; e conforme ele se deixa conduzir para um bem mais interior e mais perfeito, assim ele é conduzido para sociedades angélicas mais interiores e mais perfeitas; as mudanças de estado não são outra coisa mais do que mudanças de sociedades. Que as coisas se passem assim, é o que resulta para mim de contínuas experiências, agora de muitos anos, pelas quais tornou-se-me tão familiar como uma coisa familiar ao homem desde a sua infância.
[4] A partir dessas explicações, agora se pode ver o modo como acontece em relação à regeneração do homem, e em relação aos prazeres e aos bens intermediários, por meio dos quais o homem é guiado pelo Senhor do estado do velho homem ao estado do novo homem, isto é, que isso se faz por meio das sociedades angélicas e por meio das mudanças de sociedades. Os bens e os prazeres intermediários não são senão sociedades tais, que são colocadas juntas [applicantur] ao homem pelo Senhor, a fim de que por meio delas ele possa ser introduzido nos bens e veros espirituais e celestes. Quando ele foi conduzido para essas, então aquelas sociedades se separam dele, e lhe são adjuntas sociedades mais interiores e mais perfeitas. Pelo bem intermediário significado por Labão, e pela separação desse bem, da qual se trata neste capítulo, não se entende outra coisa.